Pipocando #3 – Habemus Papam

habemus_papamCom toda essa história de renúncia do Papa Bento XVI e eleição do novo Papa Francisco, lembrei de um filme lançado em 2011, que foi bem elogiado: “Habemus Papa”. Eu não consegui ver na época então resolvi baixar.

Na trama, após a morte de João Paulo II, o Conclave se reúne para escolher o seu sucessor. Após várias votações, o Cardial Melville (Michel Piccoli) é eleito. Porém, prestes a ser apresentado aos fiéis, ele tem um ataque de pânico e não consegue se apresentar. Ele não se sente apto à assumir a tarefa. Um dos maiores psicanalistas da Itália (interpretado pelo também diretor Nani Moretti) é chamado para tentar ajudar o recém eleito Papa.


Apesar de ler muita gente que viu o filme recentemente falando que foi um filme “profético”, discordo. A única semelhança do longa com a vida real foi a renúncia do papa. Para por aí. Além de ficar anos no papado, Bento XVI renunciou por limitações físicas, enquanto Melville renunciou por limitações psicológicas, pessoais. Antes de ser um filme sobre esse grande “evento” do catolicismo, é um filme sobre medo, depressão.

O filme trata da humanidade por trás do grande símbolo que é o Papa. Nani Moretti desconstrói a figura que muitos acham ser infalível e o trata de forma humana, com suas inseguranças, dúvidas e frustrações. Durante sua “fugida”, o papa recém eleito experimenta tanto situações que ele viveu num passado quase esquecido (seu envolvimento com o grupo de teatro), quando situações nunca vividas (ele estar num ambiente familiar, mesmo que dentro de um carro). Andando de ônibus, estando num grupo de amigos… Quase no final da vida, ele descobre (ou redescobre) um mundo que julgava ser inexistente — ou dispensável. E, ironicamente, ele percebe que é um mundo prazeroso, que ele sente falta.

E vale ressaltar que o tratamento humano não é dado apenas ao Papa, mas a todos os Cardeais, que são retratados como um monte de velhinhos entediados por terem que ficar confinados num lugar por vários dias. E todos eles tão inseguros quanto Melville (todos oravam para não serem escolhidos).

Mostrando os bastidores da eleição do Papa, algo que fica bem claro no filme é como a Igreja Católica está nas mãos de idosos. Mesmo não entrando a fundo no tema (pois o filme é mais humano do que religioso), vê-se que não há expectativa de uma mudança na diretriz da Igreja — a não ser que quem ser eleito, mesmo avançado na idade, seja bem progressista.

Além de dirigir o filme, Nani Moretti ainda dá vida a talvez o melhor personagem do filme: o psicanalista. Primeiramente designado para tratar do estado psicológico do Papa, ele também precisa ficar confinado junto com os Cardeais na Casa de Santa Marta até que a situação se resolva. E a relação dele com os Cardeais é interessantíssima. Não religioso, ele os trata de igual pra igual, sem aquele respeito que é esperado ao se dirigir a uma autoridade da Igreja. Em pouco tempo ele se sente estranhamente a vontade naquele ambiente tão diferente. As suas cenas estão entre as melhores do filme.

No final das contas, “Habemus Papam” serve como um estudo humano e também como uma leve crítica a Igreja Católica já que, tendo como base toda a pompa dessa Instituição, é um filme sobre humanidade e humildade — duas coisas que parecem meio perdidas no meio religioso, em geral.

Por Israel Duarte @IsDuarte

PIPOCANDO #2 – Django Livre

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Django Livre é o filme mais difícil que Quentin Tarantino já fez. O filme já estreou sob fortes polêmicas por mostrar de forma tão crua e realista a escravidão, uma ferida que até hoje não cicatrizou perfeitamente na população americana. Em sua obra anterior, “Bastardos Inglórios”, ele já tinha mexido num tema sensível como a II Guerra Mundial, porém com um olhar bem mais cômico do que é usado em “Django”. Em “Bastardos” há poucas cenas dramáticas. Tudo ali é criado para exorcizar todos os sentimentos que temos em relação ao Nazismo e os atos praticados pelo movimento.

Na figura de Shosanna ou de Aldo Raine e seus subordinados nos sentimos justificados, mesmo que nosso senso de justiça condene a violência que Tarantino tanto exalta. Mas a arte tem esse efeito. Ela é capaz de subverter o nosso super ego por alguns instantes e nos fazer apreciar algo que não faríamos na vida real.

