UnderDot entrevista: Marcos Almeida

IMG_20150627_202131790Retomando as entrevistas aqui no UnderDot (já falamos com gente bem legal, como Lorena Chaves, Os Oitavos, Tanlan e etc), agora chegou a vez de um dos caras mais relevantes da música Cristã nos últimos anos, o ex-vocalista do Palavrantiga, Marcos Almeida. Segue o papo:

 

1 – Como está sendo essa turnê “Eu Sarau”, está dentro de suas expectativas? [UND]
A turnê já passou por 11 cidades e superou todas as expectativas, em vários aspectos. Quando se fala de um espetáculo como este, algumas coisas se destacam, por exemplo: eu fiquei um ano longe dos palcos e que agora sigo a diante propondo uma nova experiência, temos um local de encontro não muito frequentado pelos brasileiros, que é o teatro, é uma apresentação solo, o custo de produção é alto… Bem, ninguém apostaria nesse formato, nessa conjuntura econômica que o Brasil vive, chamando um publico para o teatro, um público que me conheceu tocando em eventos promovidos na Igreja ou no circuito cultural evangélico, em sua maioria festivais e conferências. A resposta tem sido surpreendente! Estamos ocupando um lugar na cultura e compartilhando uma experiência inédita. Isso é sensacional!

 

2 – No show de Curitiba da turnê “Eu Sarau” contou com a participação de integrantes do {Sí}monami, em outras cidades também ocorrem participações especiais? Existe algum artista que você sonha em dividir o palco neste espetáculo? [UND]
Nessa turnê, apenas em Curitiba ganhei esse presente de cantar com a Liu e o Jean do Simonami. Nos outros segui a ideia de one man band. Tenho muitos sonhos, mas se eu pudesse dividir o palco hoje, chamaria a Baby do Brasil.

 

3 – O formato dos shows que você vem fazendo e o público que você está atraindo favorece o diálogo com a plateia e a inserção de elementos como a poesia. Você acha que é possível transferir um pouco disso para shows maiores? Seria viável? [UND]
Acredito que sim. Especialmente se for em grandes teatros. O desafio maior surge quando a apresentação acontece em lugares abertos. A parte técnica acaba sendo mais complicada. Mas, dá certo. O Sarau toma um ar de acampamento, de lual, é bem interessante.

 

4 – Música gospel, você acha que este rótulo mais ajuda ou atrapalha? E você se identifica como artista download (1)deste nicho? [UND]
O Gospel no Brasil é um vocabulário de comunicação,  é uma linguagem que muitas Igrejas vieram adotar, desde o final dos anos 1980, para tomar posição dentro de uma cultura mais ampla. Não me identifico com esse estilo de diálogo, embora não falte em mim o respeito e a admiração por tantos irmãos talentosos e piedosos que acolheram esse viés. Acredito que estamos vivendo um pós-movimento-gospel, onde os novos artistas que nascem na igreja ao invés de migrarem para o “secular” como resposta ao descontentamento com a estética gospel, estão inventando uma terceira via. E a medida que a Igreja for se descolando da Publicidade Gospel, isso vai ficando mais claro na cabeça das pessoas; uma coisa é a Igreja que conta mais de 2.000 anos de história, outra é o Gospel que não fez 30 anos. O que parte da Igreja brasileira tem feito agora é desconstruir o manual de comunicação de três décadas que está aí, inventando um novo lugar na cultura brasileira. Certamente isso nos levará para mais perto da rua, do português corrente, um encontro que me anima muito!

 

5 – Você já recebeu alguma crítica de artista bem identificado com o Gospel por não entender o movimento “pós-gospel” que você promove? [UND]
Tenho muitos amigos na música gospel e eles respeitam minha abordagem como eu respeito a deles. E qualquer movimento após, precisa conhecer de perto aquilo que preexiste. São duas gerações que nasceram na Igreja e que cultivam uma convivência respeitosa. Aprendo muito nesse convívio e eu jamais ouvi deles alguma crítica negativa.

 

6 – Como você vê a situação da música Cristã no Brasil do ponto de vista do mercado e da função de propagadora da fé Cristã? [UND]
Não sei falar desse ponto de vista. Invertendo o lugar, falando como um liturgista, acredito que não é bom usar pressupostos mercadológicos para pautar as decisões pastorais e eclesiásticas. Isso é um abuso de poder da esfera econômica sobre a esfera pística. Mercado e Publicidade estão, de certa forma, tentando colonizar a igreja e devemos reagir. 

