Oficina G3 lança clipe da música CONFIAR!

A produção foi dirigida por Hugo Pessoa, mesmo diretor do DVD Depois da Guerra.

E o disco Histórias e Bicicletas da banda Oficina G3 enfim ganha uma obra áudio-visual. O vídeo que foi gravado antes da saída do baterista Alexandre Aposan, conta a história de um mal que tem se tornado comum em nosso dias.

Com tiros, carro capotando, ação e drama, a obra é uma grata exceção a tudo que vem sendo produzido no gospel.

Acredito que se o mercado Gospel não levantasse tantos muros, esse clipe seria facilmente exibido em canais como o Multishow, Bis e MTV, pela qualidade de sua produção. Destaco o fato da música não ser proselitista, o que vai fazer com que esse clipe, pelo menos na internet, faça muito sucesso entre pessoas de todas as crenças.

Assista ao clipe abaixo.

Banda KARMEL (São Leopoldo/RS) procura guitarrista

A banda KARMEL, de São Leopoldo/RS, procura guitarrista solo para trabalho sério e autoral.

cd karmel

Nossos amigos estão trabalhando na pré-produção do primeiro disco que virá seguido de videoclipes e documentário. Interessados pode entrar em contato com Dudu Oliveira pelo Facebook.

Aproveitem para curtir um pouco o som dos caras, altamente recomendável!

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=iFveLtVB6Rc&list=PLAVpBRgetEZ33LnYOHUtWyJNGuWTA0gPM[/youtube]

Mais informações (e mais sons) podem ser encontradas nos links abaixo:

http://www.karmel.com.br
http://www.facebook.com/karmeloficial
http://www.youtube.com/karmeloficial
https://soundcloud.com/karmeloficial

Fiquem na paz

@marlosferreira

Qual é o lugar do rock no Brasil atual?

Antes de desenvolver o argumento, quero postar links para 3 matérias:

1 – Gostar de rock começa a ser diferencial positivo em processos seletivos, leia aqui.

2 – Pesquisa do IBOPE divulgada em Outubro de 2013 diz que 52% dos ouvintes de rock pertencem às classes A e B, leia aqui.

3 – Nenhum rock consta entre as 30 canções mais executadas no Brasil em 2013, leia aqui.

Os 3 fatos apontam para o mesmo lado. No primeiro caso a tendência tem um aspecto positivo, pois mostra que o preconceito contra os roqueiros está desaparecendo, mas por outro lado se o aspecto “rebeldia” do rock está sumindo, qual seu papel atual? O segundo nos diz que o rock não fala mais às classes econômicas mais baixas da sociedade. No terceiro fato, apenas a constatação de que no Brasil o rock definitivamente saiu de moda.

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O rock no Brasil não é mais a música da festa, da diversão, das baladas (acredite, já foi um dia), esta função está a cargo do sertanejo. Também não é mais a música do inconformismo político e social, o rap assumiu esta função. Além disso, ainda há a função que o rock perdeu para o funk, a função da música que incomoda, que faz o cara do carro ao lado fechar os vidros, a música que deixa os pais (ou pelo menos parte deles) envergonhados, a música sacana, debochada, simplória. O funk se apropriou disso tudo.

No decorrer da história da música pop, sempre houve ondas de ataque e contra-ataque. Em uma análise bem simplória, quando ele ficou pop, dançante e juvenil, veio uma onda psicodélica. Quando ficou muito bicho-grilo, veio uma onda de som mais pesado. Quando ficou muito virtuoso, veio a onda punk, e assim por diante. No Brasil esta cronologia não é tão clara, mas o fato é que o rock de uma maneira geral sofreu o contra-ataque de todos os outros estilos musicais, porém é bem claro que o funk  é que tomou o maior espaço, e a simplicidade em fazê-lo explica muito disso. Por mais simples que o rock seja, ainda exige tocar um instrumento em um nível aceitável, ter um mínimo de afinação, e conseguir compor algo. O funk não exige nada.

