UnderDot entrevista: Marcos Almeida

IMG_20150627_202131790Retomando as entrevistas aqui no UnderDot (já falamos com gente bem legal, como Lorena Chaves, Os Oitavos, Tanlan e etc), agora chegou a vez de um dos caras mais relevantes da música Cristã nos últimos anos, o ex-vocalista do Palavrantiga, Marcos Almeida. Segue o papo:

 

1 – Como está sendo essa turnê “Eu Sarau”, está dentro de suas expectativas? [UND]
A turnê já passou por 11 cidades e superou todas as expectativas, em vários aspectos. Quando se fala de um espetáculo como este, algumas coisas se destacam, por exemplo: eu fiquei um ano longe dos palcos e que agora sigo a diante propondo uma nova experiência, temos um local de encontro não muito frequentado pelos brasileiros, que é o teatro, é uma apresentação solo, o custo de produção é alto… Bem, ninguém apostaria nesse formato, nessa conjuntura econômica que o Brasil vive, chamando um publico para o teatro, um público que me conheceu tocando em eventos promovidos na Igreja ou no circuito cultural evangélico, em sua maioria festivais e conferências. A resposta tem sido surpreendente! Estamos ocupando um lugar na cultura e compartilhando uma experiência inédita. Isso é sensacional!

 

2 – No show de Curitiba da turnê “Eu Sarau” contou com a participação de integrantes do {Sí}monami, em outras cidades também ocorrem participações especiais? Existe algum artista que você sonha em dividir o palco neste espetáculo? [UND]
Nessa turnê, apenas em Curitiba ganhei esse presente de cantar com a Liu e o Jean do Simonami. Nos outros segui a ideia de one man band. Tenho muitos sonhos, mas se eu pudesse dividir o palco hoje, chamaria a Baby do Brasil.

 

3 – O formato dos shows que você vem fazendo e o público que você está atraindo favorece o diálogo com a plateia e a inserção de elementos como a poesia. Você acha que é possível transferir um pouco disso para shows maiores? Seria viável? [UND]
Acredito que sim. Especialmente se for em grandes teatros. O desafio maior surge quando a apresentação acontece em lugares abertos. A parte técnica acaba sendo mais complicada. Mas, dá certo. O Sarau toma um ar de acampamento, de lual, é bem interessante.

 

4 – Música gospel, você acha que este rótulo mais ajuda ou atrapalha? E você se identifica como artista download (1)deste nicho? [UND]
O Gospel no Brasil é um vocabulário de comunicação,  é uma linguagem que muitas Igrejas vieram adotar, desde o final dos anos 1980, para tomar posição dentro de uma cultura mais ampla. Não me identifico com esse estilo de diálogo, embora não falte em mim o respeito e a admiração por tantos irmãos talentosos e piedosos que acolheram esse viés. Acredito que estamos vivendo um pós-movimento-gospel, onde os novos artistas que nascem na igreja ao invés de migrarem para o “secular” como resposta ao descontentamento com a estética gospel, estão inventando uma terceira via. E a medida que a Igreja for se descolando da Publicidade Gospel, isso vai ficando mais claro na cabeça das pessoas; uma coisa é a Igreja que conta mais de 2.000 anos de história, outra é o Gospel que não fez 30 anos. O que parte da Igreja brasileira tem feito agora é desconstruir o manual de comunicação de três décadas que está aí, inventando um novo lugar na cultura brasileira. Certamente isso nos levará para mais perto da rua, do português corrente, um encontro que me anima muito!

 

5 – Você já recebeu alguma crítica de artista bem identificado com o Gospel por não entender o movimento “pós-gospel” que você promove? [UND]
Tenho muitos amigos na música gospel e eles respeitam minha abordagem como eu respeito a deles. E qualquer movimento após, precisa conhecer de perto aquilo que preexiste. São duas gerações que nasceram na Igreja e que cultivam uma convivência respeitosa. Aprendo muito nesse convívio e eu jamais ouvi deles alguma crítica negativa.

 

6 – Como você vê a situação da música Cristã no Brasil do ponto de vista do mercado e da função de propagadora da fé Cristã? [UND]
Não sei falar desse ponto de vista. Invertendo o lugar, falando como um liturgista, acredito que não é bom usar pressupostos mercadológicos para pautar as decisões pastorais e eclesiásticas. Isso é um abuso de poder da esfera econômica sobre a esfera pística. Mercado e Publicidade estão, de certa forma, tentando colonizar a igreja e devemos reagir. 

