Editorial UnderDot – sobre ódio, intolerância e democracia.

Este texto está dividido em duas partes, e é significativo que um sulista e um nordestino sejam os responsáveis por ele.

Por Marlos Ferreira

A tragédia nas redes sociais foi se anunciando, a cada pesquisa, a cada debate, a cada piada de mau gosto, a cada mentira compartilhada, a cada generalização do tipo “só analfabeto e corrupto vota PT” x “só coxinha e egoísta vota PSDB”, o monstro foi criando forma, e o monstro saiu de seu esconderijo (se é que estava escondido) com violência entre ontem e hoje.

Vale ressaltar que o “deixem a Dilma governar só o Nordeste” é tão preconceituoso quanto “eleitor do Aécio deveria sair do Brasil”. Exilar quem pensa diferente é algo recente em nossa história, aconteceu logo ali na Ditadura Militar, lembram? Enxergar em si toda a virtude e no próximo todos os defeitos nos afasta da nossa realidade, a de que somos todos humanos imperfeitos.

Feita a ressalva, não posso ser ingênuo a ponto de comparar provocações e colocações infelizes, com os crimes de preconceito, injúria e xenofobia que tomaram conta das redes sociais após o anúncio da reeleição de Dilma Roussef, definitivamente são coisas bem separadas, e foi assustador. Eu já havia colocado alguns filtros em meu perfil, já estava evitando alguns radicais de ambos os lados, evitei entrar em polêmicas, não abri meu voto, mas ainda assim não estava preparado para o que aconteceu, principalmente para os ataques mais baixos vindos da parte da população que se diz mais culta.

Quando foi que esquecemos (se é que um dia soubemos) que, em última análise, o voto do cidadão que votou “com a barriga” tem exatamente o mesmo peso e a mesma validade do voto do cidadão que fez uma avaliação aprofundada, levando em consideração aspectos históricos, políticos e econômicos? Ambos valem apenas e tão somente um voto, correspondem a uma opinião, um desejo, uma vontade e uma esperança. Que ambos os lados podem ter razão a depender de seu ponto de vista e contexto sociocultural, que tanto o cidadão que ficou com medo de perder o Bolsa Família quando o cidadão revoltado pela quantidade de impostos que paga e a baixa qualidade dos serviços que recebe em troca, tem a mesma representatividade e que justamente esta é a beleza da Democracia?   Se você não está pronto para conviver com isso, não é democracia o que você deseja.

Nesses tempos de vida virtual, onde a impressão que você passa em seu perfil vale mais do que o que você realmente vive ou é, fico aliviado em não ter tomado parte das manifestações no ano passado, vendo agora parece apenas um evento a mais para tirarmos fotos e compartilharmos frases feitas e pensamentos rasos nas redes sociais.  Elas realmente não significaram nada para nós como Nação. Como Povo.

Como brasileiro nascido e criado no Sul do Brasil, eu peço desculpas. Como homem branco, heterossexual, cristão e formado, peço desculpas. Como cidadão viajado, que conhece um pouco desse Brasil a ponto de enxergar mais semelhanças do que diferenças, e enxergar suas belezas e mazelas em todos os rincões e metrópoles, humildemente peço desculpas.

Im-Sorry

 

Passo a bola para meu irmão Nordestino, Marcus Barreto.

 

Esse post, escrito a quatro mãos, não tem como objetivo uma espécie de retratação ou exaltação. Simplesmente é uma tentativa “nua e crua” de entender como as redes sociais viraram um campo de batalha onde muitos, supostamente protegidos pelo anonimato, destilam ódio e opiniões sem o mínimo embasamento. E tudo isso usando como pressuposto a democracia e a liberdade de expressão.

De antemão, digo que sou apartidário, não creio em ideologias e nem estava defendo nem Aécio e nem Dilma.

Tinha a certeza absoluta, fosse qual fosse o resultado que ainda no domingo, logo após o resultado para eleição presidencial, os nordestinos seriam “agraciados”, mais uma vez, com posts carregados de ignorância, e ignorância tanto no sentido de desconhecimento como no sentido de estupidez mesmo.

Assim, fui “brindado” com a sugestão do Romeu Tuma Jr., em dividir o país, deixando a parte do Norte com Dilma, claro (leia aqui). Em outro post, vi uma mulher escrever algo como: “Se aparecer algum nordestino em MG, toco fogo”. Ela só esqueceu um pequeno “detalhe”, Aécio perdeu em Minas, mas esse detalhe, em nome da demonização do Nordeste, pode ser omitido.

Poderia ficar me lamentando ou incitando ainda mais esse “BA x VI” (ou FLA x FLU, se preferirem) estúpido. Ou poderia ir pelo caminho do conflito de classes, ou citar Boaventura de Sousa Santos e destrinchar a questão do campo hegemônico. Mas acho que a coisa é mais profunda e ao mesmo tempo básica. O que falta é algo chamado respeito, além da falsa noção de democracia. E ao contrário do senso comum, creio que futebol, religião e política se discutem, sim! Basta que cada um respeite a opinião contrária e todos poderão conviver tranquilamente.

Porém, respeito é o que menos existe. Além de que, dificilmente é possível discutir de maneira salutar.  Observem que em qualquer discussão, quando um dos lados não tem mais argumentos, a coisa vira ataque pessoal. Daí, inúmeros casos de amizades desfeitas por causa da eleição.

E na esteira do DES-respeito, vem a noção errada de democracia. Em lugar nenhum do mundo todos pensam da mesma maneira. Logo, é necessário respeitar o desejo da maioria. Mas como constatado, o que está valendo é impor um ponto de vista, ou no caso, um candidato.

Li e ouvi muita gente criticando o fato de Jair Bolssonaro e Marco Feliciano terem sido eleitos. Mas isso é democracia! Eles podem não representar o que penso, mas com certeza representam muita gente.

No final das contas, toda essa celeuma só reforça estereótipos. Seja do nordestino visto como “burro” e/ou “miserável”. Seja do sulista como “preconceituoso” e “arrogante”.

