Cristianismo for Dummies: O Livro

Cristão eram chamados muitos anos atras (não lembro se na idade média pelos povos árabes) de o homem do livro. Sempre estava lendo e consultando um livro. Esse livro é a bíblia. Ainda hoje a bíblia continua a ser a regra de fé e pratica de todos os cristãos.

Mas se uma religião assim, tão divergente internamente, segue um livro só… Como se explica tanta divergência? Seria esse livro tão genérico que cada um interpreta como quiser? Os fundamentalistas que aparecem na TV seguem mesmo esse livro a risca? E os progressistas? Como eles leem esse livro?

Definições

Antes de qualquer discussões, quero definir aqui alguns grupos e como eles leem o livro:

  1. Ortodoxos: Na verdade ortodoxia significa leitura correta. Todos acreditam que são ortodoxos, mas levaremos em consideração O Livro. Então na nossa definição, ortodoxos são aqueles em que o livro é lido por inteiro. Não há textos fora de contextos, para cada conclusão, por mais simples que seja, teria que fazer algumas perguntas ao texto: Era isso que o autor queria dizer? O livro em questão me autoriza, a partir do contexto, a fazer essa conclusão? Há algum ensinamento em todo o Livro que me desautoriza essa conclusão? Feita essas três perguntas, a conclusão pode ser tomada… Seja ela qual for!
  2. Tradicionalistas: São bem parecidos com os Ortodoxos, mas antes de qualquer conclusão eles consultam a tradição. Frase que ouvi de um tradicionalista: “Eu tenho a mesma fé que meus pais tinham”.
  3. Fundamentalistas: São muito parecidos com os tradicionalistas, porém não são abertos ao debate. Se você está discordando de mim, você é uma ameaça para mim e a minha fé!
  4. Pentecostais: O Livro é uma ferramenta para o Espirito Santo me revelar a verdade.
  5. Liberais: O que é a verdade? O Livro contém a verdade… Mas ele não é a verdade. A verdade tem que ser extraída dele, filtrando as partes que acredito que não sejam a verdade.

Essas definições são próprias, podem ser que se pareçam com algumas utilizadas na academia, mas mesmo assim, como a palavra Ortodoxia significa doutrina correta, todos se afirmariam ortodoxos.

Essas  definições não são equivalentes as definições denominacionais! Um pentecostal pode ser liberal, como um Anglicano pode ser Ortodoxo. Um Batista pode ser Pentecostal, como  um Presbiteriano pode ser Fundamentalista.

A frase comum

Já é comum ouvirmos a comum frase: “você não pode levar esse livro ao pé da letra”. Seria essa frase correta?

Liberais

Se formos analisar do ponto de vista dos Liberais, eles já não levam ao pé da letra. Porque como letra não tem pé, eu decido que pé não existe em letra e logo essa frase não é verdadeira, seriam melhor extrai-la do texto! Um exemplo bastante comum de um liberal é um cara chamado Rob Bell. Ele escreveu um livro afirmando nos primeiros capítulos que não podemos construir argumentos baseados na bíblia, pois a mesma não é coerente… Então ele construiu uma “nova” (na verdade já velha) teologia, usando o livro que ele afirmava não poder ser usado para construir argumentos, para explicar que não há inferno e que todos seriamos salvos (isso é, se houver pós-vida)!

Estaria ele correto?

Acredito que não! Vamos analisar qual foi a falhar argumentativa dele! Primeiro para “provar” que a bíblia não era coerente, ele apresentou vários texto em paralelo, mas esses textos estavam fora de contexto. Ou seja, é como se eu pegasse duas frases e colocassem uma ao lado da outra, mas ignorasse aonde ela estava sendo dita! Muitos desses textos tinham contextos completamente divergentes. Ele ainda não foi honesto com a origem do texto, apresentou alguns textos como poesia que não eram poéticos, separando em versos frases que não deviam ser separadas. Assim podemos criar, com um texto apenas, inúmeros sentidos conflitantes.

Pentencostais

Muitos anos atras aconteceu um crime! A bíblia foi dividida em versos!!!! Provavelmente foi na época de Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg. A intenção era apenas poder localizar facilmente um texto… Mas como toda invenção era facilmente utilizada para outro fim, acabou dando vida própria a cada verso! Assim a bíblia, que antes era formada de mais de 60 livros (há variações dependendo da tradição) passou a ser formada por milhares de versos.

Para os pentecostais quem é a autoridade máxima é o Espirito Santo. Mas quem certifica se a pessoa tem ou não o Espirito Santo? Essa é a grande questão. Todos os cristão (com exceção de alguns liberais) acreditam no Espirito Santo, mas eles divergem sobre como ele age e qual a sua finalidade. E o Espirito Santo revela o significado dos textos de acordo com a sua vontade!