7 – Mudando de assunto, os serviços de streaming (Spotity, Deezer, Rdio e etc) são a melhor resposta para a pirataria? [UND]
Quanto a prateleiras de música online, talvez essa seja a melhor que temos a disposição no momento. Mas o streaming ainda está muito aquém do que deve ser, especialmente em dois aspectos: na qualidade do áudio e na distribuição de royalties para intérpretes e compositores. Entre tantos outros aspectos, destaco esses. Se olharmos de forma mais abrangente, a melhor resposta para a pirataria ainda se chama show! O espetáculo de música, a experiência de sair de casa, ir ao teatro ou à alguma casa de shows, experimentar uma acústica perfeita, uma estrutura técnica de alta qualidade, uma atmosfera acolhedora e o seu artista no palco. Quem pode piratear isso? Daí, esperamos acabar o show e corremos pra banca de discos do artista, levamos sua discografia, as camisetas, os souvenires. Isso não tem como copiar. 

 

images 8 – Quando um integrante de uma banda (especialmente o vocalista e principal compositor) decide deixar esta banda em um momento, aparentemente, de alta na carreira, muitas vezes o público não entende muito bem e questiona bastante a decisão. Como foi no seu caso, e como você lidou com essa situação? [UND]
Não são muitos os que me perguntam por que decidi sair da banda para trilhar esse caminho desconhecido; essa talvez seja uma pergunta jornalística, porque dos que me perguntaram, todos trabalham para algum veículo de comunicação. Curioso isso, rs…  Mas gosto de pensar que esse foi o meio de me manter na tensão tão útil para a invenção, sair do conforto para encontrar o novo. Acredito que somos tentados a fazer do trabalho um monumento. Mas isso é ruim, por que fomos feitos para o movimento. Depois de sete anos com o Palavrantiga, três discos e centenas de shows, celebro o sucesso que tivemos juntos, vejo os frutos dessa obra e como que soprado pelo vento me vejo agora com uma nova disposição para me encontrar com o futuro.

 

9 – Temos sentido falta de um posicionamento dos integrantes remanescentes do Palavrantiga quanto à continuidade da banda. Você mantem contato com eles? Sabe como está o processo de escolha do novo vocalista? [UND]
Mantenho contato com eles, mas sobre os processos eu não sou consultado em nada. As informações que tenho são as mesmas que foram divulgadas na rede do grupo: o Palavrantiga não acabou e a banda está a procura de um novo vocalista.

 

10 – Você consegue enxergar influência sua e do Palavrantiga em bandas mais novas? Há uma sequência nesse movimento de música Cristã mais “alternativa”? [UND]
Veja: o disco “Sobre o Mesmo Chão”, que deu sequência a um trabalho iniciado em 2008, apresentou um testemunho de que é possível fazer rock nacional a partir dos afetos, sentimentos e experiências de um brasileiro que segue a Cristo e ama sua Igreja. Mas a banda não se filiou a nenhum movimento de música cristã alternativa, com intenções de renovar o cântico litúrgico. É uma abordagem que faz toda diferença; o Palavrantiga como banda brasileira de rock criou uma tensão que será sustentada se as novas bandas não abrirem mão de adquirir a sua cidadania artística dentro da nossa cultura. Essa é a contribuição do Palavrantiga na história. Ao meu ver, foi uma intromissão na linhagem do rock nacional, dando às guitarras distorcidas e a poesia em português uma dicção de esperança.

 Se há uma sequência nesse movimento, deixo que as novas bandas respondam.

 

11 – Quem do “underground” musical você apontaria como boa aposta, e que pouca gente conhece? [UND]
Assisti ao show da banda Nume (de Macapá) e gostei muito. Tem o Brasil Dub e o Gravidade Zion (de Vila Velha). Mas destaco a ressignificação que a Baby do Brasil está fazendo com o seu repertório. Ela retorna ao mainstream com o show Baby Sucessos que está lindo demais. Um atmosfera espiritual incrível. Ela está ampliando as fronteiras !

 

12 – Existe alguma música que você considere como a composição mais importante para sua carreira? [UND]
Acho que “Vem me socorrer”, talvez. Junto dela algumas outras. Mas, como você perguntou qual a canção mais importante, escolho essa hoje. Amanhã pode ser outra, rs.