 

Infelizmente, como ironicamente pontuou Marco Antônio Araújo, “democracia boa é aquela em que nosso ponto de vista prevalece. O resto é coisa de gente burra e alienada”. E essa é a noção de democracia que infesta as redes sociais.

 

Fiquem na Paz.

ONG Rio de Paz lança campanha ‘É justo?’ para cobrar serviços públicos

riodepaz2Com o objetivo de chamar a atenção dos governantes, a ONG Rio de Paz está lançando hoje nas redes sociais a campanha “É Justo?”, na qual vai divulgar fotos de locais marcados pela desigualdade social e por deficiências nos serviços públicos nas 12 cidades-sede da Copa do Mundo de 2014. Esta foto aí de cima é do lixo acumulado na Favela do Jacarezinho, comunidade pobre a menos de três quilômetros do Maracanã, onde será realizada a final da Copa. As imagens terão em comum bolas com cruz vermelha pintada.

“Nosso pedido é que os governos façam investimentos também em educação, saúde e segurança. Queremos que haja responsabilidade social com Padrão Fifa por parte dos governantes e da Fifa” diz o líder do Rio de Paz, Antônio Carlos Costa.

A ONG — que luta pela redução de homicídios — abraçou também causas sociais e observa que o protesto não tem objetivo de boicotar ou ser simplesmente contra a Copa do Mundo. “Só acreditamos que a Copa seria melhor se não tivesse sido feita com dinheiro público”, diz Costa.

Fonte: ancelmo.com

Até tu ADIDAS?

Deputado Estadual de SP opina sobre o marketing de gosto duvidoso da gigante ADIDAS.

adidasPor Carlos Bezerra Jr, em postagem no facebook.

Toda empresa esportiva sabe da relação entre os grandes eventos esportivos mundiais e o aumento do tráfico de pessoas, principalmente para fins sexuais.

Apesar das campanhas educativas, a Copa da África do Sul teve a triste marca de 100 mil pessoas traficadas. Na Alemanha foram 30 mil. O Ministério Público já registra desde 2012 sites de venda de meninas aqui no Brasil voltados à Copa do Mundo.

Não foi só a imagem preconceituosa da mulher brasileira que ofendeu o público, foi também a tentativa da empresa de fugir da responsabilidade que tem: investir para reduzir o tráfico de pessoas nos eventos que patrocina.

Se, nesse contexto, a empresa estimula o turismo sexual, é uma prática inaceitável. Devido à revolta da sociedade o produto foi retirado do mercado.

O que seria realmente bom é ver a Adidas apoiar verdadeiramente o esporte e o Brasil, investindo pesado numa campanha contra o tráfico de pessoas na Copa de 2014.

http://www1.folha.uol.com.br/esporte/folhanacopa/2014/02/1417599-adidas-diz-que-vai-retirar-do-mercado-camisetas-do-brasil-com-apelo-sexual.shtml

Minha Breve Decepção com C. S. Lewis #3

cslewis-cristianismo-puro-e-simplesFinalmente volto ao Underdot para me reconciliar com C. S. Lewis. Nos dois textos anteriores expus o incômodo que senti ao reler Cristianismo Puro e Simples. Me deparei com um Lewis que não havia percebido na leitura de anos atrás e, confesso, me decepcionei um pouco por conhecer um pensamento um tanto quanto arrogante e até meio preconceituoso em um dos meus escritores prediletos. Ainda que possamos (e devemos) considerar o autor em seu contexto, é difícil não imaginar que ele poderia ter abordado certos temas de outra maneira.

O que me fez reconciliar com Lewis, além desse exercício de tentar levar em conta o contexto em que ele se encontrava, foi notar (ou confirmar) que, por outro lado, ele estava muito à frente de seu tempo em alguns aspectos. E que sua percepção sobre o Cristianismo, ao contrário de ser mirabolante e cheia de coisas incompreensíveis, de fato se voltou para o que é (aparentemente) básico: amar a Deus e ao próximo e procurar viver de acordo com o que esse amor deveria trazer como resultado, ou que ações deveriam surgir a partir desse amor.

Sobre tudo isso, há uma passagem na introdução – na apresentação do livro – que, apesar de um pouco longa, acho que vale a pena compartilhar:

“Este livro, portanto, não é feito de especulações filosóficas acadêmicas. É, isto sim, um trabalho de literatura oral dirigido a um povo em guerra. Quão insólito deveria ser ligar o rádio – que a toda hora dava notícias de mortes e de uma destruição indescritível – e ouvir um homem falar, de forma inteligente, bem-humorada e profunda, sobre o comportamento digno e humano, sobre a conduta leal e sobre a importância da distinção entre o certo e o errado. Chamado pela BBC para explicar aos seus conterrâneos no que os cristãos acreditavam, C. S. Lewis lançou-se à tarefa como se ela fosse a coisa mais fácil do mundo, mas também a mais importante.

Mal podemos imaginar o efeito que as metáforas utilizadas no livro tiveram sobre os ouvintes da época. A imagem do mundo como um território ocupado pelo inimigo, invadido por forças malignas que destroem tudo o que é bom, ainda hoje desperta fortes associações. Nossos conceitos de modernidade e de progresso, bem como todos os avanços tecnológicos, não bastaram para dar fins às guerras. O fato de termos declarado obsoleta a noção de pecado não diminui o sofrimento humano. E as respostas fáceis – colocar a culpa na tecnologia ou, porque não, nas religiões do mundo – não resolveram o problema. O problema, C. S. Lewis insistia, somos nós. A geração ímpia e perversa da qual falavam milhares de anos atrás os salmistas e os profetas é também a nossa, sempre que nos submetemos a males sistêmicos e individuais como se não tivéssemos outra alternativa.” (p. XXIV e XXV)

Embora a intenção de Lewis tenha sido apresentar o Cristianismo de forma didática aos não cristãos, acredito que atualmente esse seja um livro muito mais interessante (e por que não dizer útil) aos cristãos de hoje. Nesse tempo em que a raiz da fé cristã parece ter se perdido, uma conversa franca e direta como essa pode ajudar a acordar alguns que ainda dormem presos a regras de homens que se dizem enviados por Deus.