Que função então restou ao rock, a de ser a música de gente “diferenciada”?

Os números apontados na pesquisa do IBOPE não chegam a ser novidade alguma, o rock brasileiro sempre foi feito por elites e para elites. Gostem  (ou sintam-se elitizados) os roqueiros ou não.  As exceções aqui não o breve movimento punk no final dos anos 70 e início dos 80 (especialmente em SP, com ligação com os sindicatos da região do ABC) e a extrema popularização que o pop/rock brasileiro atingiu em parte da década de 80. Fora isso, nossas bandas surgem majoritariamente na classe média alta, e fala para esta classe. Pode falar para um público maior em momentos de popularidade, com canções mais pop, românticas, mas em sua essência controversa e questionadora, fala para poucos. Desta forma, voltamos a estaca  zero.

Temos então uma geração de roqueiros bem sucedidos profissionalmente, com suas tatuagens devidamente escondidas em belos ternos e sua rebeldia disfarçada em cabelos bem penteados e a barba bem feita. Obviamente isso não é um problema em si, pois ter sucesso profissional e não ser julgado por uma tatuagem é ótimo, mas então a frase célebre da Rita Lee “Roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido” está devidamente sepultada.

Talvez um dos últimos redutos onde rock ainda incomodava era dentro das igrejas, mas o rock como música de matriz anglo-saxã, baseada em melodias teve muito mais facilidade para romper esta barreira do que, por exemplo, ritmos africanos. O rock domesticado está devidamente integrado nos cultos, e mesmo quando não tão domesticado assim, é comum roqueiros cristãos curtindo sons mais pesados sem incomodar seus líderes.

Então temos um rock religioso, civilizado, respeitado, burguês, conservador e com público bem definido. Ele sobreviverá bem desta forma, não tenho dúvida, já é um senhor e precisa se preservar de certas estripulias adolescentes, já tem status de clássico e deixou muita gente rica. Seus maiores méritos no momento estão ligados ao aspecto estritamente musical, os resultados sonoros mais interessantes continuam saindo do rock e de suas vertentes, mas quem liga para isso hoje em dia? Somente o público do rock mesmo.

O suspiro de esperança vem justamente da acomodação, é a acomodação atual que pode estar gerando algo de diferente que possa renovar o rock, sua atitude, sua estética, seu discurso.  O rock precisa voltar a andar na contramão, voltar a incomodar, ao mesmo tempo, o rock se autodestrói quando os fatores se tornam todos favoráveis, ele implode, seu habitat natural é longe da zona de conforto tanto de público quanto dos artistas.

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Não acredito que o rock volte a ter no Brasil a abertura e presença popular que teve nos anos 80, e nem gostaria que isso acontecesse,  porém acredito que ainda é tempo de ganhar alguma relevância, conquistar um pouco mais de espaço, só isso. O problema é que no Brasil temos uma tradição de monocultura, quando algo começa a fazer sucesso, todo o mecanismo se volta na mesma direção, a mídia de maneira geral elege a bola de vez e todo o espaço é tomado por um único estilo, algumas vezes por um único artista. É a cultura do 80 ou 8, ou se faz um mega sucesso e toda a máquina funciona a seu favor, ou você não é ninguém, não há respeito para diferenças que possa haver no público, todos precisam estar ouvindo a mesma coisa ao mesmo tempo para que o mainstream tenha seu trabalho facilitado. Os estilos podem coexistir tranquilamente, tá certo que nossa mídia não colabora muito para isso, e que as bandas também tem parcela de culpa neste processo, mas a má vontade que percebo em relação ao rock é prejudicial a todos no contexto da cultura pop. Isso reduz as possibilidades de que o rock volte a incomodar, pois um garoto não vai encontrar motivação em fazer um som que seja igual ao que seu pai ouve. Isso aumenta a estagnação criativa e reduz o rock a um saudosismo decadente.