13 – Já vimos colaborações suas com Tanlan e Lorena Chaves, existe algum projeto em andamento de trabalho seu em conjunto com outros artistas (Cristãos ou não)? [UND]
Sim! Acabei de gravar voz numa bela canção do Hélvio Sodré, chamada “Paraíso” e tenho recebido convites para colaborar como compositor e intérprete em outros trabalhos. Em breve vocês vão ficar sabendo.download

 

14 – Quando você vai lançar um disco solo “cheio”? [UND]
Outubro lanço “Eu Sarau – ao vivo : a banda de um homem só” e em Abril/2016 um CD só de inéditas.

 

15 – Fale-nos sobre seu trabalho literário, livros já lançados e se tem algo novo previsto. [UND]
Em 2014 lancei dois títulos. “Natal nos trópicos – um conto de verão”, com o single “Biquíni de Natal” em Dezembro. Meses antes, publiquei o “Retuíte – frases curtas de longa duração”. Agora estou trabalhando numa coletânea de textos escritos para o Blog Nossa Brasilidade. Ainda não tenho o título, mas estou preparando uma introdução, amarrando algumas ideias que estavam soltas e ajustando algumas passagens. Depois de três anos escrevendo intensamente, a partir das pesquisas da minha equipe (uma socióloga, um teólogo, um físico) e as preciosas contribuições dos leitores, estou relendo tudo com um olhar crítico, buscando tirar dali um texto mais claro, sem perder a autenticidade e os insights do trabalho. Estou empolgado com o resultado que já consegui. Será uma oportunidade maravilhosa; levar para os shows e palestras um material impresso, bem editado, de fácil leitura, com o melhor conteúdo do Blog

 

 16 – Há no Brasil um pedido massivo para que artistas se posicionem sobre assuntos polêmicos, e quando eles se posicionam, na maioria das vezes são criticados por sua posição e escutam que melhor é ficarem calados. Sendo artista e Cristão, você acha que é necessário sempre se posicionar? [UND]
Acho que sempre estamos nos posicionando e o silêncio me parece ser o mais adequado em muitas situações para edificar as pessoas.

 

17 – Em alguns textos do site Nossa Brasilidade você fala bastante da questão da fé na música e na cultura popular brasileira, sem que isso seja necessariamente propaganda religiosa. Você acha que naquilo que você trabalha (ou na sua música), a fé é mais uma questão de identidade do que de religião? [UND]
Sim! É isso: a fé não é um adereço, ela é começo. Ela nos ensina a ver a realidade do jeito que é. Quando colocamos a fé depois das nossas construções, como um enfeite bonitinho e sacralizado, vira essa coisa esquisita que é a religião, um método para escravizar pessoas , para tirar-lhes a visão, para obscurecer a vida.

Quando pensamos que a música, especialmente a canção, expressa os sentimentos e os pensamentos da gente, você entende porque os religiosos contemporâneos, por exemplo, passam mais tempo fazendo propaganda ao invés de fazer arte. Ficam preocupados em criar uma arte cristã, sendo que o cristão é o único que não precisa se preocupar com isso. Existe um rio que flui e que não para de jorrar daquele que tem a fé como fonte. Fizeram da fé uma represa, mas a fé é fonte.

 

18 – Agradecemos muito pela entrevista, e deixamos espaço aberto para considerações finais e um recado pros leitores do UnderDot.
Obrigado pela leitura. Tentei responder da forma mais clara e verdadeira possível. Espero vocês no show, em qualquer canto desse mundo. Incentivo vocês a tirar um tempo, nem que seja mensal, para ir ao teatro. Isso faz bem pra alma. Acho que Deus nos habilitou para a arte afim de nos ajudar a atravessar o deserto da vida, o sofrimento, a dor, o desencanto. A arte tecida na Esperança tem esse poder e faz isso não pela evasão da realidade, ela consegue dar a gente pelo menos duas coisas: um outro olhar para a vida e faz isso criando um oásis no meio do caos.

Underdot entrevista – Tanlan

tanlan_marlosNunca fui de ouvir rádio Gospel, então o padrão Gospel nunca foi parâmetro para mim, mas quando comecei a me sentir incomodado com a música Cristã que estava dominando as igrejas e seus grupos (ou Ministérios, se preferir) de Louvor, começou uma divisão na minha cabeça: como músico, a música que eu tocava não era mais a música que eu ouvia.

Fora do Brasil já existia um movimento de música Cristã alternativa, mas quando eu procurei referências nacionais tudo era muito vago. Mas dois nomes apareceram para mim lá pelos idos de 2008: Aeroilis e Tanlan.

