Cristianismo for Dummies: O Livro

Cristão eram chamados muitos anos atras (não lembro se na idade média pelos povos árabes) de o homem do livro. Sempre estava lendo e consultando um livro. Esse livro é a bíblia. Ainda hoje a bíblia continua a ser a regra de fé e pratica de todos os cristãos.

Mas se uma religião assim, tão divergente internamente, segue um livro só… Como se explica tanta divergência? Seria esse livro tão genérico que cada um interpreta como quiser? Os fundamentalistas que aparecem na TV seguem mesmo esse livro a risca? E os progressistas? Como eles leem esse livro?

Definições

Antes de qualquer discussões, quero definir aqui alguns grupos e como eles leem o livro:

  1. Ortodoxos: Na verdade ortodoxia significa leitura correta. Todos acreditam que são ortodoxos, mas levaremos em consideração O Livro. Então na nossa definição, ortodoxos são aqueles em que o livro é lido por inteiro. Não há textos fora de contextos, para cada conclusão, por mais simples que seja, teria que fazer algumas perguntas ao texto: Era isso que o autor queria dizer? O livro em questão me autoriza, a partir do contexto, a fazer essa conclusão? Há algum ensinamento em todo o Livro que me desautoriza essa conclusão? Feita essas três perguntas, a conclusão pode ser tomada… Seja ela qual for!
  2. Tradicionalistas: São bem parecidos com os Ortodoxos, mas antes de qualquer conclusão eles consultam a tradição. Frase que ouvi de um tradicionalista: “Eu tenho a mesma fé que meus pais tinham”.
  3. Fundamentalistas: São muito parecidos com os tradicionalistas, porém não são abertos ao debate. Se você está discordando de mim, você é uma ameaça para mim e a minha fé!
  4. Pentecostais: O Livro é uma ferramenta para o Espirito Santo me revelar a verdade.
  5. Liberais: O que é a verdade? O Livro contém a verdade… Mas ele não é a verdade. A verdade tem que ser extraída dele, filtrando as partes que acredito que não sejam a verdade.

Essas definições são próprias, podem ser que se pareçam com algumas utilizadas na academia, mas mesmo assim, como a palavra Ortodoxia significa doutrina correta, todos se afirmariam ortodoxos.

Essas  definições não são equivalentes as definições denominacionais! Um pentecostal pode ser liberal, como um Anglicano pode ser Ortodoxo. Um Batista pode ser Pentecostal, como  um Presbiteriano pode ser Fundamentalista.

A frase comum

Já é comum ouvirmos a comum frase: “você não pode levar esse livro ao pé da letra”. Seria essa frase correta?

Liberais

Se formos analisar do ponto de vista dos Liberais, eles já não levam ao pé da letra. Porque como letra não tem pé, eu decido que pé não existe em letra e logo essa frase não é verdadeira, seriam melhor extrai-la do texto! Um exemplo bastante comum de um liberal é um cara chamado Rob Bell. Ele escreveu um livro afirmando nos primeiros capítulos que não podemos construir argumentos baseados na bíblia, pois a mesma não é coerente… Então ele construiu uma “nova” (na verdade já velha) teologia, usando o livro que ele afirmava não poder ser usado para construir argumentos, para explicar que não há inferno e que todos seriamos salvos (isso é, se houver pós-vida)!

Estaria ele correto?

Acredito que não! Vamos analisar qual foi a falhar argumentativa dele! Primeiro para “provar” que a bíblia não era coerente, ele apresentou vários texto em paralelo, mas esses textos estavam fora de contexto. Ou seja, é como se eu pegasse duas frases e colocassem uma ao lado da outra, mas ignorasse aonde ela estava sendo dita! Muitos desses textos tinham contextos completamente divergentes. Ele ainda não foi honesto com a origem do texto, apresentou alguns textos como poesia que não eram poéticos, separando em versos frases que não deviam ser separadas. Assim podemos criar, com um texto apenas, inúmeros sentidos conflitantes.

Pentencostais

Muitos anos atras aconteceu um crime! A bíblia foi dividida em versos!!!! Provavelmente foi na época de Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg. A intenção era apenas poder localizar facilmente um texto… Mas como toda invenção era facilmente utilizada para outro fim, acabou dando vida própria a cada verso! Assim a bíblia, que antes era formada de mais de 60 livros (há variações dependendo da tradição) passou a ser formada por milhares de versos.

Para os pentecostais quem é a autoridade máxima é o Espirito Santo. Mas quem certifica se a pessoa tem ou não o Espirito Santo? Essa é a grande questão. Todos os cristão (com exceção de alguns liberais) acreditam no Espirito Santo, mas eles divergem sobre como ele age e qual a sua finalidade. E o Espirito Santo revela o significado dos textos de acordo com a sua vontade!

Mas e se o significa for de encontro com o livro diz? Isso é possível? Muitos pentecostais preferem ficar com o que o “Espirito Santo” revelou, do que com a explicação de algum “irmão”.

Um texto que nos mostra perfeitamente o que é isso é o verso de Filipenses 4:13 “Tudo posso naquele que me fortalece”. Se eu te apresentar esse texto solto, você entenderá o que? Muitos acreditam que podem milagres! Que as portas do céus vão se mover de acordo com a sua vontade! Que nada é impossível para o cristão!!!!

Eu mesmo já acreditei nisso, devo confessar! Mas o que o autor dessa carta queria dizer para os leitores dela?