7 – Mudando de assunto, os serviços de streaming (Spotity, Deezer, Rdio e etc) são a melhor resposta para a pirataria? [UND]
Quanto a prateleiras de música online, talvez essa seja a melhor que temos a disposição no momento. Mas o streaming ainda está muito aquém do que deve ser, especialmente em dois aspectos: na qualidade do áudio e na distribuição de royalties para intérpretes e compositores. Entre tantos outros aspectos, destaco esses. Se olharmos de forma mais abrangente, a melhor resposta para a pirataria ainda se chama show! O espetáculo de música, a experiência de sair de casa, ir ao teatro ou à alguma casa de shows, experimentar uma acústica perfeita, uma estrutura técnica de alta qualidade, uma atmosfera acolhedora e o seu artista no palco. Quem pode piratear isso? Daí, esperamos acabar o show e corremos pra banca de discos do artista, levamos sua discografia, as camisetas, os souvenires. Isso não tem como copiar. 

 

images 8 – Quando um integrante de uma banda (especialmente o vocalista e principal compositor) decide deixar esta banda em um momento, aparentemente, de alta na carreira, muitas vezes o público não entende muito bem e questiona bastante a decisão. Como foi no seu caso, e como você lidou com essa situação? [UND]
Não são muitos os que me perguntam por que decidi sair da banda para trilhar esse caminho desconhecido; essa talvez seja uma pergunta jornalística, porque dos que me perguntaram, todos trabalham para algum veículo de comunicação. Curioso isso, rs…  Mas gosto de pensar que esse foi o meio de me manter na tensão tão útil para a invenção, sair do conforto para encontrar o novo. Acredito que somos tentados a fazer do trabalho um monumento. Mas isso é ruim, por que fomos feitos para o movimento. Depois de sete anos com o Palavrantiga, três discos e centenas de shows, celebro o sucesso que tivemos juntos, vejo os frutos dessa obra e como que soprado pelo vento me vejo agora com uma nova disposição para me encontrar com o futuro.

 

9 – Temos sentido falta de um posicionamento dos integrantes remanescentes do Palavrantiga quanto à continuidade da banda. Você mantem contato com eles? Sabe como está o processo de escolha do novo vocalista? [UND]
Mantenho contato com eles, mas sobre os processos eu não sou consultado em nada. As informações que tenho são as mesmas que foram divulgadas na rede do grupo: o Palavrantiga não acabou e a banda está a procura de um novo vocalista.

 

10 – Você consegue enxergar influência sua e do Palavrantiga em bandas mais novas? Há uma sequência nesse movimento de música Cristã mais “alternativa”? [UND]
Veja: o disco “Sobre o Mesmo Chão”, que deu sequência a um trabalho iniciado em 2008, apresentou um testemunho de que é possível fazer rock nacional a partir dos afetos, sentimentos e experiências de um brasileiro que segue a Cristo e ama sua Igreja. Mas a banda não se filiou a nenhum movimento de música cristã alternativa, com intenções de renovar o cântico litúrgico. É uma abordagem que faz toda diferença; o Palavrantiga como banda brasileira de rock criou uma tensão que será sustentada se as novas bandas não abrirem mão de adquirir a sua cidadania artística dentro da nossa cultura. Essa é a contribuição do Palavrantiga na história. Ao meu ver, foi uma intromissão na linhagem do rock nacional, dando às guitarras distorcidas e a poesia em português uma dicção de esperança.

 Se há uma sequência nesse movimento, deixo que as novas bandas respondam.

 

11 – Quem do “underground” musical você apontaria como boa aposta, e que pouca gente conhece? [UND]
Assisti ao show da banda Nume (de Macapá) e gostei muito. Tem o Brasil Dub e o Gravidade Zion (de Vila Velha). Mas destaco a ressignificação que a Baby do Brasil está fazendo com o seu repertório. Ela retorna ao mainstream com o show Baby Sucessos que está lindo demais. Um atmosfera espiritual incrível. Ela está ampliando as fronteiras !

