Tanlan lança o single “A Maior Aventura”

Em trabalhos anteriores, a Tanlan (conhece pouco a banda? Ouça essa entrevista muito legal aqui!) já havia dado prévia do que estava a caminho através de singles, mas pela primeira vez o single vem acompanhado de um clipe.

A Maior Aventura, o clipe, foi dirigido por Mateus Raugust e filmado no Jockey Club de Porto Alegre; A Maior Aventura, a canção, foi mixada e masterizada por Rodrigo Del Toro e nos remete à sonoridade que já conhecemos da banda, e o amor que já foi cantado como sendo o “mais louco do mundo”, agora é colocado como o desafio de “consertar antigos erros, aceitar os mesmos termos” e “dividir um pouco de mim com os outros, e multiplicar um pouco dos outros em mim.”.

De acordo com o vocalista Fábio Sampaio, a banda tem mais dois singles engatilhados, ambos acompanhados de clipes, e após isso eles iniciarão o processo de gravação do sucessor de Um Dia a Mais, ainda sem nome e previsão de lançamento.

A faixa estará disponível dentro de alguns dias em todas as plataformas online, e o clipe está abaixo! Curte aí, é um belo trabalho!

Fiquem na paz.

@marlosferreira

Somente rock é pouco para o Sarau de Marcos Almeida.

Relato da passagem da turnê Eu Sarau por Curitiba

Pelo fato de viajar bastante a trabalho, tive a infeliz coincidência de estar fora de Curitiba nas duas ocasiões em que o Palavrantiga tocou na minha cidade, por isso, quando Marcos Almeida anunciou que seu novo show “Eu Sarau” passaria por aqui, eu logo tratei de garantir meu lugar.

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A noite de sábado, dia 27 de Junho, foi bem típica no inverno da capital paranaense, o clima frio e úmido tornaram o belo Teatro Paiol ainda mais aconchegante e ideal para um show intimista e basicamente feito por um homem só. O carisma, a fala tranquila de Marcos Almeida e a proximidade do público complementaram o cenário e aqueceram os presentes, que encheram o teatro.

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Revezando-se entre violões, guitarra e teclado, Marcos abriu o show com “Sagrado”, e seguiu com várias músicas do Palavrantiga como “Rio Torto”, “Vem me Socorrer” e “Minha Menina”, além de “Cartão Postal”, um dos destaques no CD da cantora Lorena Chaves, todas canções bem conhecidas pelo público e acompanhadas com entusiasmo, e na medida do possível para um artista tocando sozinho, Marcos procurou trazer arranjos bem diferentes para as músicas. Com auxílio de um pedal looping, Marcos criava bases de guitarra e vozes auxiliares e, literalmente, construía as canções ao vivo em frente ao público, neste quesito, destaque para a versão de “Rookmaker”.

Passando para o teclado, Marcos toca pequenos trechos de músicas bem conhecidas como “Casa” e “Feito de Barro”, e após isso o show começa a apresentar momentos diferentes. Marcos conta alguns causos, como quando teve ataque de tiete ao conhecer o poeta e pastor Carlos Nejar dentro em um avião, e lê alguns poemas do poeta, destacando outra faceta do cantor: seu interesse e ligação com a literatura.

 

Em outro momento bem especial, Marcos chama ao palco a cantora Lio, vocalista da banda {Sí}monami, e tocam “Dança” (outra colaboração entre Marcos e Lorena), e com participação do marido da cantora, apresentam uma belíssima versão de “Caçador de Mim”, de Milton Nascimento.

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Voltando à parte básica do repertório, ou seja, músicas do Palavrantiga (todas de autoria de Marcos Almeida, vale ressaltar), o cantor aproveita para apresentar músicas novas, canções ainda não acabadas e com nomes provisórios como “Desaprendi” e “Toda Dor É Por Enquanto”, ambas muito bem recebidas pela plateia.

Caminhando para a parte final do show, o cantor toca uma de suas composições das quais eu mais gosto, e que, segundo ele, tocou pouquíssimas vezes ao vivo, a música “Deus, Onde Estás?” e tenta finalizar o show com a faixa “Partiu”. Eu disse “tenta”, porque o público não deixou acabar por aí, e Marcos vai para o teclado para fechar essa parte da noite com a bela canção “Esperar é Caminhar”.

Marcos encerrou a parte musical da apresentação, pediu um minuto para tomar um copo d’água e voltou para um papo com o público, coisa que em meus vários (pra não dizer muitos) anos frequentando os mais variados tipos de apresentação, eu nunca tinha visto. Aproveitando a proximidade proporcionada pelo local, Marcos pede para que ninguém filme essa conversa e abre espaço para algumas perguntas do público, e responde olhando olhos nos olhos aos presentes, com a sinceridade de quem ainda está desenhando como será a sua retomada musical, dando a entender que não deve mesmo voltar ao Palavrantiga, mas que quer continuar a apresentar suas composições, além de seus demais interesses como poesia e literatura.