Alguém, além de mim, ainda acha estranho que se venda camisetas dos Ramones na Renner?

Fiquem na paz.

@marlosferreira

Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar

O novo livro do jornalista Ricardo Alexandre, “Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar” (Arquipélago Editorial, 2013, 256 pgs, R$34,90), me acertou em cheio. Gosto muito de ler sobre música de maneira geral, não somente sobre rock (aliás, meu livro preferido sobre música é “Chega de Saudade”, de Ruy Castro, sobre Bossa Nova), mas no alto dos meus 35 anos este livro em especial aborda exatamente o período da formação do meu gosto musical, e por consequência disso, a própria formação da minha personalidade como adolescente e depois jovem/adulto, sem exageros.

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Ricardo trata muito bem do período de ascensão e queda da indústria fonográfica brasileira. De como os milhões de discos vendidos se tornaram milhões de discos pirateados (e também vendidos, porque não?). Um período do qual minha geração sente saudade, pois especialmente nos anos 90 você ligava o rádio e ouvia Pearl Jam, Nirvana, Soundgarden, Raimundos, U2, Oasis, Alice In Chains, Guns N’ Roses etc, porém Ricardo trata de quebrar um pouco esse romantismo e nos lembrar que no biênio 95-96 fomos infernizados por “Pimpolho”, do Art Popular, “Florentina”, de Tiririca, “Na Boquinha da garrafa”, da Companhia do Pagode, “Xô Satanás”, do Asa de Águia” e “Dança da cordinha” do É o Tchan.

Desde a construção da carreira do Skank, às expectativas frustradas (e hoje supervalorizadas) de Chico Science, do surgimento do Planet Hemp, Raimundos e O Rappa (e seu idealismo barato), à luta pela sobrevivência das bandas de médio porte em um mercado alternativo dentro de um estilo que nunca foi realmente de massa no Brasil, da explosão dos Mamonas Assassinas à reclusão dos Racionais MC’s, das características locais das cenas de Recife e Porto Alegre, ao surgimento dos festivais independentes em vários estados, do momento em que o Brasil se tornou a bola da vez para todas as grandes gravadoras multinacionais ao momento em que todo mundo se tornou independente, Ricardo vai documentando tudo com os olhos de quem viu por dentro, mesmo sentindo-se um estranho em diversas ocasiões. Dentro de estúdios, de escritórios de gravadoras, de redações de jornais e revistas de música, de bastidores de shows e festivais.

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A importância da MTV em seus primeiros anos, os altos e baixos do mercado fonográfico brasileiro, as estratégias das gravadoras, o jabá pago que as rádios toquem determinados artistas, a quebradeira das lojas de discos que começou justamente no momento de superaquecimento das vendas de CDs no Brasil, o impacto do surgimento da internet tanto para os artistas quanto para a imprensa e, principalmente, para as gravadoras, em capítulos curtos Ricardo nos apresenta vários recortes que se completam, ao mesmo tempo vai revelando os dilemas e motivações da construção da sua própria carreira como jornalista.

 

 

Todos os textos já haviam sido publicados anteriormente no blog do autor, mas juntos eles ganham mais coesão, mais sentido. Na medida em que avançamos os capítulos um tom de melancolia vai tomando conta. O rock vai perdendo sua importância e espaço, devorado pela extrema popularização que é o aparelho de respiração que ainda mantém a indústria fonográfica, a música torna-se apenas uma forma a mais de entretenimento. Com este esvaziamento de ideologias, não somente o mercado fonográfico sente o baque, mas toda uma indústria editorial vai tristemente se desmanchando, a MTV vai se descaracterizando, rádios-rock Brasil afora vão fechando (ou mudando seu público-alvo) revistas especializadas e cadernos dedicados à cultura pop vão sumindo das bancas e dos jornais, e este processo está documentado no livro. Várias páginas são dedicadas às idas e vindas da revista Bizz, da qual fui leitor, colecionador e da qual até hoje guardo alguns exemplares históricos.