 

12 – Existe alguma música que você considere como a composição mais importante para sua carreira? [UND]
Acho que “Vem me socorrer”, talvez. Junto dela algumas outras. Mas, como você perguntou qual a canção mais importante, escolho essa hoje. Amanhã pode ser outra, rs.

13 – Já vimos colaborações suas com Tanlan e Lorena Chaves, existe algum projeto em andamento de trabalho seu em conjunto com outros artistas (Cristãos ou não)? [UND]
Sim! Acabei de gravar voz numa bela canção do Hélvio Sodré, chamada “Paraíso” e tenho recebido convites para colaborar como compositor e intérprete em outros trabalhos. Em breve vocês vão ficar sabendo.download

 

14 – Quando você vai lançar um disco solo “cheio”? [UND]
Outubro lanço “Eu Sarau – ao vivo : a banda de um homem só” e em Abril/2016 um CD só de inéditas.

 

15 – Fale-nos sobre seu trabalho literário, livros já lançados e se tem algo novo previsto. [UND]
Em 2014 lancei dois títulos. “Natal nos trópicos – um conto de verão”, com o single “Biquíni de Natal” em Dezembro. Meses antes, publiquei o “Retuíte – frases curtas de longa duração”. Agora estou trabalhando numa coletânea de textos escritos para o Blog Nossa Brasilidade. Ainda não tenho o título, mas estou preparando uma introdução, amarrando algumas ideias que estavam soltas e ajustando algumas passagens. Depois de três anos escrevendo intensamente, a partir das pesquisas da minha equipe (uma socióloga, um teólogo, um físico) e as preciosas contribuições dos leitores, estou relendo tudo com um olhar crítico, buscando tirar dali um texto mais claro, sem perder a autenticidade e os insights do trabalho. Estou empolgado com o resultado que já consegui. Será uma oportunidade maravilhosa; levar para os shows e palestras um material impresso, bem editado, de fácil leitura, com o melhor conteúdo do Blog

 

 16 – Há no Brasil um pedido massivo para que artistas se posicionem sobre assuntos polêmicos, e quando eles se posicionam, na maioria das vezes são criticados por sua posição e escutam que melhor é ficarem calados. Sendo artista e Cristão, você acha que é necessário sempre se posicionar? [UND]
Acho que sempre estamos nos posicionando e o silêncio me parece ser o mais adequado em muitas situações para edificar as pessoas.

 

17 – Em alguns textos do site Nossa Brasilidade você fala bastante da questão da fé na música e na cultura popular brasileira, sem que isso seja necessariamente propaganda religiosa. Você acha que naquilo que você trabalha (ou na sua música), a fé é mais uma questão de identidade do que de religião? [UND]
Sim! É isso: a fé não é um adereço, ela é começo. Ela nos ensina a ver a realidade do jeito que é. Quando colocamos a fé depois das nossas construções, como um enfeite bonitinho e sacralizado, vira essa coisa esquisita que é a religião, um método para escravizar pessoas , para tirar-lhes a visão, para obscurecer a vida.

Quando pensamos que a música, especialmente a canção, expressa os sentimentos e os pensamentos da gente, você entende porque os religiosos contemporâneos, por exemplo, passam mais tempo fazendo propaganda ao invés de fazer arte. Ficam preocupados em criar uma arte cristã, sendo que o cristão é o único que não precisa se preocupar com isso. Existe um rio que flui e que não para de jorrar daquele que tem a fé como fonte. Fizeram da fé uma represa, mas a fé é fonte.

 

18 – Agradecemos muito pela entrevista, e deixamos espaço aberto para considerações finais e um recado pros leitores do UnderDot.
Obrigado pela leitura. Tentei responder da forma mais clara e verdadeira possível. Espero vocês no show, em qualquer canto desse mundo. Incentivo vocês a tirar um tempo, nem que seja mensal, para ir ao teatro. Isso faz bem pra alma. Acho que Deus nos habilitou para a arte afim de nos ajudar a atravessar o deserto da vida, o sofrimento, a dor, o desencanto. A arte tecida na Esperança tem esse poder e faz isso não pela evasão da realidade, ela consegue dar a gente pelo menos duas coisas: um outro olhar para a vida e faz isso criando um oásis no meio do caos.