Leia a parte #1 clicando aqui.

Leia a parte #2 clicando aqui.

Resenhando Velharia – Parte II – “One Hot Minute” do Red Hot Chili Peppers: O disco certo na hora errada.

Continuando a série, hoje trago a resenha de mais um disco injustiçado. Sinceramente, não entendo como esse disco pode ser desprezado ou mesmo ser tratado como um fracasso comercial. Claro que comparado ao “Blood Sugar Sex Magik” ele vendeu menos, mas isso não implica, a meu ver, em fracasso.

O disco foi produzido na “entressafra” do John Frusciante na banda. Aliás, parece-me que ocupar de forma permanente o posto de guitarrista da banda é algo complicado. O fato é que durante uma tour em 1992, Frusciante pediu o boné, caiu fora e foi usar heroína até perder os dentes, literalmente. Arranjaram um guitarrista chamado Arik Marshall para tapar o buraco com a saída de John e terminar a turnê.

Em 1993, escolheram Dave Navarro. Na época, o Jane’s Addiction tinha acabado e talvez devido às inúmeras contribuições entre as bandas, a escolha tenha recaído sobre um cara que eles conheciam. Gosto do estilo do Dave Navarro. Especificamente nesse registro, a banda ficou um pouco mais pesada e o Dave não tentou “emular” o Frusciante em momento algum. Como diriam alguns participantes de reality shows, foi “ele mesmo”.

Falando propriamente sobre o disco, acho ótimo! Mas, talvez, tenha sido o disco certo na época errada. Além da questão das mudanças de guitarristas, Anthony Kiedis teve uma recaída no uso de drogas. E todo esse clima está refletido no disco. As letras que davam o clima de festa, praia, Califórnia, deram lugar à tristeza, vícios e sentimentos confusos.

O disco abre com “Warped”. Uma música em que é possível notar logo de cara a mudança sonora da banda, com uma guitarra pesada. Ela começa com Anthony Kiedis declarando seu vício (My tendency / For dependency/ Is offending me / It’s upending me / I’m pretending see / To be strong and free / From my dependency / It’s warping me).

Em seguida, vem “Aeroplane” que dá um clima mais ameno, ainda que a letra se refira a prazer e dor. Com direito até a um coral infantil no final da música.

“Deep Kick” tem um clima de nostalgia. A letra fala, por exemplo, do passado (I started when we were little kids / Free spirits) e da época de colégio (We went to Fairfax High School / Jumped off buildings into their pools / We’d sit down and grease at canters). É como se eles sentissem falta do período com menos responsabilidade.

Já em “My Friends”, a letra fala sobre solidão e que por algum motivo esses amigos não se reconhecem mais (I love all of You / Hurt by the cold / So hard and lonely too / When You don’t know yourself). O vídeo da música, inclusive, dá esse tom meio depressivo. Uma penumbra, velas, cada integrante da banda tocando “no seu canto”…

“Coffee Shop” é a música que mais lembra o “antigo” Red Hot Chili Peppers. Além da levada suíngada, com percussão e tudo o mais, a letra é naquele esquema tradicional do RHCP: rimas sobre diversão.

“Pea” é cantada por Flea. Aliás, apenas ele e seu baixo. Música medonha contra caipiras homofóbicos. Para encher linguiça mesmo.

“One Big Mob” é uma música diferente. Começa com guitarras, slaps e percussão, depois mergulha numa coisa meio “viagem” e depois volta a acelerar. A letra? Sinceramente não entendi a mensagem.

“Walkabout” mostra a banda em um caminho diferente, musicalmente falando. Soa como um samba rock!  Tem até cuíca! Seria influência das escolas de samba que eles viram em 1993, inclusive chamando a bateria de uma delas ao palco no Hollywood Rock? Apesar do ritmo, a letra trata de melancolia ou a tentativa de se livrar dela (I’ve been sitting far too long / At home – I’ve got to get along / A walk could cure most all my blues).

“Tearjerker” é uma homenagem ao Kurt Cobain. Eu não sabia que Kiedis e Flea eram amigos do Kurt. Mas para quem assistiu ao “Live and Loud” originalmente, sabe que intercalando os intervalos, quem “apresentou” o programa foram justamente Anthony Kiedis e Flea vestidos e maquiados como idosas. Enfim, a letra tem várias referências ao Kurt Cobain. Desde a notícia da sua morte (My mouth fell open / Hoping that the truth / Would not be true / Refuse the news), como também quando se conheceram (First time I saw you / You were sitting / Backstage in a dress / A perfect mess).

Em “One Hot Minute”, faixa que dá título ao disco, a letra fala sobre desfrutar aquele momento com alguém, no sentido de curtir (Sitting in the fire / Get along and have some fun / Floating to be higher / Maybe I’m your special one).

“Falling Into Grace” é sobre estar apaixonado por alguém (You can smell the purple light / Comin’ home her heart / Get lost and wet / I treat you like a teacher / ‘Cause that’s what you are / I wanna be your pet).

“Shallow Be Thy Game” é uma faixa que aparenta ser um discurso contra os religiosos (Missionary madness / Sweep up culture with a broom / Trashing ancient ways) ou contra aqueles que pregam mais o inferno do que o céu (I was not created / In the likeness of a fraud / Your hell is something scary / I prefer a loving God).

E fechando o disco, “Transcending”, que fala sobre escolhas (Choices are, for one and all / All we are is, leaves that fall).

Eu acho esse disco único. Intencionalmente ou não, a presença do Dave Navarro trouxe mais peso e a veia alternativa do Jane’s Addiction para a banda. Além disso, gosto de ouvir músicas que expressem sentimentos (bons ou ruins) de forma genuína. E quando digo que é um disco certo na hora errada, é porque para mim só assim justifica a injustiça para com esse registro. Talvez os fãs esperassem uma continuação do “Blood Sugar…..” ou uma “Give It Away” parte II, vai saber . Foi diferente do que o RHCP fez até então, mas essa diferença não significa que é ruim. Vale apena escutar!