 

Dois capítulos em especial tratam da relação do autor com o mercado gospel, e, porque não, da sua fé Cristã. Um episódio envolvendo a banda Catedral onde uma manchete mal intencionada causou dor de cabeça à banda e apresentou a Ricardo o mercado gospel, suas regras e sua hipocrisia, e um (no melhor capítulo do livro em minha opinião) a respeito de Rodolfo Abrantes, sua ruptura com os Raimundos, tudo que ele abriu mão, sua tentativa de falar com o público religioso e secular ao mesmo tempo, e a posterior guinada de Rodolfo para dentro da igreja. 

Ricardo registra o último momento em que duas canções representativas e legítimas do rock fazem sucesso realmente grande no Brasil: Mulher de Fases (Raimundos) e Anna Julia (Los Hermanos) e lá se vão 14 anos. Para ser historicamente correto, Ricardo cita casos mais recentes como CPM22 e NXZero dentro de sua devida importância, ou seja, nenhuma, e guarda uma ponta de carinho e esperança para a baiana Pitty.

Está bem claro que o livro é apenas um parêntese, não trata da música brasileira como um todo, nem faz muitas referências ao passado (a década de 80 já está muito bem documentada em outro livro do mesmo autor: Dias de Luta), além do subtítulo (50 causos e memórias do rock brasileiro (1993-2008)), em algumas passagens do livro explicam a concentração do autor no rock e num período específico, ainda assim há omissões importantes, principalmente o Sepultura, e em certa altura do livro Ricardo concentra-se nas perturbadas relações da imprensa musical com o mercado editorial, o que pode interessar a (e colocar uma pulga atrás da orelha de) quem ainda pense em estudar Jornalismo, mas interessa menos ao fã de música. Porém, ajuda muito a entender os caminhos e descaminhos que este estilo percorreu no Brasil nas últimas décadas, e porque ele, após um considerável brilho nos anos 80 tenha se apagado quase que totalmente nos anos 2000. Onde foi que o rock brasileiro se perdeu? A resposta é: ele nunca se achou.

Fiquem na paz.

@marlosferreira

Covers de “Músicas Seculares” feitos por “Bandas Cristãs”

Alguns restaurantes que frequento parecem que só possuem dois CDs: um do Emerson Nogueira e outro da Danni Carlos. Esses músicos são conhecidos por terem gravado alguns CDs de covers e eles até são legais, bons músicos;  mas não compraria seus discos (apesar de já ter presenteado alguém de amigo oculto com um álbum do Emerson).

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Emerson Nogueira e Danni Carlos, os Reis dos Covers.

Muitas “Bandas Cristãs” incluem em seus repertórios algumas músicas de “Bandas Seculares”. Essa diferenciação de “Música Cristã” x “Música Secular” é um assunto muito complicado e que infelizmente aqui no Brasil é um ponto de grande polêmica.

Mas não quero adentrar nesse embate, pois essa postagem é simplesmente para falar de algo que gosto muito: COVERS.
Quando um músico executa uma canção já consagrada (ou não) de outro artísta e cria uma nova “roupagem musical” para ela, acho isso fantástico.

Como não abrir um sorriso ao escutar a versão de “What A Wonderful World” cantada” pelo Joey Ramone de um dos maiores clássicos de Louis Armstrong.
Então, quero fazer uma lista de alguns covers feitos por “Bandas Cristãs” de “Músicas Seculares”: Continue Lendo…

Novo single da banda Hibernia

A banda sergipana Hibernia disponibilizou hoje (21/07) em sua página no Facebook seu novo single, batizado Canção da Liberdade.

Quem já conhece a banda (falamos deles aqui) não irá ficar surpreso com a alta qualidade de seu som com influência de britpop e com a poesia de suas letras.