O espaço pequeno favoreceu o formato banda-de-um-homem-só, mas Marcos mostrou competência para fazer o espetáculo funcionar mesmo que seja em um local maior, então, caso o show passe por sua cidade, não pense duas vezes e vá assistir. Variando entre momentos calmos e eufóricos, sempre com total atenção por parte do público, ao término das mais de duas horas de apresentação fica claro que com folk, MPB, pop, causos, poesia e bate-papo, um show de rock é muito pouco para Marcos Almeida.

Fique na paz.

@marlosferreira

Quem matou a indústria da Música Cristã Contemporânea?

Escrito por Tyler Huckabee, o texto original pode ser lido clicando aqui.

Tradução @marlosferreira

A antiga banda de Derek Webb, Caedmon’s Call, já foi a queridinha da indústria da Música Cristã Contemporânea (MCC). Seu álbum de estreia homônimo, lançado em 1996, vendeu mais de 250.000 cópias, e seu seguinte, 40 Acres, vendeu cerca de 100.000. Os shows do Caedmon’s Call estavam frequentemente lotados, e realmente ampliaram a popularidade da MCC. Era tão comum ver os estudantes universitários, quanto seus pais, em shows da Caedmon’s Call.

“Tivemos um sucesso muito inesperado, muito cedo”, explica Webb. “Nós nos apoiamos em um momento de sucesso que nunca poderia ter sido previsto. Mas um homem sábio uma vez me disse, ‘As duas coisas que vão arruinar um artista são o sucesso e o fracasso. E, especialmente, nessa sequência.'”

Hoje, Caedmon’s Call é um reflexo empoeirado de uma indústria do passado. Há chances de que você nunca tenha ouvido falar de Caedmon’s Call. Mas a história da banda é um microcosmo interessante, se não uma metáfora da MCC como um todo. No auge da MCC, cerca de 50 milhões de álbuns MCC foram vendidos anualmente. Em 2014, esse número havia caído para 17 milhões. A revista especializada CCM Magazine já há muito deixou de ser impressa, e compositores cristãos modernos lutam para penetrar as massas, além de escrever canções de adoração para reuniões da igreja.

A decadência da MCC é um reflexo do interesse minguante da América no Cristianismo como um todo. O declínio íngreme em vendas da MCC deixou selos e artistas olhando fixamente para o vazio, ao lado de seus pastores, coçando a cabeça, perguntando onde eles erraram.

***

O nascimento da MCC pode ser rastreado até o Jesus Movement no final dos anos 1960, e ela foi conduzida através de seus primeiros anos por hippies tementes a Deus como Larry Norman. Mas ela realmente não decolou até mais de uma década depois, como resultado de pioneiros como Andrae Crouch e Amy Grant. Grant foi uma revelação especial, uma bela adolescente, cujas letras vagas deixavam em aberto se ela estava cantando sobre Deus ou sobre garotos. Foi uma estratégia inteligente, e isso levou vários singles aos Tops da Billboard, e o primeiro álbum cristão a ser disco de platina. Sua fama iria aumentar a fortuna de seu tecladista, Michael W. Smith, cuja carreira na MCC viria a se tornar quase tão importante quanto a de Grant.

Como esses cantores gospel se tornaram grandes estrelas, eles provaram que a MCC poderia ser mais do que apenas uma mísera gravação feita para ajudar os pastores com os jovens; mas que era um grande negócio. Isso lançou as bases para a próxima onda de cantores gospel, incluindo Phil Keaggy, Newsboys, Steven Curtis Chapman e Jaci Valesquez. O grande hit de 1995, “Flood”, do Jars of Clay, fez muito sucesso nas rádios universitárias americanas. Petra lotou arenas ao redor do mundo e vendeu quase 10 milhões de álbuns. Juntos, esses artistas ajudaram a MCC a se tornar um dos gêneros musicais de crescimento mais rápido na América, com muitas bandas encontrando apelo no cruzamento entre ambos os ouvintes religiosos e seculares.

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DC Talk

“Voltando aos anos 90, você poderia acreditar que Jesus Cristo era Deus e criar arte que ainda era interessante, e que o mercado em geral iria responder”, diz Kevin Max.

Ele deve saber. Afinal, ele passou os anos 90 como um membro do DC Talk, inquestionavelmente a maior história de sucesso da década na MCC. Formado em 1989 como um trio de hip-hop, o grupo se transportou para a cena grunge após o sucesso de Nevermind do Nirvana, e prontamente começou a gravar álbuns que ganharam discos duplos de platina. Em 1997, não era incomum encontrar músicas do DC Talk entre as mais pedidas na MTV ou Billboard, tornando-os um dos bens mais valiosos do MCC: uma banda cristã, que também tinha apelo para a cultura em geral.

Olhando para trás, não é difícil perceber porquê. O grupo tinha a pegada do rock alternativo e nunca perdeu sua sensibilidade pop, e canalizou tudo em um show ao vivo verdadeiramente emocionante. Se você ignorar as letras de inclinação religiosa (exemplos de títulos de canções: “Jesus Freak”, “Into Jesus”, “So Help me God”), você poderia imaginar que estava ouvindo algumas boas músicas desconhecidas do Stone Temple Pilots.