Se lermos os versos anteriores, vemos Paulo descrevendo as tribulações que passou na vida:

“Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade.” Filipenses 4:12

Dentro do livro, é impossível retirar outro significado do “tudo posso” que não seja: “posso aguentar qualquer tranco”. Aqui não há vitorias, mas significa que o autor podia aguentar qualquer derrota, pois ele era contente com quem dava alegria para ele!

Um amigo me alertou que a nova safra de pentecostais não leem a bíblia, apenas decoram textos falados por seus lideres. Esses vamos colocar na categoria manada!

É bastante comum, um pentecostal, ler um texto inteiro e retirar uma reflexão de apenas um verso.

Infelizmente, depois de muito tempo com pentecostalismo e puritanismo, para os versos mais conhecidos do Livro temos reflexões já prontas em nossos subconsciente que não equivalem ao que está escrito no livro como um todo. Somos treinados a ler esses textos com uma lente que na verdade não é a lente que o autor usava quando escreveu.

Fundamentalistas

Há bem claro dois tidos de fundamentalistas. Um que é extremistas na ideia. E outro que não quer mudar de ideia. Se chamarmos o Marco Feliciano de fundamentalistas, estamos atacando o segundo tipo, pois esse não lê os textos segundo as tradições. Ele lê como um pentecostal, e não dialogo por uma agenda própria.

O fundamentalista clássico lê os textos com as lentes dos pais deles, mesmo que existam evidências que esses textos tenham outras interpretações.

Essas leituras são bastante comuns no gênesis. E eles são os que ainda mantém o mito da criação, onde Deus é um magico que tirou o mundo da cartola, como estava antes de Darwin.

Há também outro ponto de discordância no mundo atual. Vemos nos Estados Unidos, qualquer intelectual cristão que tenha ideias que eles consideram esquerdistas são logo considerados hereges e excluídos do meio.

Esses fundamentalistas são os que defendem a escravidão como bíblica. Ou seja, se você ver alguém realmente dizendo que a bíblia defendia a escravidão, pergunte-se se o texto que a pessoa usa realmente dizia isso?

Tradicionalistas

Esses tem valores bem parecidos com os Fundamentalistas, mas eles suporta (a uma certa distancia) pensamentos divergentes. Uma coisa que vemos bem nos tradicionalistas é a defesa da liturgia.

O culto é como deveria ser. Ninguém pode questionar o culto! Muitos deles não se perguntam como os cristão do primeiro seculo (já que nessa época os apóstolos ainda eram vivos) cultuavam. A maneira correta é como cultuamos hoje!

Será mesmo?

Se formos pensar bem, no primeiro seculo não havia essa ordem litúrgica que há hoje. Não havia essa idolatração da música como unica forma de adoração. Ceia era um jantar comum. O vinho da ceia tinha álcool e era o suficiente para alguns ficarem embriagados. A ceia era um festa, e não um rito fúnebre… Ou seja, havia uma outra cultura cristã que hoje seria considerada ofensiva para quase todas as categorias de cristãos!!!

Ortodoxos

Aqui muitos vão me apedrejar! Quem possui a doutrina correta? Há verdade?

Se considerarmos que o Livro tem a verdade, vemos que há doutrina correta. E que ela não é defendida por nenhuma denominação dos dias de hoje!

Devo esclarecer que Ortodoxia não é um grupo, ou uma doutrina. Mas um padrão que considero inalcançável (mas que deve ser perseguido) nos dias de hoje. Ela só seria real, se conseguirmos (e com certeza não conseguiremos) extinguir o pecado de nossas vidas!

Nas cartas de Paulo, ele manda as mulheres de Corintos não falar em publico, para não se assemelhar as prostitutas da cidade. Mas ele envia uma carta à uma mulher em outra cidade, que seu marido era submisso a ela!

“Saudações a Priscila e ao seu marido Áquila e também à família de Onesíforo.” II Timóteo 4:19

Como podemos defender a ideia de submissão feminina com um trecho como esse? Em nenhum outro ponto Paulo repreende Priscila por ela “inverter a ordem”.

Os cristãos são comumente taxados de serem contras direitos trabalhistas e de reformas estruturais no sistema capitalistas. Mas se formos ler as leis do antigo testamento, vemos perdão de dividas, reforma agraria, obrigatoriedade do cuidado com o mais humilde. E nenhum desses são ideais comuns em nossos meios eclesiásticos!

Pequenos Cristos

Cristão foi uma denominação dada aos judeus que seguiam Jesus Cristo, e significa pequenos Cristos. Então, se formos pensar bem, um cristão deveria agir de forma semelhante a quem ele consideram o Mestre. E isso está especificado no Livro.

Termino com um vídeo do Pondé….

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=zh4gpxMjMic[/youtube]

E fica a questão: No que ele incomodaria hoje? Acredito que ele incomodaria todos as classes. E só seriam considerados Ortodoxos uns poucos cristãos, que hoje em dia seriam considerados loucos!

Cristianismo for Dummies: O suicídio intelectual

Estamos passando por um embate muito forte! Há uma grande discussão midiática com dois lados bem distintos: um acusa todos os cristãos de serem acéfalos idiotas. O outro prova que a opinião do oponente está certa! Não há quem nos defenda na mídia! Por isso, como um bom cristão esclarecido (que até frequentou a melhor universidade do Brasil, em um curso bem disputado, e fez matérias de muitos outros cursos) resolvi criar um pequeno guia para combater preconceitos bobos.

Resolvi usar o termo “for Dummies”, que apesar bastante comum em livros americanos, significa “para idiotas”. Mas não se ofenda, não estou lhe chamando de idiota. Ou talvez esteja! Mas quero apenas combater alguns preconceitos, muitas vezes justificados por nós mesmo!! As vezes que retiro isso de “pre” e coloco como conceito mesmo!