Recomendamos que você ouça com atenção a nova música, e caso ainda não conheça o CD “A Vida Como Ela Era”, procure conhecê-lo também, vale muito a pena!

Para ouvir a música, clique aqui.

Fiquem na Paz.

@marlosferreira

Hibernia 2

 

Doida lagrima doída

Humberto-Gessinger-Nas-Entrelinhas-do-Horizonte-capa-em-altaEle estendeu a mão de forma insuficiente. Uma isca. Para me obrigar a virar a cabeça. Queria cruzar olhares. Eu nem teria notado, não fosse o sino das chaves batendo uma na outra. Meu olhar saiu do painel do carro, onde eu procurava uma rádio em que não estivessem dizendo bobagens. Do painel para as chaves, das chaves para os olhos dele, quase invisíveis sob a sombra do boné.

O tanque estava cheio, o troco estava certo. Não era isso que ele queria dizer. Queria dizer que era meu fã. E que agora não era mais. Havia se convertido: Só ouvia musica religiosa. Fiquei feliz. Só não pedi desculpas pelo tempo que ele perdera com minha música, porque soava deslocada minha felicidade. Eu perdera um fã, ele ganhara um sentido para a vida. Porque então, eu estava alegre e ele parecia triste, constrangido?

Fiquei constrangido por ele estar constrangido. Seria contagioso? E se a corrente de constrangimento saísse do carro, jorrasse da bomba de gasolina e contaminasse todo o posto, a loja de conveniência, os prédios ao lado? Constrangeria o mundo inteiro?

Uma buzina trouxe minha mente de volta ao triste rosto no posto. Tentei animá-lo. Falei que trocaria de lugar com ele, na boa, pois deve ser bom ter as respostas definitivas por espírito e um emprego fixo pro corpo. Foi como se eu não tivesse dito nada. Ele já não me ouvia.

Voltei pra abastecer outras vezes. Nunca mais o encontrei.

 

Trecho do livro Nas Entrelinhas do Horizonte de Humberto Gessinger, vocalista da banda Engenheiros do Hawaii.

 

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=FFvqY4Mtd_Y[/youtube]

Oficina G3 – Pra frente é que se pedala!

Entre o final dos anos 90 e início dos anos 2000 eu fui a muitos shows do Oficina G3 em Curitiba, assisti ao Acústico e a vários “elétricos”, era uma fase muito boa da banda, de grande popularidade, mas também com muita gente que torcia o nariz para o então novo vocalista, o PG, e para a sonoridade mais pop de CDs como o “O Tempo”. É difícil analisar um trabalho do Oficina G3 sem considerar as fases, as mudanças de formação e sonoridade, por isso este texto não tem a pretensão de fazer uma análise completa da carreira desta banda, vamos nos concentrar no período mais recente e falar do CD “Histórias e Bicicletas – Reflexões, Encontros e Esperanças”.

Ao contrário de vários outros artistas sobre os quais já falamos aqui no UnderDot, o Oficina ainda permanece fortemente vinculado ao mercado Gospel (entenda isso como quiser), lançando seus trabalhos pela gravadora MK e participando de eventos como o Festival Promessas. Desta forma não espere encontrar questionamentos ou críticas ao sistema religioso, o som é pesado, mas não há contundência no conteúdo. O Oficina G3 é a maior banda de rock Gospel do Brasil, e isso pode ter diferentes leituras.Oficina_G3_-_Histórias_e_Bicicletas_(Reflexões,_Encontros_e_Esperança)

 

Gravado no estúdio RAK, em Londres, logo de cara você percebe que eles seguem no caminho do metal progressivo, pelo isso fica claro para mim. Como o metal tem inúmeros rótulos e subdivisões, alguém pode ter uma definição mais precisa, ou o mais fácil seria fazer como a Globo nos anos 80, que pegou metal, hard rock e punk rock, colocou tudo num saco só e chamou de “rock pauleira” (sic). Tecnicamente eles continuam ótimos, sempre foram reconhecidos por isso e melhoram a cada trabalho, o vocalista Mauro Henrique está achando a sua própria voz dentro do som e está gritando menos, embora ainda lembre o PG em certas passagens.