Quando Max foi convidado a entrar para o DC Talk, ele aceitou sem saber muito sobre a MCC (“dizer ‘cético’ seria pouco”, ele admite) – o que pode ter sido exatamente que a ocasião necessitava. Não saber as regras ajudou o dcTalk a quebrar todas elas. A letra de uma das faixas do álbum Jesus Freak, de 1995, chamada “What If I Stumble?” perguntava: “E se eu tropeçar e fizer todos nós de idiotas? Será que o amor vai continuar quando a caminhada se tornar um rastejar?” Levantar questões contraditórias em uma religião conhecida por dar respostas deu à sua música uma ousada vantagem.

“Nós estávamos alcançando”, diz Max. “Nós estávamos tentando nos comunicar com o não-cristão tanto quanto estávamos nos comunicando com o cristão. Hoje, quando ouço rádio cristã, vejo os festivais e vejo o que está acontecendo na igreja, eu não vejo muito dessa interatividade. O que vejo agora, é quase como se as portas estivessem se fechado para experimentação com letras, imagens e ideias para as pessoas interagirem.”

Essa é uma avaliação ecoada por Matt Bronleewe, um produtor veterano da MCC que trabalhou no início com o Jars of Clay, outro gigante da MCC nos anos 90. Bronleewe desde então tem colaborado com todos, de Michael W. Smith até Hayden Panettiere, da série Nashville.

“Houve um tempo em que você poderia ouvir uma música sobre Deus, mas não havia um entendimento de que ela também pode trazer algo a mais para o debate”, diz ele.

Como a indústria da música começou a enfrentar as turbulências do mercado digital, a agressividade das gravadoras cresceu para enfrentar esses tipos de riscos, diz Bronleewe. “Não há muito espaço para falhar mais”, explica. “E a chance de falhar é um presente para a criatividade. Quando a possibilidade de falhar é tirada, isso alimenta muito medo. A associação entre produtores e compositores é estreita, a tal ponto que a mesmice começa a ocorrer.”

A indústria da MCC começou contando com apostas certas, e a aposta mais segura de todas foi a que hoje é amplamente conhecida como “música de adoração” – canções que as pessoas cantam na igreja. Inicialmente alimentada por músicos como Chris Tomlin e Sonic Flood, a adoração desde então se tornou o principal produto de exportação do MCC – o fato é que bandas focadas no culto como Hillsong United foram catapultadas a tocar em estádios ao redor do mundo.

Mas seja o que for que a MCC pudesse ter ganho em jogar sua sorte em música de adoração, foi em grande parte perdido em sua capacidade de infiltrar-se em paradas populares como Top 40 ou Now That’s What I Call Music! (Uma grande exceção é o programa do rapper Lecrae, e a MCC está agarrada a ele como a um bote salva-vidas.) Para a maior parte, os artistas da MCC têm se contentado em manter a segurança e tocar para seu pedaço cada vez menor de atenção nos Estados Unidos, ou atacar por conta própria e procurar outros rejeitados.

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John Mark McMillan

John Mark McMillan escolheu a última opção, montando alguns realmente memoráveis grupos de rock and roll com convincentes reflexões sobre a fé. Este caminho não fez dele um sucesso estrondoso, mas em suas palavras, “Eu entrei nessa porque eu amo o que faço e quero fazer o tipo de música que eu faço. Fazer muitas concessões não valeria a pena. ”

“Na MCC, se você quer cantar sobre determinadas coisas mais desconfortáveis, você não vai ter uma oportunidade”, diz ele. “Mas, da mesma forma, se eu quiser cantar sobre Jesus no Top 40, isso não vai acontecer também. Os vigilantes deste mundo são tão estranhos. O problema é que, se eu sou um cristão e eu quero cantar meus pensamentos sinceros a respeito de Jesus, como ou onde é que eu faço isso? ”

Essa é uma pergunta que muitos artistas cristãos de hoje podem estar se fazendo – músicos com mensagens convincentes e talento de nível mundial, mas sem gravadoras dispostas a dar uma chance a eles.

A indústria diminuiu ao fazer música de igreja para igrejas, incapazes de recapturar as ideias que o tornaram uma força tão proeminente nas décadas passadas. Pelo menos, é assim que Derek Webb da Caedmon’s Call sente.

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Derek Webb

“A maneira que eu poderia descrevê-la para nossa banda é esta: Você está fazendo algo”, ele diz: “É significativo e é real, e é visível e é orgânico. Isso torna-se sua biografia. Mas então dois anos passam, aquela biografia é a coisa significativa, mais real e orgânica sobre você. E tudo que você está tentando fazer é manter os elementos dessa biografia, na esperança de que você possa um dia vivê-la novamente. Você se vê fazendo um monte de concessões, mas você ainda não está recebendo as indicações ou os prêmios por vendas. Você não precisa mesmo de alguém para dizer-lhe que as coisas estão ruindo. Você chega a sua própria conclusão. Você só fica se fazendo a mesma pergunta: “Como é que vamos voltar aquilo? ‘”

Essa é a pergunta que a indústria da MCC inteira está se fazendo.