Imediatamente procurei contato e mais informações, e adquiri os CDs que eles tinham disponíveis na ocasião. Alguns anos depois, com o aprimoramento das redes sociais e a facilidade de contatar as pessoas foi surgindo a oportunidade de trocar umas ideias com o pessoal da Tanlan.

Então no dia 04/12/2013, uma madrugada quente de Porto Alegre, após um dos ensaios da banda para o Rock no Vale, tive uma conversa agradabilíssima com Fábio Sampaio, Beto Reinke e Fernado Garros. Falamos sobre a história da Tanlan, música Cristã no Brasil, Festival Promessas entre outros assuntos. Entre as declarações bombásticas, a de que o Acre existe, e a Tanlan já esteve lá!

OBS.: A entrevista foi gravada na semana que aconteceu o Rock no Vale e como nós do Underdot acreditamos no projeto, resolvemos manter a parte que a banda fala sobre o festival, mesmo que isso deixe a entrevista datada, já que ela está indo ao ar exatamente 1 mês depois da ótima apresentação da banda no Rock no Vale.

 

Underdot Entrevista – Os Oitavos

Para começar, gostaríamos que vocês se apresentassem. Afinal, quem são Os Oitavos?

Os Oitavos são uma banda gaúcha de rock alternativo. Fazemos música por prazer e paixão. Deixamos transparecer o que acreditamos através da arte, da maneira mais transparente possível. Somos os oitavos porque não temos a necessidade de sermos os primeiros. Esse ritmo frenético, essa corrida desenfreada por um suposto sucesso nos irrita. Não queremos estar em primeiro lugar, onde a sociedade premia. É um conceito de que não somos melhores ou piores por estarmos em alguma posição. Somos quem somos e estamos gratos por isso.

Os Oitavos

Quais são as principais influências musicais da banda? E ideologicamente?

Musicalmente e esteticamente temos influência de Radiohead, Coldplay, Muse, U2, The Killers, As Tall As Lions, Jars of Clay, Keane, Death Cab For Cutie, David Bazan. Ideologicamente os próprios U2 e Jars of Clay, além de Rich Mullins, Glenn Kaiser e Switchfoot.

Todos os membros frequentam uma igreja evangélica?

Nós fazemos parte de uma comunidade cristã independente, “não institucionalizada”. Não acreditamos que o termo “evangélico” traduza realmente o que fazemos parte. Enxergamos a Igreja como algo que se é, e não necessariamente como um lugar para ir. Muitas igrejas hoje estão configuradas como organizações ou corporações, onde os números parecem importar mais do que as pessoas. A nossa opinião em relação às igrejas evangélicas está descrita nos livros: Alma Sobrevivente – Sou cristão apesar da igreja, de Philip Yancey; Uma Ortodoxia Generosa, de Brian McLaren; O Evangelho Maltrapilho, de Brennan Manning e Neuroses Eclesiásticas, de Karl Kepler.

Para vocês, o que seria uma banda “gospel”?

Uma banda que compõe e toca para o mercado evangélico. Pode ser louvor, entretenimento, ou qualquer estilo de música que tenha letras evangélicas.

Os Oitavos se encaixam nessa definição? Por quê?

Não, porque não fazemos músicas evangélicas para o público evangélico. Afinal de contas, o que torna uma música gospel ou secular? É o conteúdo da letra em si independente do compositor?  Dividir a arte entre sacro e secular é um equívoco. No livro “A arte não precisa de justificativa”, Rookmaaker diz que a arte deve ser a expressão do que há de mais profundo em nós, mas e se encontrarmos pouco? Assim nós nos preocupamos com o nosso caráter, com o que somos, porque é isso o que virá à tona nas músicas.

Tocamos rock. Nós fazemos músicas que qualquer pessoa pode se identificar. Nossas letras falam sobre a vida como um todo, sobre diversos temas, alguns deles relacionados ao cristianismo e outros não. A diferença é que os textos estão sob uma perspectiva e visão de mundo cristã. C.S Lewis dizia que não precisamos mais de artistas que falem sobre o cristianismo, precisamos de artistas que falem sobre qualquer tema da vida com a sua perspectiva cristã. Um time de futebol se torna um time gospel porque é formado por alguns Atletas de Cristo? E eles jogam um futebol evangélico? Vemos a arte da mesma forma.

Armas de Distração em Massa

 

Qual o tipo de lugar que vocês tocam com mais frequência?