Somente rock é pouco para o Sarau de Marcos Almeida.

Relato da passagem da turnê Eu Sarau por Curitiba

Pelo fato de viajar bastante a trabalho, tive a infeliz coincidência de estar fora de Curitiba nas duas ocasiões em que o Palavrantiga tocou na minha cidade, por isso, quando Marcos Almeida anunciou que seu novo show “Eu Sarau” passaria por aqui, eu logo tratei de garantir meu lugar.

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A noite de sábado, dia 27 de Junho, foi bem típica no inverno da capital paranaense, o clima frio e úmido tornaram o belo Teatro Paiol ainda mais aconchegante e ideal para um show intimista e basicamente feito por um homem só. O carisma, a fala tranquila de Marcos Almeida e a proximidade do público complementaram o cenário e aqueceram os presentes, que encheram o teatro.

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Revezando-se entre violões, guitarra e teclado, Marcos abriu o show com “Sagrado”, e seguiu com várias músicas do Palavrantiga como “Rio Torto”, “Vem me Socorrer” e “Minha Menina”, além de “Cartão Postal”, um dos destaques no CD da cantora Lorena Chaves, todas canções bem conhecidas pelo público e acompanhadas com entusiasmo, e na medida do possível para um artista tocando sozinho, Marcos procurou trazer arranjos bem diferentes para as músicas. Com auxílio de um pedal looping, Marcos criava bases de guitarra e vozes auxiliares e, literalmente, construía as canções ao vivo em frente ao público, neste quesito, destaque para a versão de “Rookmaker”.

Passando para o teclado, Marcos toca pequenos trechos de músicas bem conhecidas como “Casa” e “Feito de Barro”, e após isso o show começa a apresentar momentos diferentes. Marcos conta alguns causos, como quando teve ataque de tiete ao conhecer o poeta e pastor Carlos Nejar dentro em um avião, e lê alguns poemas do poeta, destacando outra faceta do cantor: seu interesse e ligação com a literatura.

 

Em outro momento bem especial, Marcos chama ao palco a cantora Lio, vocalista da banda {Sí}monami, e tocam “Dança” (outra colaboração entre Marcos e Lorena), e com participação do marido da cantora, apresentam uma belíssima versão de “Caçador de Mim”, de Milton Nascimento.

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Voltando à parte básica do repertório, ou seja, músicas do Palavrantiga (todas de autoria de Marcos Almeida, vale ressaltar), o cantor aproveita para apresentar músicas novas, canções ainda não acabadas e com nomes provisórios como “Desaprendi” e “Toda Dor É Por Enquanto”, ambas muito bem recebidas pela plateia.

Caminhando para a parte final do show, o cantor toca uma de suas composições das quais eu mais gosto, e que, segundo ele, tocou pouquíssimas vezes ao vivo, a música “Deus, Onde Estás?” e tenta finalizar o show com a faixa “Partiu”. Eu disse “tenta”, porque o público não deixou acabar por aí, e Marcos vai para o teclado para fechar essa parte da noite com a bela canção “Esperar é Caminhar”.

Marcos encerrou a parte musical da apresentação, pediu um minuto para tomar um copo d’água e voltou para um papo com o público, coisa que em meus vários (pra não dizer muitos) anos frequentando os mais variados tipos de apresentação, eu nunca tinha visto. Aproveitando a proximidade proporcionada pelo local, Marcos pede para que ninguém filme essa conversa e abre espaço para algumas perguntas do público, e responde olhando olhos nos olhos aos presentes, com a sinceridade de quem ainda está desenhando como será a sua retomada musical, dando a entender que não deve mesmo voltar ao Palavrantiga, mas que quer continuar a apresentar suas composições, além de seus demais interesses como poesia e literatura.

O espaço pequeno favoreceu o formato banda-de-um-homem-só, mas Marcos mostrou competência para fazer o espetáculo funcionar mesmo que seja em um local maior, então, caso o show passe por sua cidade, não pense duas vezes e vá assistir. Variando entre momentos calmos e eufóricos, sempre com total atenção por parte do público, ao término das mais de duas horas de apresentação fica claro que com folk, MPB, pop, causos, poesia e bate-papo, um show de rock é muito pouco para Marcos Almeida.

Fique na paz.