Eduardo Mano lança o CD “Voz Como o Som de Muitas Águas”

O cantor e compositor carioca Eduardo Mano está com trabalho novo, porém como o próprio texto de apresentação do disco no site Noise Trade já avisa, “o compositor tem trabalhado na mesma obra desde 2008″, então se é “novidade” o que você espera, repense esse conceito.

As canções seguem o mesmo estilo folk das gravações anteriores, e como em todos os seus anteriores, Eduardo fez tudo sozinho, em sua própria casa e também como nos anteriores, está disponibilizando o download gratuitamente.

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Sobre disponibilizar o CD gratuitamente, vale muito a pena assistir ao documentário “Ministérios Fracassados”, onde Eduardo explica a motivação de seu trabalho em um depoimento emocionante.

A respeito das canções e do processo de gravação deste novo disco, Eduardo Mano facilitou bastante o nosso trabalho, pois você pode conferir um video onde ele explica tudo, e fazer o download das músicas clicando aqui.

Fiquem na paz.

@marlosferreira

Editorial UnderDot – sobre ódio, intolerância e democracia.

Este texto está dividido em duas partes, e é significativo que um sulista e um nordestino sejam os responsáveis por ele.

Por Marlos Ferreira

A tragédia nas redes sociais foi se anunciando, a cada pesquisa, a cada debate, a cada piada de mau gosto, a cada mentira compartilhada, a cada generalização do tipo “só analfabeto e corrupto vota PT” x “só coxinha e egoísta vota PSDB”, o monstro foi criando forma, e o monstro saiu de seu esconderijo (se é que estava escondido) com violência entre ontem e hoje.

Vale ressaltar que o “deixem a Dilma governar só o Nordeste” é tão preconceituoso quanto “eleitor do Aécio deveria sair do Brasil”. Exilar quem pensa diferente é algo recente em nossa história, aconteceu logo ali na Ditadura Militar, lembram? Enxergar em si toda a virtude e no próximo todos os defeitos nos afasta da nossa realidade, a de que somos todos humanos imperfeitos.

Feita a ressalva, não posso ser ingênuo a ponto de comparar provocações e colocações infelizes, com os crimes de preconceito, injúria e xenofobia que tomaram conta das redes sociais após o anúncio da reeleição de Dilma Roussef, definitivamente são coisas bem separadas, e foi assustador. Eu já havia colocado alguns filtros em meu perfil, já estava evitando alguns radicais de ambos os lados, evitei entrar em polêmicas, não abri meu voto, mas ainda assim não estava preparado para o que aconteceu, principalmente para os ataques mais baixos vindos da parte da população que se diz mais culta.

Quando foi que esquecemos (se é que um dia soubemos) que, em última análise, o voto do cidadão que votou “com a barriga” tem exatamente o mesmo peso e a mesma validade do voto do cidadão que fez uma avaliação aprofundada, levando em consideração aspectos históricos, políticos e econômicos? Ambos valem apenas e tão somente um voto, correspondem a uma opinião, um desejo, uma vontade e uma esperança. Que ambos os lados podem ter razão a depender de seu ponto de vista e contexto sociocultural, que tanto o cidadão que ficou com medo de perder o Bolsa Família quando o cidadão revoltado pela quantidade de impostos que paga e a baixa qualidade dos serviços que recebe em troca, tem a mesma representatividade e que justamente esta é a beleza da Democracia?   Se você não está pronto para conviver com isso, não é democracia o que você deseja.

Nesses tempos de vida virtual, onde a impressão que você passa em seu perfil vale mais do que o que você realmente vive ou é, fico aliviado em não ter tomado parte das manifestações no ano passado, vendo agora parece apenas um evento a mais para tirarmos fotos e compartilharmos frases feitas e pensamentos rasos nas redes sociais.  Elas realmente não significaram nada para nós como Nação. Como Povo.

Como brasileiro nascido e criado no Sul do Brasil, eu peço desculpas. Como homem branco, heterossexual, cristão e formado, peço desculpas. Como cidadão viajado, que conhece um pouco desse Brasil a ponto de enxergar mais semelhanças do que diferenças, e enxergar suas belezas e mazelas em todos os rincões e metrópoles, humildemente peço desculpas.

Im-Sorry

 

Passo a bola para meu irmão Nordestino, Marcus Barreto.

 

Esse post, escrito a quatro mãos, não tem como objetivo uma espécie de retratação ou exaltação. Simplesmente é uma tentativa “nua e crua” de entender como as redes sociais viraram um campo de batalha onde muitos, supostamente protegidos pelo anonimato, destilam ódio e opiniões sem o mínimo embasamento. E tudo isso usando como pressuposto a democracia e a liberdade de expressão.

De antemão, digo que sou apartidário, não creio em ideologias e nem estava defendo nem Aécio e nem Dilma.

Tinha a certeza absoluta, fosse qual fosse o resultado que ainda no domingo, logo após o resultado para eleição presidencial, os nordestinos seriam “agraciados”, mais uma vez, com posts carregados de ignorância, e ignorância tanto no sentido de desconhecimento como no sentido de estupidez mesmo.