Entre 2003 e 2013 tocamos em muitos bares, casas noturnas, festivais de música, eventos, festas e feiras (como Festa da Uva, Feira do Livro, etc.). Algumas vezes tocamos em festivais “gospel”, mas apenas quando havia uma intenção específica no evento, como numa ocasião em São Leopodo, onde o pastor iria pregar sobre o cristianismo na obra do U2, aí nós tocamos. Ou mais recentemente no Hope Music Festival, junto com bandas como Tanlan e Aeroilis, que estão identificados com uma visão semelhante a d’Os Oitavos. Mas pretendemos tocar mais em igrejas e eventos cristãos a partir de agora, porque o nosso trabalho tem se revelado relevante para quem já é cristão. Queremos ser sal e luz em qualquer local em que esteja escuro e sem sabor, mesmo que esse local seja a própria igreja.

 

Já vimos vários artistas dizendo que se a banda leva o carimbo de gospel, ela morre para o mercado “aberto”. Não consegue tocar em bares, casas noturnas ou festivais “seculares”. Vocês concordam com isso?

De certa forma sim. O público em geral não vai a um bar pra ouvir uma banda gospel. Se alguém quer ouvir uma banda gospel, vai na igreja ou num evento gospel. Então, os espaços para quem leva o carimbo gospel são muito restritos sim. Dificilmente algum artista desse nicho vai ser relevante para o mundo secular. O público geral, só de saber que determinada banda é gospel, já se fecha e nem quer ouvir. Assim como o público gospel tem resistência a bandas seculares e nem se permitem conhecer. Por enquanto, na história da realidade brasileira, os mercados sempre foram excludentes, mas ainda não sabemos o que está por vir.

 

O CD de vocês foi produzido por Ray-Z, que já produziu alguns grandes nomes do rock brasileiro (Nenhum de Nós) e também do rock gaúcho, (Acústico e Valvulados, Bidê ou Balde, Vera Loca, etc). Como foi todo o processo de gravação? Qual o aprendizado em trabalhar com alguém desse nível já no início da carreira?

O Ray-Z é um baita produtor. Não é à toa que produziu o novo disco do Nenhum de Nós, Acústicos e Valvulados, Bidê ou Balde, Cartolas, Júpiter Maçã, etc. Aprendemos muito sobre áudio durante a gravação. Usamos Gibson, Fender, Telecaster, SG, Rickenbacker, Semi-acústica, além de vários amplificadores só para as guitarras, então já dá pra imaginar. Foi muito trabalhoso, mas valeu a pena, desenvolvemos senso crítico e discernimento técnico. O Ray se tornou um amigo, um professor e o responsável pela qualidade técnica e profissionalismo do CD.

Bom dia, fracassadoO single ‘Bom Dia, Fracassado’ foi masterizado no lendário Abbey Road Studio. Qual a sensação disso, de saber que uma música de vocês já rolou por lá?

O álbum “Armas de Distração em Massa” foi masterizado nos Estados Unidos, então já tínhamos experimentado uma master internacional, que nivela o som do disco lá por cima. Mas o Abbey tem assinatura, e tínhamos a curiosidade de saber como a música iria soar. “Bom Dia, Fracassado” tem um clima mais vintage, então combinou muito com a master londrina.

 

Já houve alguma ocasião que alguém mudou de postura depois de saber a vocação Cristã da banda?

Até agora não, porque a primeira aparição pública nos vinculando ao mercado gospel perante o público secular foi a citação na Billboard no final do ano passado. Já tínhamos aparecido na Ultimato e em outros veículos cristãos, mas esses não são lidos por não-cristãos, então ainda não sabemos como vai ser a reação das pessoas, visto que saímos de novo na Billboard desse mês, numa matéria sobre os festivais gospel. Vamos ver…

Nos shows fora da igreja, vocês mencionam o Evangelho ou alguma passagem da Bíblia ou deixam que a música faça o trabalho de enviar a mensagem?

Um profissional deve conhecer o mercado em que trabalha. As pessoas não pagam um couvert artístico num bar para ouvir alguém falar de Jesus. Quando tocamos num bar, oferecemos entretenimento, e deixamos que as músicas falem por si. Mas preferimos tocar em teatro, onde o público vai exclusivamente para ouvir a obra. É arte pela arte. Mas da mesma maneira não ficamos falando do Evangelho, apenas trocamos uma ideia sobre a letra da música. Quando tocamos em igreja, aí sim falamos da Bíblia, porque o público está ali para ouvir isso também, além da música. Nos bares a gente se preocupa com a postura, domínio próprio, em transparecer o nosso caráter, fidelidade com as esposas, honestidade, tratar todos com respeito e humildade, etc.