@marlosferreira

10 bandas para embalar os “órfãos” do Palavrantiga

Banda fez seu último show com o vocalista Marcos Almeida e agora prepara mudanças.

palavrantiga-sobre-o-mesmo-chaoNÃO! O Palavrantiga não vai acabar, mas desde o último sábado, 28/06, Marcos Almeida não faz mais parte da banda. A saída foi anunciada a alguns meses e os fãs da banda puderam ir atras das últimas apresentações dos músicos mineiros/capixabas.

A banda irá se reinventar e nós ficamos aqui esperando as novidades que Josias Alexandre, Lucas Fonseca e Felipe Vieira irão anunciar.

Marcos Almeida, que irá se dedicar ao projeto Nossa Brasilidade e algumas apresentações esporádicas com sua parceira Lorena Chaves, anunciou que em breve apresentará um site reformulado e com novos colaboradores. O que começou apenas como reflexões sobre Arte e Fé cristã, hoje mostra potencial pra ser algo grandioso e com embasamento bíblico pra reformular o jeito dos cristãos fazerem artes.

Mas enquanto alguns lamentam (eu sou um deles), o Underdot aproveita pra apresentar 10 nomes que bebem da fonte ideológica do Palavrantiga, de fazer músicas que rompem a barreira gospel/secular. Alguns já estão atingindo o mainstream, outros com grande potencial e qualidade pra chegar lá.

Então se você acha que a saída do Marcos Almeida nos deixará orfãos de boa música feita por cristãos, nós vamos te ajudar a descobrir que não! Vamos a lista:

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Underdot entrevista – Tanlan

tanlan_marlosNunca fui de ouvir rádio Gospel, então o padrão Gospel nunca foi parâmetro para mim, mas quando comecei a me sentir incomodado com a música Cristã que estava dominando as igrejas e seus grupos (ou Ministérios, se preferir) de Louvor, começou uma divisão na minha cabeça: como músico, a música que eu tocava não era mais a música que eu ouvia.

Fora do Brasil já existia um movimento de música Cristã alternativa, mas quando eu procurei referências nacionais tudo era muito vago. Mas dois nomes apareceram para mim lá pelos idos de 2008: Aeroilis e Tanlan.

Imediatamente procurei contato e mais informações, e adquiri os CDs que eles tinham disponíveis na ocasião. Alguns anos depois, com o aprimoramento das redes sociais e a facilidade de contatar as pessoas foi surgindo a oportunidade de trocar umas ideias com o pessoal da Tanlan.

Então no dia 04/12/2013, uma madrugada quente de Porto Alegre, após um dos ensaios da banda para o Rock no Vale, tive uma conversa agradabilíssima com Fábio Sampaio, Beto Reinke e Fernado Garros. Falamos sobre a história da Tanlan, música Cristã no Brasil, Festival Promessas entre outros assuntos. Entre as declarações bombásticas, a de que o Acre existe, e a Tanlan já esteve lá!

OBS.: A entrevista foi gravada na semana que aconteceu o Rock no Vale e como nós do Underdot acreditamos no projeto, resolvemos manter a parte que a banda fala sobre o festival, mesmo que isso deixe a entrevista datada, já que ela está indo ao ar exatamente 1 mês depois da ótima apresentação da banda no Rock no Vale.

 

Sobre Como Ouvir Música Popular Brasileira

kCL5OKQJDdLqC633dXf9BdO16D2Quando Milton Hatoum disse para José Castello, “materialmente, não quero muito, espiritualmente, quero tudo”, estava confessando o desejo de muitos artistas; a transcendência. Só a literatura contemporânea interessada na superfície da realidade, no papo chatíssimo da desconstrução autoral, num tipo não-conceitual de arte sem artista, está deixando escapar outros objetivos. Talvez o próprio desaparecimento da literatura. Um tipo de vingança inconsciente desses novos escritores sem fogo, nem brasa.