O trabalho abre com a faixa “Diz”, cujo riff lembra Queens Of The Stone Age, mas obviamente mais pesada e com mais efeitos e com Alexandre Aposan desfilando técnica, velocidade e pedais duplos à vontade

A música “Água Viva” segue com guitarras vigorosas e finaliza com um belo solo de piano. O peso alivia um pouco na faixa “Encontro”, com vocais melódicos, um belo texto declamado por Roberto Diamanso, além de passagens que indicam um pouco do drama vivido por Mauro, com o falecimento recente de sua esposa:

E se você partir, leve um pouco de mim

E plante em seu jardim

Pois o que me deixou

Me transformou e nos aproximou.

 

Como o próprio nome do disco adianta, outras reflexões vão surgindo no decorrer do CD, a música “Confiar” é a primeira faixa de trabalho e também trás trechos mais intimistas:

Se minha mente me atormenta com a dor,

Lembro das palavras que me deixou

O brilho da tua luz, sinto o teu calor

O teu conforto me alcançou

Vou confiar… e me entregar…

A cada dia basta o seu próprio mal

Quero só descansar.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=X5fhXHxW1Es[/youtube]

Na sequência temos “Não Ser” e “Compartilhar”, ambas com ótimos riffs e sonoridade densa, mas nada perto das passagens de trash metal e vocais guturais do CD Depois da Guerra. A primeira tem guitarras soando bem atuais e ótimo refrão (e, ok, tem uns gritos no final também…), e a segunda é mais melódica, começa com um discurso de cunho social sobre desigualdade, mas depois volta a abordar o sentimento de perda:

No quinto andar é a dor e o choro

Que anunciam uma nova vida

No sexto andar há outra dor e choro

Lamento de uma despedida.

 

A faixa “Descanso” os violões são o destaque, e é a melhor balada do CD, tem muito potencial para ser hit mas não consegue (provavelmente nem pretende) escapar de uma certa melancolia na letra, falando sobre dor, falhas e a busca do descanso. É também o melhor momento do Mauro no CD.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=I_n4nJguSo0[/youtube]

A versão da música “Aos Pés da Cruz”, do Kleber Lucas ficou surpreendentemente boa, tem um toque de Coldplay nos teclados, um dos melhores solos de guitarra do CD, e termina com um belo fraseado de contrabaixo. É fácil imaginar essa verão sendo tocada pelas igreja Brasil afora. Pessoalmente eu não gosto de muitas músicas do Kleber Lucas, mas a escolha por esta foi acertada.

Nas faixas “Sou Eu” e “Lágrimas” nada muito memorável, apenas as boas variações instrumentais desta (longa) última, com espaço para todos os instrumentistas mostrarem seu talento. O CD finaliza com mais uma versão, desta vez de Michael W. Smith, mais ao contrário das (desnecessárias) 3 faixas em inglês do trabalho anterior, a música “Save Me From Myself” até que encaixa bem,  não soa deslocada e fecha o disco aliviando o peso mas mantendo um pouco da melancolia.

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Em relação ao trabalho anterior, o Depois da Guerra, o novo CD está menos agressivo, mais compacto (apenas 11 faixas), mais regular, o Mauro parece estar mais confortável, Junhinho Afram está mais concentrado em riffs, timbres e texturas diferentes do que em solos, o resto da banda esbanja competência e inspiração.

O balanço final é um disco com bem mais altos do que baixos, que pode manter a nova geração de fãs e até recuperar parte dos antigos, mas o importante é a sequência do trabalho mesmo com turbulências pessoais rondando os integrantes. O Oficina G3 segue inquieto, sempre buscando novas sonoridades, nem sempre acertando, mas sempre pedalando. Pra frente.