Do ponto de vista profissional, como vocês lidam com a questão de cachês, dentro e fora das igrejas?

Não vivemos da música, mas já cobramos cachê há alguns anos. As pessoas pagam para nos ver tocar, então trabalhamos com profissionalismo. Os valores variam, depende da estrutura do bar, se tem bastante público ou não, eventos, igrejas, festivais, etc. Tentamos entender a necessidade do contratante e se está de acordo com as nossas expectativas.

Como vocês vêem a relação da Arte com o Cristianismo?

Por muito tempo, talvez até hoje em dia, de forma generalizada as pessoas esperam que o artista cristão produza somente “arte cristã” para o consumo de cristãos. Parece que a temática sempre tem de girar em torno de Deus, Jesus, Bíblia e aí por diante. Não cremos que esse seja o papel do artista cristão. Não fomos chamados para nos fecharmos num gueto e dialogar somente com nossos pares. O jornalista inglês Steve Turner, em “Cristianismo Criativo” comenta o seguinte: “Por que não conseguimos citar nomes de cineastas, dramaturgos e dançarinos renomados que são cristãos? Por que os artistas cristãos só têm relevância dentro do ambiente gospel, para o público cristão?” Aliás, esse livro ajudou a moldar a vocação d’Os Oitavos. Além de “A Arte e a Bíblia”, de Francis A. Schaeffer e dos livros do holandês H.R Rookmaaker. Há uma citação do Rookmaaker que explica bem a nossa ideia: “A arte tem seu próprio significado como criação de Deus – ela não precisa de justificativa. Sua justificativa é ser uma possibilidade dada por Deus. Os artistas não necessitam de justificativa assim como os açougueiros, os jardineiros, os motoristas de táxi, os policiais ou as enfermeiras não precisam justificar com argumentos sagazes o porquê de estarem fazendo o seu trabalho. E eles certamente não o fazem como forma de conseguir uma oportunidade para pregar ou testemunhar. Encanadores que fazem grandes discursos evangelísticos, mas deixam a torneira vazando, não estão cumprindo o seu papel. São maus encanadores. Fica claro que eles não amam ao próximo”.

Já citamos C.S. Lewis na outra resposta, e concordamos que o artista cristão deve criar arte verdadeira, sobre qualquer assunto, com sua latente cristã. Se o momento é de desamparo, desesperança, pavor, essas sensações tem de transparecer na obra de arte, assim como apareceriam nas preces do artista. Na Bíblia há muitos Salmos com essa temática, tem um livro inteiro chamado Lamentações. A arte precisa ser verdadeira, mas muitas vezes, a sinceridade é mal vista no meio evangélico e logo começam boatos de que fulano perdeu a fé, ciclano está em pecado, etc. Talvez isso tenha prejudicado a legitimidade da arte cristã.

Quais os futuros projetos da banda?

Neste ano vamos lançar o clipe da música Frases Feitas e estamos tramando a gravação de outros dois. Começaremos a tocar mais no meio gospel e ver como o público reage ao nosso trabalho. Em paralelo a isso estamos compondo as músicas do nosso segundo álbum.

O que vocês acham da nova safra de bandas Cristãs brasileira, como Tanlan, Palavrantiga, Crombie entre outros, existem alguma identificação, ou até mesmo interação entre vocês?

Claro! Esse movimento está acontecendo em todos os cantos do Brasil. O número de bandas a artistas com essa visão da arte cristã está aumentando. Há similaridades sonoras sim, mas nos identificamos mais mesmo é no sentido missionário e visionário. Já tocamos algumas vezes com Tanlan e Aeroilis, e é sempre excelente. Esperamos que a interação e o trabalho coletivo aumente cada vez mais.

 

 

Quem quiser conhecer mais a banda, o site oficial da banda é OsOitavos.com e na página no SoundCloud é http://www.soundcloud.com/osoitavos.

Underdot Entrevista – Lorena Chaves

lorena chaves 2Você já ouviu falar de Lorena Chaves? Se és um acompanhante assíduo do programa Ídolos ou um fã do Palavrantiga, com certeza já! A mineira acaba de lançar seu primeiro disco – por enquanto, só em formato digital. O disco físico sai em Abril – pela Som Livre. O disco homônimo traz canções já conhecidas por quem acompanha o trabalho de Lorena pela internet, como a faixa que abre o disco Portão Azul.