O suicídio intelectual

A principal ideia é a do suicídio intelectual. Muitos acreditam que acreditar em um Deus, principalmente o Deus cristão, é assumir sua Esquizofrenia em publico! Há pessoas que chegam ao cumulo de falar que não podem haver cristãos em uma faculdade…. Bom, como rebater isso?

Poderíamos até abusar do pre-conceito da pessoa! Como uma vez vi em uma entrevista uma pessoa falando que alguém com uma cosmovisão cristã não deve ser respeitada, mas o mesmo era de uma religião afro-descendente?!?!!?!? Como pode alguém argumentar que você é idiota porque acredita no sobrenatural, mas ela não, mesmo ela acreditando em outro tipo de sobrenatural!!! É, essa pode ser uma defesa… Mas é muito caricatural e burra! Há defesas mais rebuscadas!

Vamos começar primeiro com o principal. De que somos acusados?

Muitos acusam o cristianismo de ir contra a ciência. Temos primeiro que questionar dois pontos: a que a ciência se destina, e como ela é executada. Alguns acreditam que a ciência aposentou o conceito “deus”… Mas será que aposentou mesmo?

A ciência é baseada no método cientifico! Algo bastante interessante, fala que um evento só pode ser comprovado se ele possa ser repetido. Assim, você que fez faculdade, cansou de fazer experimentos e relatórios, onde havia uma base teórica, e um experimento onde quem lesse aquele relatório deveria chegar aos mesmo resultados que você chegou! Bem isso é a ciência! Não estou aqui para colocar em duvida nenhuma descoberta cientifica! Estou aqui apenas para questionar: a ciência matou Deus?

Antes de bater o martelo, vamos definir dois conceitos: o material e o imaterial.

Material é tudo aquilo que existe nesse universo. A cadeira que estou é material. A água que bebo é material. A minha carne (fisiologicamente falando) é material. O átomo é material. O elétron é também. Até a luz é! Ainda há inúmeras partículas que são material que ainda não foram descobertas. Mas um dia farão parte de algum experimento, que será descrito em algum relatório, onde alguém em outro lugar vai poder repetir e chegar aos mesmo resultados. O

Ou seja, o imaterial é tudo para alguém simplesmente materialista (filosoficamente falando)!!

Mas o que foge ao material, você deve se perguntar? O que é imaterial!

Tente definir o que é espirito! Segundo a ciência é uma serie de reações químicas que nos fazem existir! Não nego que seja uma serie de reações químicas que comprovam que estamos vivos… Estou apenas estendendo o conceito!

Imagine dois conjuntos. O material só se refere aquilo que é palpável. E o imaterial se refere aquilo que não é desse universo, mas está aqui! É como tivéssemos dois conjuntos. Nosso universo é tudo que é material, mas ele foi criado por algo imaterial (poderia ser Deus) e esse imaterial não faria parte desse universo. Logo este imaterial não poderia ser explicado, e nem comprovado por algo material! Ou seja, a ciência nunca matará Deus!

Eu não entendo de filosofia, mas já ouvi algumas pessoas que entendem discutindo. E há um consenso, pessoas que acusam uma religião de negar toda a ciência tem uma péssima base filosófica, pois a religião e a ciência tem bases epistemológicas diferentes! Palavras bonitas, né?

Bom, mas e se meu pastor falou para eu não acreditar no que a ciência diz? Nesse caso temos dois problemas. O primeiro é que seu pastor, ou o pastor em quem você quer pautar sua defesa, deseja atuar em uma área que não é dele. Nesse caso, você pergunte onde ele estudou biologia ou física. O segundo problema é uma mente materialista imaginando coisas imateriais, esse erro normalmente ocorre para se referir a criação do mundo. Deus é imaterial, e ele pode ter criado o mundo usando suas mãos imateriais (isso é se forem realmente mãos) e tudo se formou. Porém nesse universo, o imaterial aconteceu de alguma forma! Não há coelho e cartola. Deus não é magico. Se ele fez, deve ter feito de algum modo que poderia ser explicado de alguma forma que ele não exista, pois ele não é limitado a sua criação.

Poderíamos discorrer muito mais…. Mas essa é basicamente uma questão simples! Se há um Deus e ele criou o universo, logo Ele não pertence a esse universo, então esse universo não poderá provar se ele existe ou não!

Evangélicos: Um novo grupo político

42-19288441Provavelmente você que está lendo isso já algum dia se identificou com evangélico! Se não, substitua todas as vezes que eu citar essa palavra novamente por a de algum grupo que você pertence.

Nessas ultimas semanas tem rolado na mídia a noticia da prisão de um homem. Autodenominado pastor. Trabalhou um bom tempo com presidiários Não me interessa o mérito dele ser preso. Quero me atentar para outro detalhe de tudo isso.

Depois da noticia, muitos evangélicos correram para defender o tal “pastor”. Acreditavam que tudo isso era jogada politica de tal televisão, para denegrir a imagem do grupo.

Grupo? Eu fico me perguntando por que eles têm essa consciência de grupo? O que realmente os une?

Caso fosse um grupo religioso, eles deveriam saber que todas as religiões têm dogmas e conceitos. Curioso, fui até o site da seita do tal “pastor” para ler a carta de doutrina deles. Não há referências ao o que eles acreditam ser Deus. Não há referências a como o homem deve se comunicar com Deus. Não há referências ao o que define o sacerdote. Como é feita a adoração. Qual a situação humana. Não há referências a nenhum conceito que uma religião trataria. Havia referências apenas ao que vestir e beber…

O que isso nos revela?