Mas e se o significa for de encontro com o livro diz? Isso é possível? Muitos pentecostais preferem ficar com o que o “Espirito Santo” revelou, do que com a explicação de algum “irmão”.

Um texto que nos mostra perfeitamente o que é isso é o verso de Filipenses 4:13 “Tudo posso naquele que me fortalece”. Se eu te apresentar esse texto solto, você entenderá o que? Muitos acreditam que podem milagres! Que as portas do céus vão se mover de acordo com a sua vontade! Que nada é impossível para o cristão!!!!

Eu mesmo já acreditei nisso, devo confessar! Mas o que o autor dessa carta queria dizer para os leitores dela?

Se lermos os versos anteriores, vemos Paulo descrevendo as tribulações que passou na vida:

“Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade.” Filipenses 4:12

Dentro do livro, é impossível retirar outro significado do “tudo posso” que não seja: “posso aguentar qualquer tranco”. Aqui não há vitorias, mas significa que o autor podia aguentar qualquer derrota, pois ele era contente com quem dava alegria para ele!

Um amigo me alertou que a nova safra de pentecostais não leem a bíblia, apenas decoram textos falados por seus lideres. Esses vamos colocar na categoria manada!

É bastante comum, um pentecostal, ler um texto inteiro e retirar uma reflexão de apenas um verso.

Infelizmente, depois de muito tempo com pentecostalismo e puritanismo, para os versos mais conhecidos do Livro temos reflexões já prontas em nossos subconsciente que não equivalem ao que está escrito no livro como um todo. Somos treinados a ler esses textos com uma lente que na verdade não é a lente que o autor usava quando escreveu.

Fundamentalistas

Há bem claro dois tidos de fundamentalistas. Um que é extremistas na ideia. E outro que não quer mudar de ideia. Se chamarmos o Marco Feliciano de fundamentalistas, estamos atacando o segundo tipo, pois esse não lê os textos segundo as tradições. Ele lê como um pentecostal, e não dialogo por uma agenda própria.

O fundamentalista clássico lê os textos com as lentes dos pais deles, mesmo que existam evidências que esses textos tenham outras interpretações.

Essas leituras são bastante comuns no gênesis. E eles são os que ainda mantém o mito da criação, onde Deus é um magico que tirou o mundo da cartola, como estava antes de Darwin.

Há também outro ponto de discordância no mundo atual. Vemos nos Estados Unidos, qualquer intelectual cristão que tenha ideias que eles consideram esquerdistas são logo considerados hereges e excluídos do meio.

Esses fundamentalistas são os que defendem a escravidão como bíblica. Ou seja, se você ver alguém realmente dizendo que a bíblia defendia a escravidão, pergunte-se se o texto que a pessoa usa realmente dizia isso?

Tradicionalistas

Esses tem valores bem parecidos com os Fundamentalistas, mas eles suporta (a uma certa distancia) pensamentos divergentes. Uma coisa que vemos bem nos tradicionalistas é a defesa da liturgia.

O culto é como deveria ser. Ninguém pode questionar o culto! Muitos deles não se perguntam como os cristão do primeiro seculo (já que nessa época os apóstolos ainda eram vivos) cultuavam. A maneira correta é como cultuamos hoje!

Será mesmo?

Se formos pensar bem, no primeiro seculo não havia essa ordem litúrgica que há hoje. Não havia essa idolatração da música como unica forma de adoração. Ceia era um jantar comum. O vinho da ceia tinha álcool e era o suficiente para alguns ficarem embriagados. A ceia era um festa, e não um rito fúnebre… Ou seja, havia uma outra cultura cristã que hoje seria considerada ofensiva para quase todas as categorias de cristãos!!!

Ortodoxos

Aqui muitos vão me apedrejar! Quem possui a doutrina correta? Há verdade?

Se considerarmos que o Livro tem a verdade, vemos que há doutrina correta. E que ela não é defendida por nenhuma denominação dos dias de hoje!

Devo esclarecer que Ortodoxia não é um grupo, ou uma doutrina. Mas um padrão que considero inalcançável (mas que deve ser perseguido) nos dias de hoje. Ela só seria real, se conseguirmos (e com certeza não conseguiremos) extinguir o pecado de nossas vidas!

Nas cartas de Paulo, ele manda as mulheres de Corintos não falar em publico, para não se assemelhar as prostitutas da cidade. Mas ele envia uma carta à uma mulher em outra cidade, que seu marido era submisso a ela!