#Pipocando – Gravidade

GravityAlfonso Cuarón é um diretor que prima pela qualidade sobre a quantidade. Em quase 20 anos de carreira cinematográfica, ele tem apenas 6 longas em sua filmografia (e um segmento em “Paris, Eu Te Amo”), onde “E Sua Mãe Também”, “Harry Potter E O Prisioneiro de Azkaban” e, principalmente, o seu último filme, “Filhos da Esperança”, se destacam. Sete anos depois de “Filhos”, o diretor mexicano reaparece com a que pode ser a obra prima de sua carreira.

“Gravity”, no original, conta a história de Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) e Matt Kowalsky (George Clooney), dois astronautas que, ao fazerem uma operação de rotina fora da nave, são surpreendidos por uma chuva de lixo espacial que destrói a nave e os deixa à deriva no espaço ligados apenas um ao outro por um cabo. Correndo contra o tempo, os dois terão que fazer de tudo para conseguir chegar à outra estação espacial e conseguir se salvar.

Eu nunca estive e, provavelmente, nunca irei ao Espaço, mas o que experimentei durante os 90 minutos de projeção de “Gravidade” deve ser a coisa mais próxima da experiência que é estar a centenas de quilômetros acima da Terra. O filme é de um primor técnico impressionante. A edição e mixagem de som, combinados com a fotografia de Emmanuel Lubezksi (“Árvore da Vida”) imergem o espectador nesse “mundo” escuro e sem som. O design de produção recria o interior das naves e estações espaciais com detalhes impressionantes.

Gravity - Bullock and Clooney (cut)Esses elementos ainda são somados à câmera de Cuarón, que, num lugar onde é impossível a vida, parece viva ao passear pelo espaço, como numa bela dança, enquanto nos mostra a imensidão de um lugar tão hostil.
Em “Filhos da Esperança”, já pudemos ver o apreço que o diretor tem por longos takes e planos-sequência, com dois planos de tirar o fôlego — um passado todo dentro de um carro e o outro seguindo o protagonista interpretado por Clive Owen em meio a uma revolta de rebeldes. Em seu novo trabalho, Cuarón mais uma vez cria com maestria planos que duram minutos, sejam apresentando os personagens, no início do filme, ou os seguindo em seus momentos de tensão.

É muito bonito, também, a forma como o diretor utiliza por várias vezes a câmera subjetiva, se aproximando do capacete do personagem, “entrando” pelo vidro e, enfim, assumindo o seu olhar. Outras vezes, querendo mostrar o que os personagens veem e suas reações, Cuarón usa um primeiríssimo plano, inteligentemente focando nos seus rostos e, pelo reflexo do vidro do capacete, exibindo o que acontece.

GRAVITYEssa subjetividade é importantíssima para nos fazer entrar na mente do personagem e sentir na pele o que ele passa. Porém, isso não teria efeito se não fosse o roteiro escrito pelo próprio Cuarón e seu filho, Jonas, a precisa montagem e as atuações maravilhosas de George Clooney e, principalmente, Sandra Bullock. Seis meses foi o tempo que sua personagem passou em treinamento para a missão no espaço e foi também o tempo que Bullock levou se preparando fisicamente para o papel, enquanto estudava cada detalhe do roteiro e de sua atuação junto com o diretor. O resultado é uma das melhores atuações do ano.

Dentro do limite de tempo, os dois personagens principais são bem desenvolvidos. Matt Kowaski é um astronauta prestes a se aposentar, boa pinta e bem humorado, que ajuda a aliviar a tensão em alguns momentos. Ryan Stone é uma médica em sua primeira missão espacial. Logo sabemos que ela recentemente sofreu uma tragédia pessoal e entendemos o motivo (ou um deles) que a levou a ir trabalhar no espaço. Apesar de continuar com seus deveres, depois do trauma ela para de viver. Esse elemento do seu passado a faz ficar a vontade com o silêncio oferecido pelo espaço.

[Desse ponto em diante, haverão spoilers sobre momentos-chave da trama do filme]

Gravity - GestaçãojpgA partir desse momento, o verdadeiro significado do filme começa a se desenhar e podemos aos poucos perceber do que a história contada se trata. Já não estamos mais assistindo a um filme sobre uma astronauta em perigo, e sim, estamos testemunhando o renascer de uma pessoa. Isso é muito bem ilustrado com o belíssimo plano em que Stone, após conseguir entrar na estação russa e tirar seu equipamento, é enquadrada flutuando por alguns segundos em posição fetal enquanto descansa, remetendo a um bebê no útero.

Uma vez que o sentido principal é entendido, o filme deixa de ser apenas uma obra bonita, para se tornar algo intenso, uma experiência autêntica. Não há nada mais lindo do que o renascimento da vida numa pessoa — a vida como um sentimento, e não como um período de tempo. Interiormente, Ryan morre junto com sua filha. Não havendo mais pelo que viver, ainda na Terra, ela vivia o resto dos seus dias dirigindo, sem rumo, pois era assim que ela se sentia. Todavia, quando ela olha nos olhos da morte, várias vezes (sim, os obstáculos do filme parecem ser um pouco excessivos), ela descobre uma força que nunca imaginou ter. Se revela, então, um do maiores conceitos do filme: do ambiente mais estéril conhecido, nasce uma vida.

Gravity - Ryan na CabineMas Cuarón não para por aí. A última sequência, além de reafirmar a ideia do renascimento com Ryan “reaprendendo” a andar — no espaço, ela estava em gestação, como o plano já citado apresentou, enquanto seu nascimento se deu com sua chegada à Terra —, guarda um significado ainda mais profundo. Depois de quase se afogar, a personagem nada em direção a superfície, mas, alguns segundos antes disso, uma rã é vista também emergindo. A rã, que, como todos sabem, é o estado evoluído do girino após sofrer metamorfose, é inteligentemente posta nessa sequência em particular para indicar que Ryan evoluiu. Ela é um novo ser. E não só isso. Notem como a personagem, da água, vai lentamente se arrastando até a margem, até conseguir se levantar — como a vida terrestre teve início. A câmera ainda a enquadra de baixo para cima, a fazendo ficar maior e apontando sua mudança. Nesses segundos o diretor recria, ou melhor, personifica os milhões de anos de evolução na figura de Ryan Stone.