Fiquem na paz.

@marlosferreira 

Sobre Como Ouvir Música Popular Brasileira

kCL5OKQJDdLqC633dXf9BdO16D2Quando Milton Hatoum disse para José Castello, “materialmente, não quero muito, espiritualmente, quero tudo”, estava confessando o desejo de muitos artistas; a transcendência. Só a literatura contemporânea interessada na superfície da realidade, no papo chatíssimo da desconstrução autoral, num tipo não-conceitual de arte sem artista, está deixando escapar outros objetivos. Talvez o próprio desaparecimento da literatura. Um tipo de vingança inconsciente desses novos escritores sem fogo, nem brasa.

Mas, o ponto de apoio daquilo que convencionamos chamar de cultura sempre foi uma sensibilidade espiritual que orienta e direciona a criação artística. Pensando agora na música brasileira, tento recordar o tempo que comecei a escrever canções, aos 14 anos. Não conhecia, ainda, a tradição cristã. Minha educação religiosa se deu em volta de uma espiritualidade bem diferente da que eu acredito hoje – meus pais viviam num isolamento filosófico fundamentalista, mas deixaram os filhos estudar em colégio católico. No entanto, escrevi dezenas de canções. Os temas mais variados para um adolescente. Do amor não correspondido ao tema para o dia do professor, falei do aperto no lotação, da sociedade hipócrita, da festa, das estrelas no céu e da falta que todo jovem sente. Meu primeiro mentor chegou a censurar aquelas canções dizendo que eu não tinha crivo para escolher assunto, qualquer coisa entrava na letras – um divertido e bem sincero caos! Contudo, posso garantir aos leitores que antes da minha conversão nunca fiz um música para o ‘coisa ruim’. Acredite, era isso que os religiosos me diziam na época: o que você escreveu antes se não era pra Deus, era pra quem? Perguntavam, sem querer ouvir resposta. Eles satanizavam tudo que não tinha utilidade eclesiástica ou proselitista. Muito embasados em casos isolados de artistas que ganhavam (ou perdiam) a vida em cima do discurso esotérico-ocultista. Não é difícil entender porque nesses últimos anos comemoro quando vejo os novos crentes dialogando com a cultura sem medo de fantasmas criados por uma religião recalcada.

Como compositor e ouvinte, descobri muitas maneiras de ouvir canções. Tem gente que as ouve como um simples objeto sonoro. Outros conseguem perceber na canção uma representação social, um hino não intencional de uma religiosidade-secular, um veiculo político, uma exposição das forças inconscientes, o retrato psicológico do autor ou da época… Enfim, são tantas leituras! Tantas formas de ouvir! Fora o discurso da indústria cultural, da lógica de mercado, dos produtos culturais, a coisa da manipulação e tal e tal. Mas, o viés que me instiga a ouvir música popular brasileira, hoje, é exposto nos temas da identidade e da espiritualidade. Esses temas, tão caros à música sacra ou religiosa, transbordam do cancioneioro popular e formam um caminho que nos ajuda a reconhecer semelhanças confessionais nas diversas formas que o brasileiro encontrou para cantar a vida que experimenta. Vejam isso:

“Quero cantar só pras pessoas fracas
Que estão no mundo e perderam a coragem
Quero cantar o blues com o pastor e o bumbo na praça
Vamos pedir piedade, pois há um incêndio sobre a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem ”

(Blues da Piedade – Frejat/Cazuza)

 