“Saudações a Priscila e ao seu marido Áquila e também à família de Onesíforo.” II Timóteo 4:19

Como podemos defender a ideia de submissão feminina com um trecho como esse? Em nenhum outro ponto Paulo repreende Priscila por ela “inverter a ordem”.

Os cristãos são comumente taxados de serem contras direitos trabalhistas e de reformas estruturais no sistema capitalistas. Mas se formos ler as leis do antigo testamento, vemos perdão de dividas, reforma agraria, obrigatoriedade do cuidado com o mais humilde. E nenhum desses são ideais comuns em nossos meios eclesiásticos!

Pequenos Cristos

Cristão foi uma denominação dada aos judeus que seguiam Jesus Cristo, e significa pequenos Cristos. Então, se formos pensar bem, um cristão deveria agir de forma semelhante a quem ele consideram o Mestre. E isso está especificado no Livro.

Termino com um vídeo do Pondé….

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=zh4gpxMjMic[/youtube]

E fica a questão: No que ele incomodaria hoje? Acredito que ele incomodaria todos as classes. E só seriam considerados Ortodoxos uns poucos cristãos, que hoje em dia seriam considerados loucos!

Quero falar de rock: sobre o ombro de gigantes (II)

Continuando a série Quero falar de Rock! Dessa vez ainda não chegaremos ao rock, mas vamos avançar um pouco no tempo. No primeiro post, vimos um pouco de dois ícones antagônicos do blues. Robert Johnson como o homem que vendeu a alma ao diabo. E um pouco da fé do Blind Willie Johnson. Estes tocavam um blues rural, pouco similar ao que temos hoje, mas que influenciaram grandemente o rock’n’roll!

Agora vamos falar um pouco do blues mais marcante. As vezes pensamos que a música que ouvimos é algo extremamente novo, mas quando buscamos na história vemos que tudo não passa de releituras das coisas que ouvimos no passado. Assim é o rock e qualquer outro estilo musical.

Continue Lendo…

Quero falar de rock: sobre o ombro de gigantes (I)

Prelúdio

Os tempos estão mudando…  Eu não sei quando você nasceu, provavelmente quando eu era adolescente você era uma criança. Ou quem sabe nem havia nascido! Nasci na década perdida, vulgo anos 80. Dizem que foi perdida porque a economia brasileira retrocedeu. Foi como se não tivéssemos vivido 10 anos. Fico triste, não por ter nascido nessa época, mas por alguns acharem que os números da economia determinam o que vale ou não….

Mas tive minha adolescência nos anos 90!!!! Quem viveu essa época sabe que rock era uma religião. Não sabemos como havíamos chegado lá, mas tínhamos uma ideologia. Evangelizar o mundo para o rock’n’roll! Foram pessoas que viveram nesse contexto que criaram o dot, de onde surgiu o underdot, por isso acredito que vale a pena falar um pouco da ideologia rock (ou pelo menos sobre o que eu acreditava ser o rock).

Mas antes de falar do rock vamos falar de história… Prometo que no final dessa série de posts você verá que isso está relacionado com a sua história, com a história do século em que você nasceu e com a sua fé. Muito mais do que sua vã filosofia pode sonhar…!!!

Pra começar vou quebrar um paradigma que rondava a geração anos 90 do Brasil. Éramos influenciados pela geração anos 80 do rock brasileiro, acreditava que o rock era uma quebra de paradigma. Ttínhamos que romper com o passado! Será? Vou deixar uma amostra do que a segunda geração do rock fez. Muitos regravaram clássicos da musica raiz do seu pais. Nessa minha “amostra” deixo uma música do Leadbelly (1889-1949) e uma regravação do Bob Dylan. 98% das pessoas com quem converso, que entendem muito de rock, atribuiriam essa música a banda The Animals….  Vê-se que não é verdade!

Vou logo avisando que é provável que você goste apenas da versão do Bob Dylan, mas todos os créditos são desse negro, pobre, analfabeto e provavelmente desdentado!

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=2b0KQ6_Oek8[/youtube]

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=y5tOpyipNJs[/youtube]

Raizes

Antes de existir o rock, existiu o homem. E com o homem existiu a opressão. E em todo homem oprimido existe a revolta!

A história do rock é intimamente ligada ao sentimento de revolta existente no homem.

Vou apresentar aqui alguns nomes dessa história do rock. Os primeiros deles não pertencem ao rock, pertencem ao seu pai: o Blues. O rock é o filho ilegítimo de um outro estilo musical. O blues nasceu na África subsaariana e veio contra sua vontade para a América. Essa história não é exclusiva. Todos os nomes desse post pertencerão ao Blues, mas são mais influentes do que qualquer rockstar que já existiu….