Assim, fui “brindado” com a sugestão do Romeu Tuma Jr., em dividir o país, deixando a parte do Norte com Dilma, claro (leia aqui). Em outro post, vi uma mulher escrever algo como: “Se aparecer algum nordestino em MG, toco fogo”. Ela só esqueceu um pequeno “detalhe”, Aécio perdeu em Minas, mas esse detalhe, em nome da demonização do Nordeste, pode ser omitido.

Poderia ficar me lamentando ou incitando ainda mais esse “BA x VI” (ou FLA x FLU, se preferirem) estúpido. Ou poderia ir pelo caminho do conflito de classes, ou citar Boaventura de Sousa Santos e destrinchar a questão do campo hegemônico. Mas acho que a coisa é mais profunda e ao mesmo tempo básica. O que falta é algo chamado respeito, além da falsa noção de democracia. E ao contrário do senso comum, creio que futebol, religião e política se discutem, sim! Basta que cada um respeite a opinião contrária e todos poderão conviver tranquilamente.

Porém, respeito é o que menos existe. Além de que, dificilmente é possível discutir de maneira salutar.  Observem que em qualquer discussão, quando um dos lados não tem mais argumentos, a coisa vira ataque pessoal. Daí, inúmeros casos de amizades desfeitas por causa da eleição.

E na esteira do DES-respeito, vem a noção errada de democracia. Em lugar nenhum do mundo todos pensam da mesma maneira. Logo, é necessário respeitar o desejo da maioria. Mas como constatado, o que está valendo é impor um ponto de vista, ou no caso, um candidato.

Li e ouvi muita gente criticando o fato de Jair Bolssonaro e Marco Feliciano terem sido eleitos. Mas isso é democracia! Eles podem não representar o que penso, mas com certeza representam muita gente.

No final das contas, toda essa celeuma só reforça estereótipos. Seja do nordestino visto como “burro” e/ou “miserável”. Seja do sulista como “preconceituoso” e “arrogante”.

 

Infelizmente, como ironicamente pontuou Marco Antônio Araújo, “democracia boa é aquela em que nosso ponto de vista prevalece. O resto é coisa de gente burra e alienada”. E essa é a noção de democracia que infesta as redes sociais.

 

Fiquem na Paz.

O lançamento do U2 e o valor da música.

O dia 09/09 foi bem agitado para os fãs de tecnologia e também de música pop. A gigante norte-americana Apple apresentou o novo iPhone e um relógio “inteligente”.

Quando o evento já estava caminhando para o final, eis que os boatos que circulavam entre os fãs do U2 se confirmaram, e a banda irlandesa aparece no palco tocando seu novo single “The Miracle (of Joey Ramone)”, até aí tudo bem, mas após uma constrangedora “negociação” entre Bono e Tim Cook é que realmente veio a surpresa, o novo CD – Songs of Innocence – seria disponibilizado gratuitamente a todos os usuários do iTunes, aproximadamente meio Bilhão de pessoas, o que configura o maior lançamento musical de todos os tempos.

 

Este texto não é uma resenha do novo álbum, já o ouvi várias vezes, estou gostando, acho que é bem confessional nas letras e é o melhor deste “All That You Can’t Leave Behind”, mas o objetivo desse é entender os rumos que o mercado da música estão tomando, e que isso pode significar daqui pra frente.

Instantes após CD estar disponível na iTunes, já estava também circulando via torrent, deixando de ser um privilégio exclusivo dos clientes da Apple, mas isso obviamente já era esperado, o que diminui bastante o potencial de venda do CD físico (que deve sair em Outubro), então qual é a intenção do U2, e o que eles ganham com isso? Ganham atenção e mídia, embora a surpresa do lançamento tenha resultado em uma receptividade apenas morna na imprensa cultural ao redor do mundo (o que também é bem normal, afinal a mídia gosta mesmo é de amar aquela banda que ninguém ainda conhece, e tratar qualquer veterano com o ar mais blasé possível, independente da qualidade do material), mas além da atenção e mídia, o U2 atinge um novo público, mostra suas músicas para potenciais novos fãs, o que pode resultar em um aquecimento nas vendas de todo o seu catálogo, e em uma carta divulgada por Bono, prepara o lançamento de um novo álbum já batizado “Songs of Experience” . A sequência natural disso tudo é outra mega turnê mundial para 2015. De bobo eles não têm nada, nem U2, nem Apple.

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Lançar música gratuitamente na internet não é novidade, pelo contrário, para artistas novatos é quase a única forma de começar a mostrar seu trabalho, e mesmo para gente já grande como o Radiohead usou esse expediente no lançamento de “In Rainbows” em 2007, onde o CD foi disponibilizado em um site onde cada um pagava o que quisesse pelo download, ou nem pagava se não quisesse, mas um nome como o U2, a maior (e na minha humilde opinião, a última grande) banda surgida desde o final dos anos 70, uma das poucas com vendas que chegam na casa dos milhões de CDs, essa ruptura tem sim uma significância para o mercado.