Por ser um filme quase todo passado no espaço e com muitas metáforas, comparações com o clássico “2001 – Uma Odisseia no Espaço” já foram feitas. Mas os dois diferem muito entre si. A obra de Stanley Kubrick se encaixa muito mais no gênero ficção científica que a de Cuarón, que pode ser classificado como um suspense dramático. Enquanto “2001” aborda a evolução numa maneira muito mais extensa (e ainda influenciada por terceiros), “Gravidade” é um filme muito mais pessoal, onde a evolução é intrínseca.

Gravity - Evolução (Cut)Com seu novo trabalho, Cuarón mostra que, para um filme ser genial, não precisa ter uma trama complicada. Mesmo quem não conseguir ler nas entrelinhas, poderá gostar do longa por sua simples história de superação da personagem de Sandra Bullock ante uma catástrofe e vários empecilhos. Algo muito diferente do próprio “2001”, que é um filme tão comprometido com sua mitologia que não permite ao espectador que não entender a trama curtir o filme.

Há muito tempo eu não saía do cinema tão satisfeito. “Gravidade” vai muito mais além do “filme-catástrofe” — é um belo conto sobre renascimento e, mais que isso, evolução. Os méritos da obra vão muito além dos aspectos técnicos. A produção beira a perfeição, graças especialmente ao roteiro dos Cuarón e a atuação iluminada de Sandra Bullock. A metáfora do renascimento de Ryan Stone como uma pessoa evoluída é linda e muito bem apresentada. O filme, sem dúvida, já é um dos melhores do ano e será lembrado por muito tempo.

“It’s time to stop driving. It’s time to go home.”

Minha Breve Decepção com C. S. Lewis #2

cslewis-cristianismo-puro-e-simplesLeia a parte 1

Anteriormente, comecei a escrever sobre como a releitura do livro Cristianismo Puro e Simples despertou em mim algumas indignações. Introduzi o livro e o assunto, mas não cheguei a falar sobre o que de fato havia me causado esse mal estar com C. S. Lewis, que é um dos meus autores prediletos. Para isso, volto com a segunda parte. Mas já aviso que ainda haverá uma terceira parte. Seria muito difícil concluir assunto nesse texto sem deixá-lo gigantesco.

Venho de uma formação na área de Humanidades, o que me fez ler diversos autores de contextos e épocas diferentes. Uma das primeiras coisas que aprendi é que precisamos ler um autor em seu próprio tempo. Ou seja, é preciso considerar que alguns de seus pensamentos não teriam sequer condições de serem muito diferentes, pois não haveria um repertório para isso. Ao começar a leitura de Lewis, me deparei exatamente com esse recado na introdução do livro. Que ele deveria ser interpretado à luz de seu contexto histórico. No caso, o da Segunda Guerra Mundial. O programa de rádio que deu origem ao livro era como um trabalho de literatura oral, com uma mensagem de paz e esperança em meio às notícias sobre a guerra. Longe de ser algo filosófico ou teológico, era antes de tudo um exercício de pensamento até mesmo imaginativo de Lewis.

Ok, levei isso em conta. Mas devo confessar: não me fez ficar menos incomodada com algumas partes do livro. E devo dizer que não foi essa justificativa que me fez “fazer as pazes” com Lewis. Mas esse será o assunto do próximo texto.

Eu poderia citar algumas passagens específicas, porém optei por elencar três pontos principais que chamo de “pontos da minha indisposição com C. S. Lewis”.

1 – A questão da “Lei Natural”.
Lewis inicia o livro com um pressuposto que serve de base para todo o resto. Se você não concorda com esse pressuposto, dificilmente concordará com outros argumentos no decorrer do livro. É o pressuposto de que todos os seres humanos são guiados por uma “Lei Natural” que lhes indica o que é certo e o errado. Não se trata de uma orientação moral ou cultural, mas uma Lei. Meu primeiro pensamento foi: bem, a noção de certo e errado varia conforme as sociedades. O que é certo para nós pode não ser, necessariamente, para um chinês, por exemplo. Também varia conforme a época. Uma restrição do século XVIII não vale mais para nós. Lewis responde dizendo que ainda que haja diferenças, “as doutrinas morais dos diversos povos nunca chegaram a constituir algo que se assemelhasse a uma diferença total” (p. 8-9)*.

Sim, ele pode ter razão. Mas isso não responde outra questão: se existe uma Lei Natural que nos diz o que é o certo e o errado, e se diferentes sociedades em diferentes épocas agiram de maneira distinta em relação a isso, significa que alguém (ou alguma sociedade, no caso) estava/está equivocado ao fazer o “errado” julgando ser o “certo”. Diante disso, minha pergunta é: quem diz qual sociedade ou pessoa está equivocada? Aos olhos de quem o outro estaria errado ou certo? E isso me leva ao segundo ponto de indisposição com Lewis.

2 – Certa arrogância nos argumentos.
Mesmo sem abordar diretamente as questões que apontei acima, Lewis as responde. Os cristãos (os ocidentais) estariam com a razão. E não apenas isso. Os não cristãos são tidos como ingênuos e tolos. Em certo momento, ao falar sobre o Cristianismo, Lewis chega a dizer que essa religião não é para os “intelectualmente preguiçosos”. Minha conclusão disso é que não há como discutir com esse tipo de argumento tão fechado e até mesmo preconceituoso. Ainda que se tratasse de um pensamento filosófico/teológico, haveria muito que se discutir. Ainda mais se o autor se propõe a um exercício de pensamento e imaginação. Mas como discutir com essa arrogância?