Qualquer religião que se preze, tem por objetivo religar o homem a Deus. A cristã parte do pressuposto que isso é impossível, pois o homem nunca alcançará Deus, por isso Deus fez o movimento contrario. Nesse “religamento” tem que responder a grande duvida do universo: “porque temos a impressão que tudo está errado?”

Isso não era respondido na carta de princípios Não posso afirmar nos cultos deles, mas visto o padrão dessa classe “religiosa”, provavelmente ele não responde.

Bom, onde quero chegar com esses questionamentos?

Fica claro que esse grupo denominado evangélico não tem preocupação com dogmas e teologias Estou apenas preocupado com o grupo, em fazer parte do grupo e defender o grupo. Inconscientemente eles precisam desses discursos feitos pelos pastores. É exatamente o que eles precisam ouvir. Um caminho para a salvação. Uma maneira de se reconciliar com deus.

Mas quem é esse deus? Muito provavelmente esse deus não é o Deus cristão. É um deus materialista. Deus que faz barganhas. Que pune aquele que erra, é um deus que alguns conseguem o agradar. Ao Deus cristão, ninguém consegue agradar, só aquele que entende que nada do que ele fizer o trará para perto de Deus é que consegue chegar perto desse Deus.

Mas então, se são deuses totalmente diferentes… Porque alguns cristãos tentam defendê-lo como se ele fosse um cristão?!?!

Há algumas suposições.

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A primeira é que os cristãos estão se identificando não como um grupo religioso. Se fosse isso a discussão seria em torno das doutrinas. Mas como um grupo politico. Grupo politico no pior sentido. Aquele que é contra de outro grupo, mesmo tendo ideais similares. Partidaristas da pior espécie!

Outra suposição, é que os grupos cristãos que os apoiam são amantes da ignorância. Não sabem no que creem por isso qualquer que utilizar o mesmo nome, será considerado do mesmo grupo.

E quem são esses pastores?

Devemos analisar o surgimento dessas igrejas não pela ótica religiosa. Mas pela ótica econômica. Há um mercado em franca expansão. O mercado de vidas. Muitos estão sedentos por uma espiritualidade que não irá confronta-los. E muitos estão sedentos por dinheiro. Quem alimentar essas duas necessidades do nosso povo irá ter sucesso. Temos um contingente de ignorantes que tem crescido financeiramente, mas continuam ignorantes. São semianalfabetos. Não sabem distinguir quem é um aproveitador, ou não.

E o que fazer?

Fico na duvida de como agir. Tenho apenas um ideal nessa vida: o Reino de Deus. Qualquer um que pelo nome de Deus não estiver lutando pelo Reino, está em confronto direto com Deus. Com os que têm ciência do erro que estão cometendo, entro em conflito direto! Com os que ainda são ignorantes… Só me resta orar, e tentar criar duvidas em suas cabeças. Pra quem sabe vir à decepção e com a decepção a verdade. A verdade liberta!

Fé cega, faca amolada

“Novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu
vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. Nisto todos
conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” | João 13:34 e 35

Quando Rosa Parks se negou a ceder seu lugar no ônibus a uma mulher branca, nos Estados Unidos dos anos 1950, havia um pastor ao seu lado para protestar contra segregação racial. Ele liderou esse movimento por anos. Enfrentou ameaças e ataques. Seu nome era Martin Luther King. E sua participação foi decisiva na luta contra a discriminação não só nos transportes, mas em toda a sociedade norte-americana. Foi assassinado brutalmente. Mas virou herói em seu país, e, hoje, não é possível falar de Direitos Humanos ou minorias sem citar sua enorme contribuição.

Esse movimento de mais de 60 anos atrás me lembra de que, quando a fé encontra a ação política profética, não precisa necessariamente se transformar em acusações, falso moralismo ou hipocrisia. Antes, pode ser traduzida em ação contra a injustiça, a favor da inclusão e pela paz. Infelizmente, porém, parece que o modelo capaz de combinar atuação pública relevante e cristianismo genuíno está sendo ignorado por alguns daqueles que resolveram se dizer porta-vozes da Igreja brasileira.

Tenho acompanhado com perplexidade – e, tenho de dizer, com constrangimento – o noticiário dos últimos dias. A conclusão é óbvia: a plataforma dos Direitos Humanos virou palanque predileto de um certo povo lá de Brasília… Usar tema dessa importância só pra se promover já não seria coisa boa. Porém, se ao menos estivessem batendo bumbo contra a corrupção, a violência e a injustiça vá lá… Mas não. O que estão fazendo é acentuar preconceitos e rancores, estimular a exclusão e o racismo, e defender a intolerância. E o pior: tudo isso em nome de Deus (e no meu e no seu nome também!).

É evidente que, num país democrático, ninguém pode impedir quem quer que seja de expressar suas opiniões, valores e crenças. E o princípio vale também para nós, evangélicos, que temos de ter liberdade para dizer o que pensamos. Não se combate intolerância com intolerância, nem fundamentalismo com mais fundamentalismo. Sem dúvida, repudio qualquer tentativa de cerceamento desse direito. Porém, não podemos nos esquecer de que Jesus veio a esse mundo com a missão de salvá-lo e não de acusá-lo.