Com uma pegada que vai do mpb ao rock e com a ideologia trazida pelas bandas que fazem parte dessa nova música cristã brasileira, o primeiro disco de Lorena Chaves traz grandes influências dos Los Hermanos em sua sonoridade e grandes sacadas em suas letras, compostas pela propria Lorena. Isso sem falar da maneira peculiar que ela interpreta suas canções.

Mas no momento não estamos aqui pra fazer uma resenha sobre o álbum – em breve aqui no Underdot – mas sim pra bater um papo com essa moça muito simpática.

 

 

Pra início de conversa, fale pra gente: Quem é Lorena Chaves?
Quem é Lorena Chaves? Olha engraçado, convivo muito comigo mesma e às vezes me surpreendo em algumas decisões. Essa pergunta, minha mãe sabe responder muito bem! Vou colar a resposta com ela aqui (risos). Bom, fazendo um breve resumo, nasci e cresci em Belo Horizonte no ano de 1986. Vivo com meus pais, Dr. Adilson e Cida, e uma irmã linda, que é um ano e quatro meses mais nova que eu, a Lana.

Estava cursando o quinto período de design de produto em 2008, quando uma amiga me convidou para participar de um programa de TV chamado Ídolos. Fiz a inscrição e fui pra São Paulo juntamente com minha família. As seleções duraram vários meses e acabei ficando entre os últimos seis finalistas. Desde então, soube que queria fazer da música, a minha vida. Tive uma música em uma novela da Globo chamada “Escrito nas Estrelas” em 2009. Mas eu não era nada disciplinada. Não cuidava da minha voz, vivia em noitadas, usava drogas e sempre pensei que ser músico me deixaria livre pra fazer o que bem entendesse.

No final de 2010 fiz meu último show com releituras que costumava tocar e minha vida deu uma reviravolta total quando Deus falou comigo claramente. Foi daí que percebi que minha vida era um caos e que eu precisava urgentemente de uma mudança. Parei de tocar um tempo para entender o que estava acontecendo comigo e comecei a ler muito e vivenciar algo que nunca havia imaginado que iria experimentar. Era como se eu estivesse enxergando a vida com uma outra óptica. Então as músicas foram surgindo naturalmente ao longo dessa nova caminhada. E hoje, acabo de lançar meu álbum, que já está disponível no Itunes e no primeiro dia chegou a ficar em quinto lugar no ranking dos mais vendidos. Estou bem feliz com o resultado!

 

idolos_top10_f_001Você falou sobre a participação no Ídolos, o pontapé inicial pra sua carreira. Até que ponto isso foi bom pra você e como tirar proveito disso hoje?

Com certeza eu colho frutos dessa experiência até hoje. Recebo mensagens de pessoas que acompanham minha carreira desde aquela época e aprendi muita coisa como profissional. Conheci pessoas maravilhosas, desde os diretores, produtores, maquiadores, participantes até a tia do lanche! Na verdade, foi depois de participar do programa que percebi o que queria fazer na vida.

 

Como começou sua ligação com a música e como você se define musicalmente?

Nasci com essa ligação! Eu acredito que a gente já nasce com um dom. Lembro que mal sabia falar e já cantarolava coisas com uma língua própria! Meus pais sempre me incentivaram e desde pequena tive contato com instrumentos musicais, apesar de nunca ter, de fato, estudado algum. Fui amadurecendo nas letras, nas melodias, assim como na vida e acho que o caminho é bem esse: vivendo e aprendendo, né? Mas me definir musicalmente é uma coisa que acho difícil! Eu sou bastante eclética e sempre quis colocar um pouco de tudo em minhas canções. Mas pegando como referência este novo trabalho, prefiro dizer que é um mpb com uma pitada de folk, pop e rock!

“E eu creio que fazendo essa divisão [gospel/secular] a tendência seria limitar a arte, o público, o artista e até mesmo tentar limitar o próprio Deus.”

A expressão Gospel cabe no que você faz?

Eu não enxergo essa divisão de gospel e secular na minha música. Na verdade acho que isso até atinge e restringe o artista e sua arte. Existem tantos artistas que estão na MPB, como Daniela Mercury, Carlinhos Brown, Vanessa da Mata, Zeca pagodinho, Roberta Sá, Vinicius de Moraes e muitos outros, que expõem claramente sua fé em suas canções e nem por isso estão na prateleira de “Musica Religiosa”. O meu desejo é apenas fazer minha música chegar a todos que querem ouvir uma boa música. Independente de classe, faixa etária e crença. Afinal, a interpretação fica por conta de quem ouve. E eu creio que fazendo essa divisão a tendência seria limitar a arte, o público, o artista e até mesmo tentar limitar o próprio Deus. Hoje, como cristã, todas as coisas que faço vão ter influências claras de Cristo. Minha forma de tratar o porteiro do prédio, de gastar meu dinheiro, de vestir uma roupa, de ajudar um amigo, de me relacionar com minha família e obviamente, de compor. E a minha intenção é compartilhar os meus pensamentos, esperança e vivências, dúvidas, críticas, em forma de música, de melodia e de atitudes.