A estética da recepção, ou como se dá a fruição da obra de arte, é um tema muito interessante. Suspeito que o ouvinte, o receptor, se confunde com o compositor a medida que interfere na obra, e na sintaxe dela. É o que estamos fazendo agora. É possível dizer que não havia nenhuma intenção ‘religiosa’ no letrista quando escreveu alguns versos com linguagem cristã; “piedade”, “fraqueza”, “pastor” ou a chocante “somos iguais em desgraça”. Expressões como essas fazem muito sentido para um crente como eu, mas seria absurdo determinar o que Frejat e Cazuza quiseram dizer ‘objetivamente’ com essas palavras. Sobretudo atenção: nenhuma das canções que ouvirmos com essa interferência dialogal e analógica continuará a mesma, porque não estamos ouvindo só com os ouvidos, mas com o espírito! Vamos alterar o que está sendo dito, inventar coisas. Estamos trocando idéias com o repertório! Colocamos essas letras em conversa com outros autores do passado, apresentamos o repertório popular para quem escreve no presente e é bem certo que tudo isso vire uma leitura agradável para os meus filhos no futuro. Leitura que pode nos fazer mais humanos. Isso porque quando ouvimos uma canção não somos apenas ouvintes, mas um exemplo legítimo de compositor.

 

Por Marcos Almeida, guitarrista e vocalista da banda Palavrantiga, no blog Nossa Brasilidade.

 

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=7Oh7WdD1Dpk[/youtube]

O mesmo Resgate de sempre. Que ótimo!

O novo CD do Resgate – Este Lado Para Cima – não tem muitas novidades. São 12 músicas inéditas que fazem referência direta ao… Resgate!

Não espere por novos timbres, novas influências, arranjos mais virtuosos, nada disso. O naipe de metais e os backing vocals femininos (que particularmente eu gostava bastante) que a banda usou na fase entre o Praise e o Eu Continuo de Pé, foram deixados de lado. Os arranjos se concentram no esquema Baixo-Bateria-Violão-Guitarra, e até mesmo o tecladista Dudu Borges, que havia sido “incorporado” à banda nos últimos CDs, não aparece neste último trabalho, com isso o teclado também perdeu espaço.

As músicas não fogem da estrutura Intro-Estrofe-Ponte-Refrão-Estrofe-Ponte-Refrão-Solo-Refrão, as harmonias vocais lembram as outras músicas do Resgate, e até o conhecido humor e autoironia estão lá também, nada novo.

 

No entanto, nada do que eu disse acima tem tom de crítica, é bom ser surpreendido de vez em quando, mas eu acho ótimo quando encontramos exatamente o que procuramos, neste caso, um bom disco de rock com conteúdo Cristão.

O CD começa legal com a música “Eu Estou Aqui”, que coloca você em seu devido lugar logo de cara:

 

Resumindo a minha condição, miserável alvo de um amor tão puro que eu não mereci; Acho que entendi minha missão, compreender que eu sou um devedor, falar de tudo que vivi.

 

Para não dizer que não tem nada de diferente, a música “Errando e Aprendendo” começa com um ukelele, usa bandolin e mais uns barulhinhos engraçados depois do refrão.

A música “Em nome de Quem?” é uma pedrada de cunho social/político, a letra diz:

 

Em nome de quem exploramos? Em nome de quem sacrificamos? Em nome de quem desmatamos? Pro lucro de quem?

 

O melhor momento do CD em minha opinião é a música “Eles Precisam Saber”, o vocal do início me lembra muito o som dos Titãs na fase anos 90, junto com um belo arranjo de cordas e uma letra certeira:

 

Alguém precisa falar, e eles precisam saber, que não se vende fé, saber que Deus não é o que se vê na TV.

 

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=Io_yolmDZ2s[/youtube]

 

A introdução de “Sempre Tem Uma Assim” é o som que o Resgate fazia na época do On The Rock, impossível não lembrar.

Momento comédia, confunda-se com “Este Lado Para Cima”, e depois ouça o CD até o final, mesmo depois que você achar que já acabou.

 

O CD tem outros bons momentos, como “Fora do Sistema”, “Quem Sou Eu” e “Recomeçar”. Se você conhece o Resgate, provavelmente não terá grandes surpresas, mas também não se decepcionará, o que já é bem significativo no cenário musical atual.

 

Fiquem na Paz.

 

Marlos.