Estamos na época em que parar para simplesmente ouvir música é um hábito quase morto. Muitas casas já nem possuem mais um “aparelho de som”, ou seja, um aparelho dedicado exclusivamente para se ouvir música, ouvimos música no computador, no tablet, no celular, enquanto jogamos, estudamos, conversamos com nossos amigos, assistimos televisão, enfim, música virou apenas um ruído de fundo para outras tarefas, infelizmente. Nesse contexto, qual é o sentido de se pagar R$ 25 em um CD com 11 músicas? Para a maioria das pessoas, nenhum.

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Muito tem se escrito sobre o efeito que a queda do valor da música pode ter em sua qualidade. Em seu livro chamado “O Dia Em Que O Rock Morreu”, em um dos poucos momentos de inspiração do livro, o jornalista André Forastieri bate o martelo:

 

A cada canção que você baixa sem pagar, uns centavinhos deixam de entrar no bolso de quem compôs, gravou, produziu. Cauda longa: no acúmulo dos desfalques se inviabilizam carreiras, e principalmente as novas. Bye bye bandas. O rock morreu. E foi você quem matou.

 

O U2 não vai morrer caso a estratégia não funcione corretamente e não atinja o retorno esperado, na pior das hipóteses vai encher estádios mundo afora tocando os clássicos de 20 anos atrás. Quando passar pelo Brasil eu estarei lá. Quando o CD “Songs of Innocence” for lançado fisicamente, eu irei comprar (mentira, irei pedir para a minha esposa como presente de aniversário, e ainda vou pedir a edição luxo) assim como comprei o “In Rainbows”, do Radiohead, mas o fato é que eu não sirvo muito de parâmetro, minha relação com os CDs eu já expliquei nesse texto. Tire você mesmo as suas conclusões.

 

Fiquem na paz.

 

@marlosferreira

Sorria pra foto! Não, obrigado.

Tenho vários amigos fotógrafos, profissionais e amadores, e respeito muito a profissão deles. Inclusive acho que eles são desvalorizados, pois qualquer um com o celular na mão e filtros do Instagram se acha fotógrafo e por vezes dispensa estes profissionais.

No entanto, a moda do selfie, o egocentrismo das pessoas e o turismo de massa andam me deixando chateado com os fotógrafos, especialmente os de final de semana.

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Na semana passada estive passeando com minha esposa em Buenos Aires, lugar muito bonito que recomendo a todos, mas a menos que você tenha bastante tempo e disposição para organizar algo mais alternativo, você cairá nas armadilhas do turismo de massa, entre elas, as fotos “oficiais” de cada local.

Mas a minha “bronca” não é nem tanto pelas fotos oficiais, mas sim pela postura dos turistas, tentarei explicar. Visitei o zoológico de Lujan, que oferece como diferencial a possiblidade de entrar na jaula dos grandes felinos (tigres e leões), acariciar os bichos, alimentá-los e tirar fotos. Na minha cabeça a foto era um detalhe, eu estava mais interessado em conhecer de perto estes animais fantásticos, mas logo na van que levava o grupo de turistas já pude perceber que o tom geral não era esse, o guia foi dando várias dicas de como comportar-se nas jaulas, e como lidar com os tratadores (traduzindo: gorjetas generosas) para conseguir fotos fantásticas com os animais. O foco estava nas fotos.

No zoológico, o comportamento dos turistas era patético, pra dizer o mínimo, a impressão era de que não fazia a menor diferença a presença do animal, poderia ser uma foto ao lado de uma estátua, um carro antigo, ou qualquer outra coisa, o importante era sair com um sorriso caprichado pra ganhar muitos likes no Facebook. Durante minhas apressadas passagens pelas jaulas eu tentava aproveitar um pouco o momento, perguntava o nome dos animais, a idade, o sexo, se nasceu no zoo ou se foi trazido de algum lugar, o peso aproximado, o que gosta de comer, admirava um pouco os animais, essas coisas, mas logo percebi que minha atitude atrapalhava o ritmo com o que o turismo de massa e os flashs devem ocorrer, então fui me contentando em ler as informações nas entradas das jaulas e sorrir pras fotos, mesmo não gostando muito de fazer poses nem olhar pra câmera enquanto sou fotografado.

Outra ocasião semelhante ocorreu em minha visita a La Bombonera, o mítico estádio do Boca Juniors. O Boca tem um sistema muito bem preparado para receber os turistas, no Brasil eu só conheço algo parecido no Museu do Futebol, no Pacaembu. Existem várias formas de visitar o estádio e o museu anexo, Tour Simples, Tour Guiado e “La Experiencia Boca”, eu como louco por futebol que sou, fui logo na experiência, pois além da volta pelas arquibancadas e visita ao museu, oferecia também uma entrada no campo de jogo, e fotos oficiais com a Taça Libertadores (na verdade uma réplica meio judiada) e também no banco de reservas do Boca. O passeio pelo museu e pelas arquibancadas é legal, mas o extra, o especial, a “La Experiencia Boca” fica mesmo nas fotos. A tal entrada em campo na verdade é uma passagem apenas na lateral do gramado até o banco de reservas e lá fazer as fotos. Eu queria entrar no gramado, ir até o centro, relembrar alguns lances históricos ocorridos neste templo do futebol, ir até aquele cantinho maldito onde os jogadores mal conseguem bater um escanteio sem ser fortemente pressionados pela torcida… mas nada disso. As fotos ficaram bonitas, fiz uma gambiarra e coloquei uma no meu Facebook, ganhei um porta-retratos que ficou bem legal no meu escritório, mas não era isso que eu esperava, com o perdão do trocadilho, La Experiencia Boca foi bem meia-boca. No entanto, na linha de montagem do turismo em massa, aparentemente eu era o único incomodado.