 

Lorena Chaves 1 capaE essa relação entre arte e cristianismo?
Arte e cristianismo tem tudo a ver. A bíblia é repleta de arte do começo ao fim. O criador da arte é o próprio Deus, o maior artista de todos. A arte serve para ensinar, entreter, acalmar, relaxar, expressar, instigar e muitas outras coisas. Deus bem sabe a importância que a arte tem pras nossas vidas, afinal, Ele não criaria algo sem propósito.

 

Quais suas influências como artista?
Na música? Eu ouço de tudo! Gosto de coisas bem antigas e também das coisas que estão surgindo. Acho legal um músico pesquisar outras músicas, outros ritmos, outros temas, saber o que as pessoas têm ouvido e o porquê de estarem ouvindo aquilo. Esse disco especificamente foi uma mistura de um pouco do que gosto. Já tenho na cabeça até o que quero para o próximo CD! Minha vontade é de sempre trazer algo novo pras pessoas e pra mim também. Dizem que por causa dos metais, a influência dos Los Hermanos e Beirut está bem presente neste álbum. Mas eu ouvi muita coisa durante as gravações, de Caetano, Novos baianos, MahMundi, Crombie, Palavrantiga a Radiohead, Beatles, Jon Foreman e Black keys!

 

 

Quais suas influências hoje como cristão? O que anda lendo?
Acabei de ler um livro do Timothy Keller que se chama “Deuses Falsos” e indico pra todo mundo. Eu termino um e começo outro, às vezes leio dois simultaneamente. Não sou muito organizada nas minhas leituras. Mas C.S Lewis é um dos meus escritores preferidos. Gosto muito do jeito dele de escrever.

 

Pode-se dizer que você foi apadrinhada pelo Marcos Almeida e a galera do Palavrantiga. Como começou essa parceria que deu fruto a música Cartão Postal?
Temos uma amizade muito legal e vivemos trocando experiências. Uma vez estava eu e Marcela Vale (Mahmundi) na casa do Marcos e resolvemos escrever uma música que falasse de carta e de como o conteúdo de uma carta transforma o semblante e a vida das pessoas. A partir daí surgiu a canção ‘’Cartão Postal.’’ Eu nunca tinha escrito uma música em parceria e achei interessantíssimo! Juntar ideias, pensamentos, formas de escrever e melodiar de 3 pessoas diferentes, foi uma experiência agradabilíssima. Com certeza, isso eu quero repetir.

Tem alguém que você gostaria de fazer uma parceria no futuro?
Ixi…Muitas! Mas vou citar um homem e uma mulher: Ney Matogrosso e Baby do Brasil.
Sobre as músicas do disco, tem alguma com uma história interessante a se contar?
A segunda faixa do disco “À procura de um par” nasceu em um dia quando uma amiga não estava muito legal e precisando desabafar. Liguei pra ela, mas como ela tem dificuldade de se expressar verbalmente, resolveu me escrever um e-mail. Me mandou um texto muito interessante e bem escrito. Dava pra entrar naquela história. Parecia que conseguia sentir as emoções dela enquanto lia aquelas palavras. A música foi uma espécie de resposta ao e-mail e uma forma de dizer a ela que a esperança era algo bem real e único.

 

Pra quem quiser levar a Lorena Chaves pra cantar na sua cidade… o que fazer?
Por enquanto o e-mail é contatolorenachaves@gmail.com. Mas em breve o site estará no ar com um novo endereço.

 

O Underdot agradece sua disponibilidade e abre espaço pra suas últimas considerações!
Obrigada pelo convite! Poder compartilhar um pouco dessa nova etapa é sempre muito bom. E pra quem não adquiriu o cd, corre que tá no ITUNES. O cd físico sai em Abril, se Deus quiser! É isso aê! Beijão pra vocês!

 

 

Então é isso galera. Agora que você já conhece a Lorena Chaves, pode procurar mais sobre ela no youtube. Segui-la no twitter (@LoChaves) também pode, fica mais facil de você saber das novidades sobre a carreira dela.

Fiquem na paz.

@phields