Quem me conhece, sabe da minha militância de quase 20 anos pelos Direitos Humanos. Sabe de minha luta e da luta do grupo que represento para garantia de direitos aos pobres, aos injustiçados, aos mais fracos, aos escravizados… E, na semana que passou, fui ao plenário e me posicionei contra essa redução da agenda bíblica de transformação social a questões de sexualidade. No entanto, não protestei como ativista do tema: discursei como cristão.

Fui ao microfone e critiquei esse modelo de política e púlpito que explora questões étnicas ou de sexualidade em troca de lucro eleitoral (ou seja, voto). Mas, sobretudo, usei meu pronunciamento para pedir perdão. Sim, dirigi-me aos não-crentes, àqueles que não professam a mesma fé que eu e você, e pedi que nos perdoassem se, de alguma forma, o barulho que está sendo feito os estiver impedindo de entender a verdadeira mensagem de Jesus.

Há mais de dois mil versículos na Bíblia falando sobre o cuidado com os pobres e aproximadamente seis tratando sobre homossexualidade, por exemplo. No entanto, não se vê nenhum projeto para atender a quem sofre. Pergunto: Quantas vezes Jesus falou sobre homossexualidade? Respondo: Nenhuma… No topo da lista dos confrontados pelo Mestre estavam os homossexuais? Ou eram os hipócritas religiosos de Sua época? Por que, então, super explorar alguns temas de forte apelo eleitoral e desvalorizar outros, claramente enfatizados pela Bíblia e por Jesus? A quem interessa reduzir a essência amorosa e transformadora da mensagem de Jesus à agenda moralista? Será que esses que fecham os olhinhos diante das câmeras da imprensa, parecendo muito espirituais, não os mantêm bem abertos, fixos nos votos que podem tirar de todo esse teatro?

“Errais não conhecendo as Escrituras”, diz a Palavra. E o problema fica ainda mais agudo quando esse discurso sem amor ou sabedoria contamina algumas igrejas. Aí, é mesmo como na velha música: fé cega, faca amolada. Crentes sinceros têm aderido a essa ideologia esdrúxula, sem saber que estão assumindo uma agenda que nada tem a ver com os reais desejos do coração do Pai.

Atenção, caro leitor. Não estou propondo que essa ou aquela prática seja, agora, legitimada. Há questões que são específicas da Igreja. E outras que são de Estado. Não apoio aqueles que tratam a nós, evangélicos, como ignorantes. Minha fé e minha consciência cristã não estão alinhadas a esses que querem impor no grito sua condição como regra. Defendo que respeitem a nós, evangélicos, com o mesmo respeito que têm exigido.

Porém, o que acontece é, no meio de todo esse barulho, a ideia de cristianismo transmitida está errada. O testemunho público está ruim. Pesquisa recente, realizada pelo Barna Group, nos Estados Unidos, questionou jovens não-cristãos sobre sua percepção sobre os cristãos. O resultado? Para eles, a principal característica dos crentes é a de ser anti-homossexual. Triste conclusão a de que cristãos estejam se tornando mais conhecidos pelo que são contra do que pelo que são a favor. Vale a reflexão. Essa com certeza não era a impressão que as pessoas tinham ao encontrar Jesus ou os irmãos da primeira Igreja.

Perde-se tempo com discussão de modos e costumes, quando uma agenda cristã contemporânea, biblicamente fundamentada, conduzida com honestidade e humildade, poderia diminuir a violência, lutar por melhores condições de saúde, erradicar a pobreza e a escravidão moderna, cuidar da Criação, fortalecer as famílias, promover o respeito à sacralidade da vida humana e sua dignidade intrínseca – bem ao contrário dos absurdos que temos visto.

A esses pastores ou políticos que se autodenominam defensores dos evangélicos, lembro que a Igreja já tem em Cristo o seu maior e suficiente defensor. As vozes cristãs que mais foram ouvidas e mais transformaram a história da Humanidade não foram essas que se apressam em julgar e condenar. Foram aquelas que pregaram e viveram a essência da mensagem de Jesus: o amor, a paz, a justiça, o perdão, a tolerância, a não violência, a defesa dos mais frágeis, a vida com integridade. Foram vozes que se levantaram contra o racismo e a hipocrisia religiosa.

Salve Mandela, salve Desmond Tutu, salve Martin Luther King, Bonhoeffer, Wilberforce, Jaime Wright, Robinson Cavalcanti! Com esses, estou alinhado, hoje e sempre.

Por Carlos Alberto Bezerra Jr

Se Deus gostasse só de música gospel, dava talento só para os cristãos

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Nem minhas melhores piadas, nem as charges mais polêmicas, nem meus textos mais sérios foram tão compartilhados, comentados, retwittados pelos terrákios e habitantes de todo universo e adjacências. Gosto disso! Meu ministério é fazer os outros pensarem.

Uns acharam o máximo e outros desempoeiraram suas bíblias pra achar um texto que revertesse a intenção da frase. Logo vieram as ilustrações:

– “Já pensou nos anjos cantando Camaro Amarelo?”
– “O mundo jaz no maligno.”
– “Cuidado com a heresia…”

Uma das maiores raivas de certos evangélicos é que Deus trata todos igualmente. Meus “primos” presbiterianos dão cambalhotas lembrando com alegria o que Calvino chamava de Graça comum. Isso mesmo! Deus dá o mesmo sol para todos. Libera oxigênio igualmente, mesmo que os narigudos queiram consumir mais que os outros. E talento também.

Deus deu talento para Djavan da mesma forma que deu para Sérgio Pimenta. Deus deu talento para Latino da mesma forma que deu para… Ah, deixa pra lá. Deus é tão bom que, até para quem não deu talento, deu oportunidade de mostrar suas criações artísticas.