Mas, o ponto de apoio daquilo que convencionamos chamar de cultura sempre foi uma sensibilidade espiritual que orienta e direciona a criação artística. Pensando agora na música brasileira, tento recordar o tempo que comecei a escrever canções, aos 14 anos. Não conhecia, ainda, a tradição cristã. Minha educação religiosa se deu em volta de uma espiritualidade bem diferente da que eu acredito hoje – meus pais viviam num isolamento filosófico fundamentalista, mas deixaram os filhos estudar em colégio católico. No entanto, escrevi dezenas de canções. Os temas mais variados para um adolescente. Do amor não correspondido ao tema para o dia do professor, falei do aperto no lotação, da sociedade hipócrita, da festa, das estrelas no céu e da falta que todo jovem sente. Meu primeiro mentor chegou a censurar aquelas canções dizendo que eu não tinha crivo para escolher assunto, qualquer coisa entrava na letras – um divertido e bem sincero caos! Contudo, posso garantir aos leitores que antes da minha conversão nunca fiz um música para o ‘coisa ruim’. Acredite, era isso que os religiosos me diziam na época: o que você escreveu antes se não era pra Deus, era pra quem? Perguntavam, sem querer ouvir resposta. Eles satanizavam tudo que não tinha utilidade eclesiástica ou proselitista. Muito embasados em casos isolados de artistas que ganhavam (ou perdiam) a vida em cima do discurso esotérico-ocultista. Não é difícil entender porque nesses últimos anos comemoro quando vejo os novos crentes dialogando com a cultura sem medo de fantasmas criados por uma religião recalcada.

Como compositor e ouvinte, descobri muitas maneiras de ouvir canções. Tem gente que as ouve como um simples objeto sonoro. Outros conseguem perceber na canção uma representação social, um hino não intencional de uma religiosidade-secular, um veiculo político, uma exposição das forças inconscientes, o retrato psicológico do autor ou da época… Enfim, são tantas leituras! Tantas formas de ouvir! Fora o discurso da indústria cultural, da lógica de mercado, dos produtos culturais, a coisa da manipulação e tal e tal. Mas, o viés que me instiga a ouvir música popular brasileira, hoje, é exposto nos temas da identidade e da espiritualidade. Esses temas, tão caros à música sacra ou religiosa, transbordam do cancioneioro popular e formam um caminho que nos ajuda a reconhecer semelhanças confessionais nas diversas formas que o brasileiro encontrou para cantar a vida que experimenta. Vejam isso:

“Quero cantar só pras pessoas fracas
Que estão no mundo e perderam a coragem
Quero cantar o blues com o pastor e o bumbo na praça
Vamos pedir piedade, pois há um incêndio sobre a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem ”

(Blues da Piedade – Frejat/Cazuza)

 

A estética da recepção, ou como se dá a fruição da obra de arte, é um tema muito interessante. Suspeito que o ouvinte, o receptor, se confunde com o compositor a medida que interfere na obra, e na sintaxe dela. É o que estamos fazendo agora. É possível dizer que não havia nenhuma intenção ‘religiosa’ no letrista quando escreveu alguns versos com linguagem cristã; “piedade”, “fraqueza”, “pastor” ou a chocante “somos iguais em desgraça”. Expressões como essas fazem muito sentido para um crente como eu, mas seria absurdo determinar o que Frejat e Cazuza quiseram dizer ‘objetivamente’ com essas palavras. Sobretudo atenção: nenhuma das canções que ouvirmos com essa interferência dialogal e analógica continuará a mesma, porque não estamos ouvindo só com os ouvidos, mas com o espírito! Vamos alterar o que está sendo dito, inventar coisas. Estamos trocando idéias com o repertório! Colocamos essas letras em conversa com outros autores do passado, apresentamos o repertório popular para quem escreve no presente e é bem certo que tudo isso vire uma leitura agradável para os meus filhos no futuro. Leitura que pode nos fazer mais humanos. Isso porque quando ouvimos uma canção não somos apenas ouvintes, mas um exemplo legítimo de compositor.

 

Por Marcos Almeida, guitarrista e vocalista da banda Palavrantiga, no blog Nossa Brasilidade.