3 – Sobre o casamento.
O terceiro ponto que me causou indisposição com Lewis foi esse específico, quando ele fala sobre a conduta cristã. A verdade é que nesse ponto Lewis não foge do que talvez todas as igrejas cristãs preguem: que o homem deve ser o cabeça da casa. Ele é quem manda, ele é quem tem a última palavra. Eu já tenho incômodo suficientemente grande com essa questão. Mas Lewis consegue piorar quando justifica o porquê de o homem ser o cabeça. Ele argumenta que a mulher tem uma “predisposição natural” (p. 150) em defender a família acima de tudo e todos, o que pode até mesmo fazer com que ela seja injusta. Portanto, cabe ao homem controlar essa predisposição (!)… Não sei quantos de vocês podem concordar com ele, mas para mim é um argumento nada embasado para justificar uma atitude, digamos, não muito democrática.

Quero finalizar por aqui, para que o texto não fique ainda mais longo. Mas convido à leitura da parte final dele, na próxima semana. Pode não parecer agora, mas, por outro lado, descobri algumas passagens nesse mesmo livro que mostram outro Lewis, bem à frente de seu tempo e nada conservador. Isso me permitiu fazer as pazes com ele, embora ainda discorde desses pontos que apresentei. Acima de tudo, é importante que ninguém tire conclusões ou assuma interpretações com base apenas no que eu digo. Tudo isso é, na verdade, um convite para a leitura do livro e para o debate!

* Todas as citações foram retiradas da edição de 2009, da editora Martins Fontes: Lewis, C. S. Cristianismo Puro e Simples. WMF Martins Fontes. São Paulo, 2009.

Sorria pra foto! Não, obrigado.

Tenho vários amigos fotógrafos, profissionais e amadores, e respeito muito a profissão deles. Inclusive acho que eles são desvalorizados, pois qualquer um com o celular na mão e filtros do Instagram se acha fotógrafo e por vezes dispensa estes profissionais.

No entanto, a moda do selfie, o egocentrismo das pessoas e o turismo de massa andam me deixando chateado com os fotógrafos, especialmente os de final de semana.

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Na semana passada estive passeando com minha esposa em Buenos Aires, lugar muito bonito que recomendo a todos, mas a menos que você tenha bastante tempo e disposição para organizar algo mais alternativo, você cairá nas armadilhas do turismo de massa, entre elas, as fotos “oficiais” de cada local.

Mas a minha “bronca” não é nem tanto pelas fotos oficiais, mas sim pela postura dos turistas, tentarei explicar. Visitei o zoológico de Lujan, que oferece como diferencial a possiblidade de entrar na jaula dos grandes felinos (tigres e leões), acariciar os bichos, alimentá-los e tirar fotos. Na minha cabeça a foto era um detalhe, eu estava mais interessado em conhecer de perto estes animais fantásticos, mas logo na van que levava o grupo de turistas já pude perceber que o tom geral não era esse, o guia foi dando várias dicas de como comportar-se nas jaulas, e como lidar com os tratadores (traduzindo: gorjetas generosas) para conseguir fotos fantásticas com os animais. O foco estava nas fotos.

No zoológico, o comportamento dos turistas era patético, pra dizer o mínimo, a impressão era de que não fazia a menor diferença a presença do animal, poderia ser uma foto ao lado de uma estátua, um carro antigo, ou qualquer outra coisa, o importante era sair com um sorriso caprichado pra ganhar muitos likes no Facebook. Durante minhas apressadas passagens pelas jaulas eu tentava aproveitar um pouco o momento, perguntava o nome dos animais, a idade, o sexo, se nasceu no zoo ou se foi trazido de algum lugar, o peso aproximado, o que gosta de comer, admirava um pouco os animais, essas coisas, mas logo percebi que minha atitude atrapalhava o ritmo com o que o turismo de massa e os flashs devem ocorrer, então fui me contentando em ler as informações nas entradas das jaulas e sorrir pras fotos, mesmo não gostando muito de fazer poses nem olhar pra câmera enquanto sou fotografado.

Outra ocasião semelhante ocorreu em minha visita a La Bombonera, o mítico estádio do Boca Juniors. O Boca tem um sistema muito bem preparado para receber os turistas, no Brasil eu só conheço algo parecido no Museu do Futebol, no Pacaembu. Existem várias formas de visitar o estádio e o museu anexo, Tour Simples, Tour Guiado e “La Experiencia Boca”, eu como louco por futebol que sou, fui logo na experiência, pois além da volta pelas arquibancadas e visita ao museu, oferecia também uma entrada no campo de jogo, e fotos oficiais com a Taça Libertadores (na verdade uma réplica meio judiada) e também no banco de reservas do Boca. O passeio pelo museu e pelas arquibancadas é legal, mas o extra, o especial, a “La Experiencia Boca” fica mesmo nas fotos. A tal entrada em campo na verdade é uma passagem apenas na lateral do gramado até o banco de reservas e lá fazer as fotos. Eu queria entrar no gramado, ir até o centro, relembrar alguns lances históricos ocorridos neste templo do futebol, ir até aquele cantinho maldito onde os jogadores mal conseguem bater um escanteio sem ser fortemente pressionados pela torcida… mas nada disso. As fotos ficaram bonitas, fiz uma gambiarra e coloquei uma no meu Facebook, ganhei um porta-retratos que ficou bem legal no meu escritório, mas não era isso que eu esperava, com o perdão do trocadilho, La Experiencia Boca foi bem meia-boca. No entanto, na linha de montagem do turismo em massa, aparentemente eu era o único incomodado.

Essa minha implicância e relação às fotos e ao comportamento das pessoas em certos eventos não começou nesta viagem, já vem de tempo. Há um tempo  eu escrevi o seguinte no meu Facebook:

Assistindo a trechos de shows do U2 nos anos 80 e 90 a gente percebe como era legal no tempo em que as pessoas iam para os shows preocupadas em cantar, dançar e curtir o momento, ao invés de ficarem paradas filmando e fotografando tudo, registrando em máquinas, mas perdendo a magia do momento.
As máquinas digitais e os celulares são a maldição dos shows de rock. E tenho dito.