Mas nós evangélicos confundimos tudo. Achamos que se alguém não adora a Deus não tem talento, ou mesmo que tenha, o talento dela não deve ser “consumido” por nós crentes.

Mas isso só vale na música e na dança. Se for literatura, poesia, fotografia, cinema, arquitetura, etc., a galera não pega muito no pé:

– “Oscar Niemeyer , ah esse foi um gênio!”
– “Drumond? Maravilhoso!”
– “Fernanda Montenegro? A Diva do Brasil!”
– “Fred Mercury? Um gay dos demônios!”

Já pensaram que quando é em relação à música é batata? Muitos pensam que só é bom o louvor e a adoração e quem o faz. Aí temos as distorções.

O cara faz qualquer tipo de letra, acaba com o dicionário de acordes, ousa no máximo rimar amor com dor, mas é evangélico: pronto! É praticamente canonizado em cima dos seus milhares de CDs vendidos.

CONFUSÕES

Adoração não é música. Assim como adorador não é quem canta. Louvor não é música. Assim como quem louva não é quem canta. Adoração e louvor são intenções de um coração rendido.

Vamos ilustrar para não ficar tão confuso. Quando a viuvinha da bíblia deu todos os seus trocados, a adoração não foram as moedas (Lucas 21:2). O que valia era o coração. Quando a ex-Garota de Programa de Lucas 7 derramou o perfume aos pés de Jesus, ele pouco ligou para como o perfume foi comprado pela mulher. Ele se importou com o coração.

Adoração não é moeda. Não é perfume. É coração. Então não se pode dizer que música é adoração.

DISTORÇÕES

Se nós passamos a achar que a música evangélica é a única que Deus gosta e por consequência a única que devemos gostar, então devemos levar isso para todas as áreas da nossa vida.

Se você acha que só o talento do seu irmão é válido, então passe a consumir somente livros cristãos, filmes cristãos, ande só com roupas desenhadas e costuradas por cristãos, ande somente em carros fabricados por cristãos e vibre só com gols feitos por atletas cristãos, num gramado regado por cristãos, num estádio projetado e construído somente por cristãos. Lembrando a mesma regra que você criou para a música, se você consumir alguma arte ou coisa que não seja de origem cristã estará pecando.

 

QUAL TIPO DE MÚSICA QUE DEUS GOSTA?

É meio difícil definir o que Deus gosta não é mesmo? A não ser que tentemos refletir Nele algo que nós gostamos. Por isso existem tantos pastores, líderes e cristãos comuns contestando vários estilos musicais (e em 100% dos casos são os mesmos estilos que eles não gostam).

Podemos observar uma coisa sobre o caráter de Deus. Ele gosta de coisas boas, criativas e perfeitas. Foi assim quando ele terminou sua obra na criação da Terra dizendo: Ficou muito bom! Foi assim quando ele aprovou o sacrifício de Abel porque tudo dele era de primeira.

Posso pensar então que quando uma música é bem construída, tem excelência em sua abordagem, tem melodia e harmonia sensacionais e um conteúdo perfeitamente elaborado, Ele deve gostar.

A frase que gerou tantos comentários era subliminarmente para isto: Nós como cristãos não podemos achar que qualquer coisa que criamos vá fazer com que Deus se agrade pelo único falto de levar o rótulo gospel, ou cristão, ou evangélico. Nem podemos achar que qualquer coisa criada fora do nosso gueto é desprezível e não presta.

Usemos nosso talento para produzir coisas grandiosas. Abra mão dos rótulos, deixe que sua arte defenda sua criação. E pare chamar música de adoração! Música é só música!
Ruben Mukama (Um cara que ouve de tudo e que retém só o que é bom!)

Site: http://www.rubenmukama.com/

Texto originalmente publicado em Portal Conectar.

A Igreja está sendo perseguida!

Cresci num tempo onde ser evangélico (ou ser crente, como era dito) tinha algumas características bem diferentes de hoje em dia, ou pelo a maneira como éramos vistos era muito diferente. O crente era visto como tão honesto a ponto de ser ingênuo, era meio ignorante (no sentido de mal informado), se vestia de maneira antiquada, alguns não tinham televisão, alguns não podiam jogar futebol, não existia esse lance de música Gospel e mais uma série de coisas eram atribuídas aos evangélicos.

Em um tempo onde o politicamente correto não era como hoje e o bullying nem tinha esse nome, havia também perseguição e preconceito de maneira muito mais clara do que atualmente.

O tempo foi passando e a situação foi mudando em relação a imagem dos evangélicos, a nossa música se desenvolveu e ganhou visibilidade, até ser copiada pelos católicos, muitos evangélicos prosperaram e passaram a exibir adesivos em seus carros 0km, apareceram os Atletas de Cristo, as reuniões de jovens evangélicos eram animadas, sempre com muita música, muita comida e nenhuma bebida, para alegria dos pais que ficavam aliviados em saber  que seus filhos preferiam  ficar na igreja do que passar as noitadas “no mundão”.  Uma moça católica com um namorado evangélico já não era mais problema (pelo menos não da parte católica, pois da parte evangélica a tolerância nunca foi uma virtude…), pelo contrário, era até bem visto por muitas famílias.

Tudo ia muito bem enquanto o foco era o povo evangélico, quando aparecíamos na mídia era em matérias mostrando empresários dizendo que tinham preferência em contratar evangélicos, pois eles eram mais tranquilos, mais disciplinados e mais confiáveis. A Marcha para Jesus era um evento legal, não travava a cidade inteira, não era movida por interesses políticos e mostrava que éramos um povo alegre e ordeiro.