Essa minha implicância e relação às fotos e ao comportamento das pessoas em certos eventos não começou nesta viagem, já vem de tempo. Há um tempo  eu escrevi o seguinte no meu Facebook:

Assistindo a trechos de shows do U2 nos anos 80 e 90 a gente percebe como era legal no tempo em que as pessoas iam para os shows preocupadas em cantar, dançar e curtir o momento, ao invés de ficarem paradas filmando e fotografando tudo, registrando em máquinas, mas perdendo a magia do momento.
As máquinas digitais e os celulares são a maldição dos shows de rock. E tenho dito.

Eu acho realmente um desperdício enorme acompanhar uma experiência fantástica que está ocorrendo ali na sua frente, por uma telinha de celular ou câmera fotográfica, não consigo entender isso. Tirar uma foto ou outra, fazer um vídeo breve pra recordação, ok, eu faço isso também, mas filmar/fotografar um show inteiro? Na minha cabeça não faz sentido algum. Se você que está lendo este texto gosta de fazer isso, me perdoe mas vou quebrar o seu encanto: suas fotos ficaram infinitamente piores que as fotos oficiais do evento, seus vídeos tremidos, escuros e com captação de áudio horrível só servirão para poluir o YouTube e dificultar na hora que queremos achar um vídeo realmente legal. Então vai por mim, curta o momento, e deixe os profissionais trabalharem, depois compre o DVD da tour e fica tudo em ordem.

Eventos como casamentos são outro belo exemplo dessa estranheza que sinto. Quem aqui já se sentiu quase que um intruso em uma cerimônia onde parece que tudo é feito somente para as câmeras, e não para os convidados? Eu já, sempre. Você não consegue ver a troca de alianças ou o beijo, os fotógrafos, cinegrafistas e auxiliares estão na frente, no melhor dos lugares. As pausas, as cenas, as poses, tudo para as câmeras e naturalidade zero.

Chegamos então ao ponto crucial: por que as pessoas têm esse comportamento estranho? A resposta mais simples é o egocentrismo de nossos dias. Importa que eu saia bem nas fotos, e que mais tarde todos fiquem sabendo. O contexto do momento não importa muito, se eu passar correndo por vários pontos turísticos durante o dia, e não entender bem cada um deles, não conversar com as pessoas, não interagir, não aprender nada, mas tirar ótimas fotos, minha viagem será um sucesso no Facebook e no Instragram! Entra um pouco de exibicionismo também nessa receita, as redes sociais são movidas a isso.

Minha dica é: esqueça um pouco as lentes, aproveite mais o momento, se alguém tirar um foto legal, ótimo, se não, o melhor do momento estará pra sempre em sua memória.

Fiquem na paz.

@marlosferreira.

Qual é o lugar do rock no Brasil atual?

Antes de desenvolver o argumento, quero postar links para 3 matérias:

1 – Gostar de rock começa a ser diferencial positivo em processos seletivos, leia aqui.

2 – Pesquisa do IBOPE divulgada em Outubro de 2013 diz que 52% dos ouvintes de rock pertencem às classes A e B, leia aqui.

3 – Nenhum rock consta entre as 30 canções mais executadas no Brasil em 2013, leia aqui.

Os 3 fatos apontam para o mesmo lado. No primeiro caso a tendência tem um aspecto positivo, pois mostra que o preconceito contra os roqueiros está desaparecendo, mas por outro lado se o aspecto “rebeldia” do rock está sumindo, qual seu papel atual? O segundo nos diz que o rock não fala mais às classes econômicas mais baixas da sociedade. No terceiro fato, apenas a constatação de que no Brasil o rock definitivamente saiu de moda.

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O rock no Brasil não é mais a música da festa, da diversão, das baladas (acredite, já foi um dia), esta função está a cargo do sertanejo. Também não é mais a música do inconformismo político e social, o rap assumiu esta função. Além disso, ainda há a função que o rock perdeu para o funk, a função da música que incomoda, que faz o cara do carro ao lado fechar os vidros, a música que deixa os pais (ou pelo menos parte deles) envergonhados, a música sacana, debochada, simplória. O funk se apropriou disso tudo.

No decorrer da história da música pop, sempre houve ondas de ataque e contra-ataque. Em uma análise bem simplória, quando ele ficou pop, dançante e juvenil, veio uma onda psicodélica. Quando ficou muito bicho-grilo, veio uma onda de som mais pesado. Quando ficou muito virtuoso, veio a onda punk, e assim por diante. No Brasil esta cronologia não é tão clara, mas o fato é que o rock de uma maneira geral sofreu o contra-ataque de todos os outros estilos musicais, porém é bem claro que o funk  é que tomou o maior espaço, e a simplicidade em fazê-lo explica muito disso. Por mais simples que o rock seja, ainda exige tocar um instrumento em um nível aceitável, ter um mínimo de afinação, e conseguir compor algo. O funk não exige nada.