Eu acho realmente um desperdício enorme acompanhar uma experiência fantástica que está ocorrendo ali na sua frente, por uma telinha de celular ou câmera fotográfica, não consigo entender isso. Tirar uma foto ou outra, fazer um vídeo breve pra recordação, ok, eu faço isso também, mas filmar/fotografar um show inteiro? Na minha cabeça não faz sentido algum. Se você que está lendo este texto gosta de fazer isso, me perdoe mas vou quebrar o seu encanto: suas fotos ficaram infinitamente piores que as fotos oficiais do evento, seus vídeos tremidos, escuros e com captação de áudio horrível só servirão para poluir o YouTube e dificultar na hora que queremos achar um vídeo realmente legal. Então vai por mim, curta o momento, e deixe os profissionais trabalharem, depois compre o DVD da tour e fica tudo em ordem.

Eventos como casamentos são outro belo exemplo dessa estranheza que sinto. Quem aqui já se sentiu quase que um intruso em uma cerimônia onde parece que tudo é feito somente para as câmeras, e não para os convidados? Eu já, sempre. Você não consegue ver a troca de alianças ou o beijo, os fotógrafos, cinegrafistas e auxiliares estão na frente, no melhor dos lugares. As pausas, as cenas, as poses, tudo para as câmeras e naturalidade zero.

Chegamos então ao ponto crucial: por que as pessoas têm esse comportamento estranho? A resposta mais simples é o egocentrismo de nossos dias. Importa que eu saia bem nas fotos, e que mais tarde todos fiquem sabendo. O contexto do momento não importa muito, se eu passar correndo por vários pontos turísticos durante o dia, e não entender bem cada um deles, não conversar com as pessoas, não interagir, não aprender nada, mas tirar ótimas fotos, minha viagem será um sucesso no Facebook e no Instragram! Entra um pouco de exibicionismo também nessa receita, as redes sociais são movidas a isso.

Minha dica é: esqueça um pouco as lentes, aproveite mais o momento, se alguém tirar um foto legal, ótimo, se não, o melhor do momento estará pra sempre em sua memória.

Fiquem na paz.

@marlosferreira.

Qual é o lugar do rock no Brasil atual?

Antes de desenvolver o argumento, quero postar links para 3 matérias:

1 – Gostar de rock começa a ser diferencial positivo em processos seletivos, leia aqui.

2 – Pesquisa do IBOPE divulgada em Outubro de 2013 diz que 52% dos ouvintes de rock pertencem às classes A e B, leia aqui.

3 – Nenhum rock consta entre as 30 canções mais executadas no Brasil em 2013, leia aqui.

Os 3 fatos apontam para o mesmo lado. No primeiro caso a tendência tem um aspecto positivo, pois mostra que o preconceito contra os roqueiros está desaparecendo, mas por outro lado se o aspecto “rebeldia” do rock está sumindo, qual seu papel atual? O segundo nos diz que o rock não fala mais às classes econômicas mais baixas da sociedade. No terceiro fato, apenas a constatação de que no Brasil o rock definitivamente saiu de moda.

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O rock no Brasil não é mais a música da festa, da diversão, das baladas (acredite, já foi um dia), esta função está a cargo do sertanejo. Também não é mais a música do inconformismo político e social, o rap assumiu esta função. Além disso, ainda há a função que o rock perdeu para o funk, a função da música que incomoda, que faz o cara do carro ao lado fechar os vidros, a música que deixa os pais (ou pelo menos parte deles) envergonhados, a música sacana, debochada, simplória. O funk se apropriou disso tudo.

No decorrer da história da música pop, sempre houve ondas de ataque e contra-ataque. Em uma análise bem simplória, quando ele ficou pop, dançante e juvenil, veio uma onda psicodélica. Quando ficou muito bicho-grilo, veio uma onda de som mais pesado. Quando ficou muito virtuoso, veio a onda punk, e assim por diante. No Brasil esta cronologia não é tão clara, mas o fato é que o rock de uma maneira geral sofreu o contra-ataque de todos os outros estilos musicais, porém é bem claro que o funk  é que tomou o maior espaço, e a simplicidade em fazê-lo explica muito disso. Por mais simples que o rock seja, ainda exige tocar um instrumento em um nível aceitável, ter um mínimo de afinação, e conseguir compor algo. O funk não exige nada.

Que função então restou ao rock, a de ser a música de gente “diferenciada”?

Os números apontados na pesquisa do IBOPE não chegam a ser novidade alguma, o rock brasileiro sempre foi feito por elites e para elites. Gostem  (ou sintam-se elitizados) os roqueiros ou não.  As exceções aqui não o breve movimento punk no final dos anos 70 e início dos 80 (especialmente em SP, com ligação com os sindicatos da região do ABC) e a extrema popularização que o pop/rock brasileiro atingiu em parte da década de 80. Fora isso, nossas bandas surgem majoritariamente na classe média alta, e fala para esta classe. Pode falar para um público maior em momentos de popularidade, com canções mais pop, românticas, mas em sua essência controversa e questionadora, fala para poucos. Desta forma, voltamos a estaca  zero.

Temos então uma geração de roqueiros bem sucedidos profissionalmente, com suas tatuagens devidamente escondidas em belos ternos e sua rebeldia disfarçada em cabelos bem penteados e a barba bem feita. Obviamente isso não é um problema em si, pois ter sucesso profissional e não ser julgado por uma tatuagem é ótimo, mas então a frase célebre da Rita Lee “Roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido” está devidamente sepultada.

Talvez um dos últimos redutos onde rock ainda incomodava era dentro das igrejas, mas o rock como música de matriz anglo-saxã, baseada em melodias teve muito mais facilidade para romper esta barreira do que, por exemplo, ritmos africanos. O rock domesticado está devidamente integrado nos cultos, e mesmo quando não tão domesticado assim, é comum roqueiros cristãos curtindo sons mais pesados sem incomodar seus líderes.

Então temos um rock religioso, civilizado, respeitado, burguês, conservador e com público bem definido. Ele sobreviverá bem desta forma, não tenho dúvida, já é um senhor e precisa se preservar de certas estripulias adolescentes, já tem status de clássico e deixou muita gente rica. Seus maiores méritos no momento estão ligados ao aspecto estritamente musical, os resultados sonoros mais interessantes continuam saindo do rock e de suas vertentes, mas quem liga para isso hoje em dia? Somente o público do rock mesmo.