Os problemas começaram quando a atenção saiu do povo evangélico e passou para sua liderança, daí pra frente o angu desandou, mas como foi que chegamos ao nível de provocação, rejeição e repercussão do caso Marco Feliciano?

Quando os líderes evangélicos começaram a ganhar (ou comprar) espaço na mídia, justamente as maçãs podres é que tiveram mais destaque, seja chutando imagens sagradas para outras religiões, seja carregando sacos de dinheiro arrecadados em eventos entre outros tantos fatos que colaboraram para denegrir a imagem do evangélico.

Porém ao mesmo tempo em que a parte mais “visível” da liderança evangélica se esforçava em sua busca por poder e influência, manipulando votos para seus candidatos e investindo pesado em canais de comunicação, e os escândalos não paravam de aparecer, o povo evangélico também mudava seu comportamento. Querendo mostrar-se próspero, culto, não alienado e formador de opinião (não que estes aspectos sejam negativos), o evangélico “saiu do gueto” invadindo programas de auditório com suas músicas, semeando rádios Gospel, participando de reality shows, virando personagem de novelas e filmes, colocando sua literatura em evidência, ganhando força como mercado consumidor e etc, o problema é que o evangélico fez tudo isso partindo de princípios duvidosos, estabelecidos por sua liderança. O evangélico quis expor seus argumentos, suas músicas e seus livros quase sempre de maneira superior, intolerante e fechada ao diálogo, do jeito que aprendeu com seus líderes. Outra questão que também tem certa relevância é a onda de “conversões relâmpago” que ainda está em evidência, de uma hora para outra, todo mundo virou crente.  Artistas em fase decadente, subcelebridades, presidiários, ex-traficantes, enfim, sem duvidar da transformação que o verdadeiro evangelho é capaz de fazer, o tema virou piada, o conhecido sincretismo religioso brasileiro chegou ao evangélico ao ponto de surgir o antes inimaginável “evangélico não praticante”.

Considerando o crescimento no número de evangélicos, considerando seu ativismo (alicerçado em seus representantes políticos) em questões como legalização do aborto, descriminalização do uso de drogas, direitos civis de homossexuais e pesquisas com células-tronco, considerando sua presença massiva nos meios de comunicação, considerando seus métodos – muitas vezes inescrupulosos – de arrecadação de dinheiro entre outros fatores, o evangélico tornou-se onipresente na sociedade brasileira. E a sociedade reagiu.

A cada semana temos um fato em evidência, seja a lista de pastores milionários da Forbes, seja a entrevista polêmica de Silas Malafaia, seja a eleição de Marco Feliciano para a Comissão de Direitos Humanos, seja a negociação milionária envolvendo R.R. Soares, Valdemiro Santiago e a Rede Bandeirantes pelo horário nobre da programação de TV, isso apenas para citar o último mês, tudo o que envolve os evangélicos está ganhando repercussão desproporcional. Não que eu defenda qualquer um dos casos acima, pelo contrário, mas em um país onde não faltam negociações nebulosas, escândalos de corrupção e cargos públicos ocupados por pessoas longe do perfil ideal, porque os fatos envolvendo os evangélicos estão ganhando tanto destaque? Por que gera tantas piadas? Por que gera tanto repúdio?

Porque o Brasil esperava mais de nós.

E não adianta olhar para estes pastores e dizer: “esses caras não me representam”, sinto muito, representam sim. Mesmo eu, que não frequento igreja alguma há quase três anos, sou representado de certa forma pelos Felicianos, Malafaias e Macedos da vida, pois não sou eu quem decide isso, enquanto qualquer pessoa pensar em “evangélico” e lembrar-se de uma dessas figuras, eu sou representado querendo ou não.

A Igreja Evangélica está sendo perseguida, graças a Deus por isso. Está sendo perseguida porque ainda é um referencial, ainda pode fazer diferença, ainda pode olhar e acolher aqueles que ninguém mais olha, ainda pode estabelecer padrões éticos que fujam do “jeitinho brasileiro” e da “Lei de Gérson”.  Está sendo perseguida por uma sociedade carente.

A Igreja Evangélica tem uma grande chance de responder a esta perseguição, mas vai responder agora? E mais importante, vai responder como? Vai se fechar, usando todo o poder e influência que já tem para se “blindar”, ou vai descer do muro oferecendo a outra face?

Fiquem na paz.

@marlosferreira

As lições do Papa Francisco para a Igreja evangélica

Papa Francisco

Retirado de Anno Domini

Enquanto a comunidade internacional festeja a recente eleição do Papa Francisco ao episcopado de Roma, muitos dentre a comunidade evangélica tem respondido com a costumeira ironia, sarcasmo e desdém aos desdobramentos no Vaticano.

Contudo, creio que há várias lições importantes que nós evangélicos podemos aprender com a eleição do novo Papa, dentre as quais:

 

1) Devoção

A nomeação do cardeal Jorge María Bergoglio ao papado romano está coberta de significado histórico. Além de ser o primeiro papa oriundo de terras não europeias em quase mil e quatrocentos anos, este é o primeiro membro da ordem dos jesuítas a ocupar o cargo máximo da Santa Sé.

Historicamente, os jesuítas têm sido uma referência no campo da disciplina, da educação e do ímpeto missionário no Catolicismo Romano. Em resposta à Reforma Protestante no século dezesseis, os jesuítas impulsionaram o movimento da Contrarreforma, investindo pesadamente tanto na educação da Europa a fim de estancar a migração em massa para o campo Protestante, quanto na expansão do domínio da Igreja mediante a conversão e catequização de civilizações colonizadas pelas cortes leais à Roma.