Robert Johnson

Se há uma mitologia no rock, o Adão dela é esse cara. Se há ironia, ele foi o cara quem vendeu a alma ao diabo. Esse cara encarna toda a alma do rock do século XX. Nascido pobre, em uma região insignificante, sem habilidades. Fez de tudo para conseguir ser alguém (até vender a alma ao diabo). Viveu sem esperança uma vida que qualquer cristão condenaria… Morreu com 27 anos! Foi indiretamente o guitarrista mais influente do século XX. Ouça uma das 29 músicas dele, e verá muitas frases conhecidas.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=3MCHI23FTP8[/youtube]

Blind Willie Johnson

Quero economizar palavras. Vou apenas traduzir o vídeo do Why Music Matters sobre esse cara.

O cego Willie Johnson está entre os maiores guitarristas slide que existiram.

Nascido em 1887, ele construiu a sua primeira guitarra de caixa de charuto aos 5 anos e passou a maior parte da sua vida tocando em esquinas, por alguns trocados.

Sua voz era tão poderosa, que diz a lenda ele quase começou um motim por cantar.

Ele apenas gravou 30 músicas e teve uma existência humilde.

Em 1945, sua casa se transformou em cinzas, mas sem ter onde ir, ele dormiu nas ruínas e contraiu pneumonia… e acabou morrendo!

No entanto, suas gravações tornaram suas músicas extremamente influentes. Todos regravaram ou cantaram suas canções.

1977: A música “Escura era a noite, frio era o chão” foi enviada ao espaço na nave Voyager da NASA como exemplo da diversidade da vida e cultura na terra.

“Essa gravação representa nossa esperança, nossa determinação e nossa boa vontade no vasto e maravilhoso universo.” … declarou Jimmy Carter.

Em 2004 Blind Willie Johnson deixou nosso sistema solar. Sabe quem sua musica irá inspirar… E isso explica porque a música é importante!

Imagine alguém extremamente influente na música…. É certo que ele já tocou uma do Blind Willie Johnson!

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=dzd9Wa3WoTw[/youtube]

Extremamente religioso. Sua fé era a temática recorrente das suas músicas, mas não influenciou toda geração do rock cristão, apenas alguns ícones como Bob Dylan, Larry Norman e Johnny Cash! Talvez porque os músicos cristãos não estivesse interessados na história de um negro pobre e cego da região mais pobre dos Estados Unidos.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=5OO64Ay3cac[/youtube]

Dicas

O Brother, Where Art Thou?

Musical contando a história e as músicas dessa época. Altamente recomendável!!!

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=n9UlbxlM5nE[/youtube]

The Blues de Martin Scorsese

Documentário sobre a história do blues. Altamente recomendável os epsódios I (Fell like going home) e II (The soul of a man) que falam respectivamente sobre a origem e a religiosidade (protestante) dessa música.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=EzXXDhOQLVw[/youtube]

A Igreja está sendo perseguida!

Cresci num tempo onde ser evangélico (ou ser crente, como era dito) tinha algumas características bem diferentes de hoje em dia, ou pelo a maneira como éramos vistos era muito diferente. O crente era visto como tão honesto a ponto de ser ingênuo, era meio ignorante (no sentido de mal informado), se vestia de maneira antiquada, alguns não tinham televisão, alguns não podiam jogar futebol, não existia esse lance de música Gospel e mais uma série de coisas eram atribuídas aos evangélicos.

Em um tempo onde o politicamente correto não era como hoje e o bullying nem tinha esse nome, havia também perseguição e preconceito de maneira muito mais clara do que atualmente.

O tempo foi passando e a situação foi mudando em relação a imagem dos evangélicos, a nossa música se desenvolveu e ganhou visibilidade, até ser copiada pelos católicos, muitos evangélicos prosperaram e passaram a exibir adesivos em seus carros 0km, apareceram os Atletas de Cristo, as reuniões de jovens evangélicos eram animadas, sempre com muita música, muita comida e nenhuma bebida, para alegria dos pais que ficavam aliviados em saber  que seus filhos preferiam  ficar na igreja do que passar as noitadas “no mundão”.  Uma moça católica com um namorado evangélico já não era mais problema (pelo menos não da parte católica, pois da parte evangélica a tolerância nunca foi uma virtude…), pelo contrário, era até bem visto por muitas famílias.