O suspiro de esperança vem justamente da acomodação, é a acomodação atual que pode estar gerando algo de diferente que possa renovar o rock, sua atitude, sua estética, seu discurso.  O rock precisa voltar a andar na contramão, voltar a incomodar, ao mesmo tempo, o rock se autodestrói quando os fatores se tornam todos favoráveis, ele implode, seu habitat natural é longe da zona de conforto tanto de público quanto dos artistas.

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Não acredito que o rock volte a ter no Brasil a abertura e presença popular que teve nos anos 80, e nem gostaria que isso acontecesse,  porém acredito que ainda é tempo de ganhar alguma relevância, conquistar um pouco mais de espaço, só isso. O problema é que no Brasil temos uma tradição de monocultura, quando algo começa a fazer sucesso, todo o mecanismo se volta na mesma direção, a mídia de maneira geral elege a bola de vez e todo o espaço é tomado por um único estilo, algumas vezes por um único artista. É a cultura do 80 ou 8, ou se faz um mega sucesso e toda a máquina funciona a seu favor, ou você não é ninguém, não há respeito para diferenças que possa haver no público, todos precisam estar ouvindo a mesma coisa ao mesmo tempo para que o mainstream tenha seu trabalho facilitado. Os estilos podem coexistir tranquilamente, tá certo que nossa mídia não colabora muito para isso, e que as bandas também tem parcela de culpa neste processo, mas a má vontade que percebo em relação ao rock é prejudicial a todos no contexto da cultura pop. Isso reduz as possibilidades de que o rock volte a incomodar, pois um garoto não vai encontrar motivação em fazer um som que seja igual ao que seu pai ouve. Isso aumenta a estagnação criativa e reduz o rock a um saudosismo decadente.

Alguém, além de mim, ainda acha estranho que se venda camisetas dos Ramones na Renner?

Fiquem na paz.

@marlosferreira

Minha breve decepção com C. S. Lewis – #1

cslewis-cristianismo-puro-e-simplesC. S. Lewis é um dos meus escritores prediletos. Acho que todo mundo que gosta de ler encontra dois ou três escritores com os quais se identifica tanto, que eles acabam sendo uma espécie de guias intelectuais de suas vidas. C.S. Lewis é um da minha. A maioria das pessoas deve conhecer ele por causa da série de livros “As Crônicas de Nárnia” e por causa dos filmes que foram inspirados por ela. São livros de fantasia muito bons mesmo, assim como os da Trilogia Cósmica, recentemente publicados no Brasil. Quem sabe um dia falo deles por aqui. Mas quem já teve a oportunidade de ler outros livros do autor, de ficção ou não, percebe que “As Crônicas de Nárnia” são quase como uma ilustração de sua linha de pensamento, se podemos dizer assim. Dizer ilustração é um pouco simplista também. Nárnia é muito mais do que isso. O que quero dizer é que tudo o que Lewis diz em seus outros livros aparece também em Nárnia, de forma diferente. Vale a pena fazer esse tipo de leitura comparada. Mas comecei a falar do Lewis por outra razão.

Como eu disse, ele é um dos meus escritores prediletos. Sabemos como é essa coisa de predileção, fica difícil fazer críticas e encontrar defeitos. Por esse motivo me surpreendi comigo mesma e com Lewis ao reler “Cristianismo Puro e Simples” e reagir dizendo “Como assim???” em algumas passagens do livro. Havia lido há muito tempo e não me lembrava de certas coisas. Ou pelo menos não me lembrava de ter discordado delas com tanta indignação.

Esse é um motivo legal para reler livros depois de tanto tempo. Nós mudamos de ideias, amadurecemos, conhecemos coisas diferentes e tudo isso torna a releitura uma nova leitura, na verdade.

Não quero tornar esse texto muito longo, então resolvi dividi-lo em duas partes. Essa, que seria uma apresentação do assunto e a segunda, em que vou falar sobre alguns pontos específicos do livro que me deixaram cheia de questões. Posso adiantar que como o título afirma, minha decepção com Lewis foi breve.

Para quem não conhece esse livro, nele Lewis faz uma apresentação do Cristianismo, como ele entende que seja essa religião. O autor apresenta os valores e as crenças básicas, a moral cristã e se arrisca até a falar um pouco sobre a Trindade. Originalmente, tudo o que está no livro – ou quase tudo – foi apresentado em programas de rádio. Depois foi publicado em três volumes separados, com alguns acréscimos ao que tinha sido dito no ar e, por fim, em um volume único, que é o “Mere Christianity” – em português publicado como “Cristianismo Puro e Simples”.

Não sei quantos conhecem a história de Lewis, mas vale dizer que ele foi ateu por muito tempo. Após se converter, tornou-se um dos principais intelectuais de sua época a fazer apologia ao Cristianismo. Segundo o autor, justamente por causa de sua própria história, ele quis apresentar a religião de maneira que não estivesse ligada a nenhuma igreja, ou corrente teológica e sim “prestar um serviço” aos seus “semelhantes incrédulos” de “explicar e defender a fé comum a praticamente todos os cristãos em todos os tempos”. São suas palavras no prefácio do livro. E daí que ele faz um exercício intelectual realmente interessante em apresentar a religião. É um livro que recomendo para cristãos e não cristãos interessados no tema. Mas ele pode causar alguns incômodos. No caso dos cristãos, por ser direto demais. No caso dos não cristãos por soar como um pouco arrogante, em certo sentido. Vou falar sobre isso no próximo texto, pois foi um dos meus probleminhas com Lewis…

Por isso convido vocês a lerem a segunda parte, na semana que vem. Nesse mesmo canal, não necessariamente no mesmo horário. Espero que não se decepcionem com C.S. Lewis só pelos comentários que vou fazer, mas que procurem ler esse e outros livros dele, que é um escritor magnífico.