 

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=7Oh7WdD1Dpk[/youtube]

Palavrantiga – Sobre o Mesmo Chão. Impressões

Quando conheci o Palavrantiga, em 2008, tentei incluir pelo menos uma música no repertório do grupo de Louvor do qual fazia parte. Mostrei as músicas do EP “Volume 1” para várias pessoas, sem sucesso, aparente pouca gente achava que aquelas músicas eram adequadas para louvor congregacional. Um tempo depois eu ouvi pela primeira vez a música “Casa” em uma igreja e imediatamente me senti aliviado por não ter tocado esta música, pois corria o risco de fazer o mesmo que eu estava vendo naquele momento: uma versão devidamente “domesticada”, com riffs e timbres amenizados, refrão repetido até virar mantra e coreografia conduzida pelo grupo de dança. Talvez por não cair nas repetições, nas versões de sucessos internacionais, na massagem do ego dos Cristãos, ou por ser contundente com a instituição na letra de “Deus, Onde Estás?”, esta banda meio mineira e meio capixaba soava um pouco deslocada, admito.

Música Cristã que soa melhor fora das igrejas, seja bem-vinda!

 

 

O esperado novo trabalho foi batizado “Sobre o Mesmo Chão” e já começa tratando dessa questão, a faixa título apresenta as melhores guitarras do CD e fala do muro que é colocado em torno das pessoas que estão sobre o mesmo chão, mas travam uma guerra. A guerra que separa quem está dentro dos muros, e que na verdade deveria estar justamente no território chamado de inimigo, levando esperança. A música “Sagrado” é um destaque, também questiona o que deve ser considerado santo, mas que por vezes se torna hilário, e trás os versos que não paro de cantarolar nessa última semana:

Ouça minha oração, que se fez cantiga
Canção pra acordar
Se Deus aceitar cantiga, minha oração
Deus não perderá jamais

 

O Palavrantiga mostra maturidade para fugir do óbvio, você vai precisar ouvir este CD várias vezes para entender algumas coisas, vai precisar absorver as ideias aos poucos, os refrões não são grudentos, os arranjos partem de riffs modernos como os do Muse até fraseados que lembram Beach Boys, algumas faixas usam um naipe de metais, e o violão que conduziu algumas músicas dos trabalhos anteriores, praticamente não aparece, mas nada fica deslocado, pelo contrário, é muito coeso e coerente.  A banda define a si mesmo como Banda Brasileira de Rock, e entrega o serviço em canções como “Meu Lar”, uma espécie de cruzamento entre Los Hermanos e a Jovem Guarda, e mais ainda em “Branca”, tanto pela letra quanto pelo contratempo típico de samba partido alto no refrão. Brasilidade sim, mas com rock.

Ainda que não seja dos mais pops, o CD soa extremamente bem, como também soavam os anteriores, altamente melódico e valorizando muito as letras. Palavras antigas e recentes vão se combinando, às vezes nos intrigando e mesmo dizendo que de tudo quanto eu tenho para dizer, eu digo muito pouco com as palavras (na música “Boa Nova”), Marcos Almeida tem sim muito a dizer, e arrisco que Esperança seja um de seus temas favoritos. Esperança de que Deus ouvirá sua canção, como em “De Manhã”, esperança de que exista a inocência e de que a chuva caia doce, como em “Minha Menina”, esperança por um lar que já está pronto, mas não agora, como em “Meu Lar”.

Uma das melhores músicas do CD Esperar é Caminhar, “Rookmaker” reaparece com arranjo levemente mais cru, como se tivesse sido captada ao vivo, e com todas as suas referências musicais, literárias e filosóficas.

Outro momento que merece ser ouvido com atenção é “Antes do Final”, pela suavidade dos vocais, pelo clima de fim de festa, por conter Rock e Carnaval logo na primeira estrofe e por lembrar que antes de qualquer coisa, peça perdão.

A banda recupera o fôlego e termina com o melhor refrão do álbum, em “Partiu”

Partiu, foi embora
Sem mais desculpas
Se libertou
E partiu, foi pra rua
Sem mais desculpas
Um mundo inteiro ouviu você
Tão perto, um amor sincero

 

Tão logo o trabalho foi disponibilizado, já entrou para a lista dos mais vendidos online, somente atrás de estrelas da MPB como Roberto Carlos e Maria Rita, e à frente de um monte de sertanejos que eu me orgulho em não conhecer. Se em 2008 foi difícil enquadrar o som do Palavrantiga na igreja, hoje definitivamente não é mais o caso, com um trabalho consistente, reconhecido, distribuído pela Som Livre e não dependendo do carimbo de Gospel para sobrevier. A Arte agradece.

Fiquem na Paz.

@marlosferreira