Independente dos métodos e resultados dos esforços jesuítas, a devoção do Papa Francisco às virtudes da sua ordem em muito supera a dedicação evangélica à disciplina, à educação e ao ímpeto missionário característicos dos nossos pais Protestantes dos séculos passados. Isso não significa que não haja hoje no meio evangélico pastores e igrejas comprometidos com a prática de uma vida piedosa e disciplinada, com a instrução paciente e perseverante nas Escrituras Sagradas e com a obediência à Grande Comissão do nosso Senhor Jesus Cristo. Contudo, esses esforços têm se tornado, lamentavelmente, cada vez mais escassos e desconexos entre si no cenário evangélico atual. Mesmo aqueles que promovem o retorno às disciplinas espirituais, à educação na sã doutrina e ao cumprimento da missão do Evangelho têm grande dificuldade em demonstrar a interdependência desses elementos numa devoção rica, profunda e abrangente que renove a fé evangélica em nosso país.

2) Convicção moral

Apesar do avanço do relativismo ético e moral no Ocidente, o Papa Francisco não hesita em denunciar abertamente alguns dos pecados mais notórios dos nossos tempos – o aborto, o divórcio e o homossexualismo – que têm corrompido e desfeito o tecido básico da nossa sociedade.

É triste constatar quantos dentro dos círculos evangélicos têm titubeado e tropeçado nesse ponto. Temos nos tornado cada vez mais reféns da cultura do “politicamente correto” e deixado de nos posicionar claramente contra os pecados da nossa época perante a nossa sociedade. Falta-nos coragem e firmeza não só para denunciar tais pecados, mas também para instruir as nossas igrejas – do púlpito à sala de estar – no tocante a uma visão bíblica da santidade da vida, do casamento e da sexualidade para a glória de Deus.

3) Simplicidade

Dentre as muitas qualidades que tem chamado a atenção no Papa Francisco destaca-se a simplicidade da sua vida e do seu serviço. Embora ele ocupe o lugar de maior prestígio e honra dentro da hierarquia do Vaticano, em suas palavras e em suas posturas o Papa tem demonstrado uma simplicidade contrastante com a opulência e as honrarias costumeiras do seu ofício. Além do mais, seus discursos e seu serviço têm demonstrado uma preocupação pastoral em servir as camadas mais simples da sociedade com compaixão e misericórdia.

Nisto também o contraste entre o Papa Francisco e uma parcela significativa da população evangélica salta aos olhos. Enquanto o bispo de Roma promove um retorno a uma vida simples e um serviço pastoral ao próximo, muitos dentro do arraial evangélico promovem em suas pregações e em seu estilo de vida uma ganância e uma ambição características de uma cultura materialista, consumista e narcisista. Quão diferente seria a vida da Igreja evangélica – tanto da sua liderança quanto da sua membresia – se redescobríssemos as virtudes perdidas da simplicidade, da piedade com contentamento e do serviço humilde e abnegado ao próximo.

4) Simpatia

Além de todas as qualidades citadas, resplandece a simpatia e a humildade do Papa Francisco a cada novo sorriso diante das câmeras, cada aceno para as multidões e cada cumprimento de um fiel desejoso por conhecê-lo. Sua simpatia torna-se ainda mais atraente em conjunto com suas demais virtudes, mostrando-nos que devoção, erudição, firmeza de convicção e simplicidade não devem conflitar com uma postura humilde e simpática diante do povo.

Mais uma vez, o contraste entre o Papa Francisco e os nossos “papas” evangélicos é gritante. A arrogância, antipatia e beligerância das lideranças evangélicas diante dos seus opositores e críticos deveria ser motivo de vergonha para todos nós. Não propomos aqui uma mera aparência simpática diante de uma sociedade incrédula e perversa, mas uma postura humilde e autêntica diante das multidões para que ganhemos o direito de sermos ouvidos e proclamarmos o Evangelho puro e simples do nosso Senhor Jesus Cristo.

5) Senhorio

Apesar das muitas qualidades do Papa Francisco, é impossível deixar de registrar que este também é um líder falho como todos os demais. Tanto em suas crenças quanto no seu culto, o Papa defende dogmas e doutrinas que julgamos incompatíveis com as Escrituras Sagradas, tais como a infalibilidade papal, a veneração dos santos e, especialmente, a devoção a Maria.

Porém, nisto também há uma lição importante a ser aprendida. Por mais que os líderes da Igreja evangélica possam atrair e encantar as multidões tanto quanto o Papa Francisco tem encantado os fieis da Igreja Católica Romana, eles também são homens falhos cujos ensinamentos e procedimentos devem ser examinados sempre pela autoridade final das Sagradas Escrituras. Consequentemente, não são estes os homens que edificam e sustentam a Igreja. Somente Jesus Cristo, a pedra angular e Salvador do seu povo, merece tal honra como Senhor Soberano da Igreja.

[author]John McAlister é graduado em línguas antigas e pós-graduado em estudos teológicos pela Wheaton College (2001-2005). Serve como deão acadêmico do Instituto Bispo Roberto McAlister de Estudos Cristãos (IBRMEC) e é pastor titular da Catedral da Igreja Cristã Nova Vida no Recreio dos Bandeirantes (Rio de Janeiro, RJ). É casado com Raquel e é pai de João Felipe.[/author]