Já em “Django”, antes desse “exorcismo” (iconizado na vingança do escravo liberto), somos obrigados a testemunhar uma grande dose da face mais selvagem desse período tão obscuro da história.

Durante as cenas dramáticas, Tarantino fez questão de não esconder nada. Com ações, palavras ou gestos, nós somos testemunhas dos mal tratos sofridos por pessoas que eram consideradas menores apenas por causa da cor da pele. Algumas cenas com os escravos chegam a ser incômodas de tão “cruas”. Sabiamente, o diretor e roteirista trata o tema com seriedade, e guarda os seus já famosos exageros para as sequências de ação que, aí sim, são divertidas e surreais, com bastante sangue jorrando pela tela, tiros certeiros, etc.

Na trama, o escravo Django (Jamie Foxx) é liberto por King Schultz (Christoph Waltz), um caçador de recompensa que precisa dele para reconhecer suas próximas vítimas, três irmãos a quem Django servia. Terminado o serviço, Django decide ficar mais um tempo com Schultz, que o treina e os dois viram sócios no “negócio”. Juntos ele bolam um plano para resgatar a esposa de Django, Broomhilda (Kerry Washington), que foi vendida ao cruél Calvin Candie (Leonardo DiCaprio).

Django-Imagem 1Uma marca presente do diretor é fazer da violência uma coisa divertida e até bonita em alguns casos (como o sangue espirrando numa plantação de algodão) e sempre criar vilões carismáticos. E Leonardo DiCaprio, que interpreta um vilão pela primeira vez, está espetacular na pele de Calvin Candie. O personagem é capaz tanto de ser carismático, educado e bom anfitrião, como de ser extremamente violento e brutal. E DiCaprio levou tão a sério o papel que durante a cena do jantar com Django e Schultz, ele realmente machucou a mão e, mesmo sangrando, continuou atuando. É uma pena que, de prêmios com grande reconhecimento, ele só tenha sido lembrado no Globo de Ouro.

Além de Calvin Candie, temos um outro personagem igualmente carismático e mau, interpretado perfeitamente por Samuel L. Jackson, um dos atores preferidos de Tarantino. Ele faz com perfeição o negro racista Stephen (braço direito de Candie), talvez um dos melhores personagens já criados pelo diretor.

Mas não só de bons vilões um filme vive. Tarantino também costuma criar (anti) heróis icônicos. E Jamie Foxx faz um bom trabalho como o escravo liberto, nos mostrando um Django violento, porém de certa forma inocente. Só que essa ingenuidade vai se perdendo no decorrer do filme, quando os acontecimentos da trama vão moldando sua personalidade, o tornando mais violento e sedento por vingança.

Já Christopher Waltz parece repetir o seu “Hans Landa” de Bastardos Inglórios, só que agora numa versão “boazinha”, ou quase isso — quem mata um pai na frente de seu filho não é tão bom assim. A atuação é muito parecida, com os mesmos trejeitos, entonação de voz e até o jeito de falar, sempre muito cordial e eloquente. Não achei justo ele receber tantas indicações (inclusive para o Globo de Ouro, que ganhou, e Oscar) enquanto DiCaprio, que faz um personagem bem mais difícil e complexo foi esquecido. Porém, mesmo assim, é impossível não gostar de ver Waltz atuando. É um dos melhores personagens do filme.

Django - Imagem 2Com o seu famoso timing perfeito, Tarantino mais uma vez tem sucesso em equilibrar bem drama, comédia e suspense. Em nenhuma cena uma piada corta um clima mais denso dramaticamente, parecendo forçado. Os risos fluem naturalmente, e muitas vezes causados por situações constrangedoras, recursos visuais, ações inesperadas, etc, sem necessidade de punchlines. Com todos os seus recursos narrativos e visuais, não é a toa que ele é um dos diretores mais aclamados da atualidade.

“Django Livre” realmente é um filme longo, mas vale cada minuto. E, no final das contas, mesmo tendo que aguentar muitas cenas pesadas e revoltantes, a sensação que fica é de satisfação. Sentimos que tudo que testemunhamos o personagem passar foi recompensado — e com uma boa dose de balas e muitos litros de sangue. Por mais absurdo que seja, nos sentimos bem com isso. E essa é a especialidade desse grande artista que é Quentin Tarantino.”

 

Por Israel Duarte @IsDuarte