Tudo ia muito bem enquanto o foco era o povo evangélico, quando aparecíamos na mídia era em matérias mostrando empresários dizendo que tinham preferência em contratar evangélicos, pois eles eram mais tranquilos, mais disciplinados e mais confiáveis. A Marcha para Jesus era um evento legal, não travava a cidade inteira, não era movida por interesses políticos e mostrava que éramos um povo alegre e ordeiro.

Os problemas começaram quando a atenção saiu do povo evangélico e passou para sua liderança, daí pra frente o angu desandou, mas como foi que chegamos ao nível de provocação, rejeição e repercussão do caso Marco Feliciano?

Quando os líderes evangélicos começaram a ganhar (ou comprar) espaço na mídia, justamente as maçãs podres é que tiveram mais destaque, seja chutando imagens sagradas para outras religiões, seja carregando sacos de dinheiro arrecadados em eventos entre outros tantos fatos que colaboraram para denegrir a imagem do evangélico.

Porém ao mesmo tempo em que a parte mais “visível” da liderança evangélica se esforçava em sua busca por poder e influência, manipulando votos para seus candidatos e investindo pesado em canais de comunicação, e os escândalos não paravam de aparecer, o povo evangélico também mudava seu comportamento. Querendo mostrar-se próspero, culto, não alienado e formador de opinião (não que estes aspectos sejam negativos), o evangélico “saiu do gueto” invadindo programas de auditório com suas músicas, semeando rádios Gospel, participando de reality shows, virando personagem de novelas e filmes, colocando sua literatura em evidência, ganhando força como mercado consumidor e etc, o problema é que o evangélico fez tudo isso partindo de princípios duvidosos, estabelecidos por sua liderança. O evangélico quis expor seus argumentos, suas músicas e seus livros quase sempre de maneira superior, intolerante e fechada ao diálogo, do jeito que aprendeu com seus líderes. Outra questão que também tem certa relevância é a onda de “conversões relâmpago” que ainda está em evidência, de uma hora para outra, todo mundo virou crente.  Artistas em fase decadente, subcelebridades, presidiários, ex-traficantes, enfim, sem duvidar da transformação que o verdadeiro evangelho é capaz de fazer, o tema virou piada, o conhecido sincretismo religioso brasileiro chegou ao evangélico ao ponto de surgir o antes inimaginável “evangélico não praticante”.

Considerando o crescimento no número de evangélicos, considerando seu ativismo (alicerçado em seus representantes políticos) em questões como legalização do aborto, descriminalização do uso de drogas, direitos civis de homossexuais e pesquisas com células-tronco, considerando sua presença massiva nos meios de comunicação, considerando seus métodos – muitas vezes inescrupulosos – de arrecadação de dinheiro entre outros fatores, o evangélico tornou-se onipresente na sociedade brasileira. E a sociedade reagiu.

A cada semana temos um fato em evidência, seja a lista de pastores milionários da Forbes, seja a entrevista polêmica de Silas Malafaia, seja a eleição de Marco Feliciano para a Comissão de Direitos Humanos, seja a negociação milionária envolvendo R.R. Soares, Valdemiro Santiago e a Rede Bandeirantes pelo horário nobre da programação de TV, isso apenas para citar o último mês, tudo o que envolve os evangélicos está ganhando repercussão desproporcional. Não que eu defenda qualquer um dos casos acima, pelo contrário, mas em um país onde não faltam negociações nebulosas, escândalos de corrupção e cargos públicos ocupados por pessoas longe do perfil ideal, porque os fatos envolvendo os evangélicos estão ganhando tanto destaque? Por que gera tantas piadas? Por que gera tanto repúdio?

Porque o Brasil esperava mais de nós.

E não adianta olhar para estes pastores e dizer: “esses caras não me representam”, sinto muito, representam sim. Mesmo eu, que não frequento igreja alguma há quase três anos, sou representado de certa forma pelos Felicianos, Malafaias e Macedos da vida, pois não sou eu quem decide isso, enquanto qualquer pessoa pensar em “evangélico” e lembrar-se de uma dessas figuras, eu sou representado querendo ou não.

A Igreja Evangélica está sendo perseguida, graças a Deus por isso. Está sendo perseguida porque ainda é um referencial, ainda pode fazer diferença, ainda pode olhar e acolher aqueles que ninguém mais olha, ainda pode estabelecer padrões éticos que fujam do “jeitinho brasileiro” e da “Lei de Gérson”.  Está sendo perseguida por uma sociedade carente.

A Igreja Evangélica tem uma grande chance de responder a esta perseguição, mas vai responder agora? E mais importante, vai responder como? Vai se fechar, usando todo o poder e influência que já tem para se “blindar”, ou vai descer do muro oferecendo a outra face?

Fiquem na paz.

@marlosferreira