Que função então restou ao rock, a de ser a música de gente “diferenciada”?

Os números apontados na pesquisa do IBOPE não chegam a ser novidade alguma, o rock brasileiro sempre foi feito por elites e para elites. Gostem  (ou sintam-se elitizados) os roqueiros ou não.  As exceções aqui não o breve movimento punk no final dos anos 70 e início dos 80 (especialmente em SP, com ligação com os sindicatos da região do ABC) e a extrema popularização que o pop/rock brasileiro atingiu em parte da década de 80. Fora isso, nossas bandas surgem majoritariamente na classe média alta, e fala para esta classe. Pode falar para um público maior em momentos de popularidade, com canções mais pop, românticas, mas em sua essência controversa e questionadora, fala para poucos. Desta forma, voltamos a estaca  zero.

Temos então uma geração de roqueiros bem sucedidos profissionalmente, com suas tatuagens devidamente escondidas em belos ternos e sua rebeldia disfarçada em cabelos bem penteados e a barba bem feita. Obviamente isso não é um problema em si, pois ter sucesso profissional e não ser julgado por uma tatuagem é ótimo, mas então a frase célebre da Rita Lee “Roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido” está devidamente sepultada.

Talvez um dos últimos redutos onde rock ainda incomodava era dentro das igrejas, mas o rock como música de matriz anglo-saxã, baseada em melodias teve muito mais facilidade para romper esta barreira do que, por exemplo, ritmos africanos. O rock domesticado está devidamente integrado nos cultos, e mesmo quando não tão domesticado assim, é comum roqueiros cristãos curtindo sons mais pesados sem incomodar seus líderes.

Então temos um rock religioso, civilizado, respeitado, burguês, conservador e com público bem definido. Ele sobreviverá bem desta forma, não tenho dúvida, já é um senhor e precisa se preservar de certas estripulias adolescentes, já tem status de clássico e deixou muita gente rica. Seus maiores méritos no momento estão ligados ao aspecto estritamente musical, os resultados sonoros mais interessantes continuam saindo do rock e de suas vertentes, mas quem liga para isso hoje em dia? Somente o público do rock mesmo.

O suspiro de esperança vem justamente da acomodação, é a acomodação atual que pode estar gerando algo de diferente que possa renovar o rock, sua atitude, sua estética, seu discurso.  O rock precisa voltar a andar na contramão, voltar a incomodar, ao mesmo tempo, o rock se autodestrói quando os fatores se tornam todos favoráveis, ele implode, seu habitat natural é longe da zona de conforto tanto de público quanto dos artistas.

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Não acredito que o rock volte a ter no Brasil a abertura e presença popular que teve nos anos 80, e nem gostaria que isso acontecesse,  porém acredito que ainda é tempo de ganhar alguma relevância, conquistar um pouco mais de espaço, só isso. O problema é que no Brasil temos uma tradição de monocultura, quando algo começa a fazer sucesso, todo o mecanismo se volta na mesma direção, a mídia de maneira geral elege a bola de vez e todo o espaço é tomado por um único estilo, algumas vezes por um único artista. É a cultura do 80 ou 8, ou se faz um mega sucesso e toda a máquina funciona a seu favor, ou você não é ninguém, não há respeito para diferenças que possa haver no público, todos precisam estar ouvindo a mesma coisa ao mesmo tempo para que o mainstream tenha seu trabalho facilitado. Os estilos podem coexistir tranquilamente, tá certo que nossa mídia não colabora muito para isso, e que as bandas também tem parcela de culpa neste processo, mas a má vontade que percebo em relação ao rock é prejudicial a todos no contexto da cultura pop. Isso reduz as possibilidades de que o rock volte a incomodar, pois um garoto não vai encontrar motivação em fazer um som que seja igual ao que seu pai ouve. Isso aumenta a estagnação criativa e reduz o rock a um saudosismo decadente.

Alguém, além de mim, ainda acha estranho que se venda camisetas dos Ramones na Renner?

Fiquem na paz.

@marlosferreira

A Religião do Rico e a Religião do Pobre

Sempre gostei de Teorias da Conspiração. Imagino que no meio de um monte de ideias insanas e desacopladas da realidade, pode existir algo tão verdadeiro que é tomado como ficção. Alias, a realidade é a melhor obra de ficção que existe. Se toda a verdade fosse contada de maneira crua em um livro, este seria taxado como surreal.

E o ano de 2013 será aquele mais surreal na história brasileira. O ano que o povo acordou e foi as ruas. Fez sua voz ser ouvida, e depois voltou a dormir. Não acredito que ele esteja completamente adormecido, mas apenas em um sono latente, esperando um estopim. Alias analisou um irmão presbiteriano nos anos de 1960 em uma das melhores analises sobre nosso subdesenvolvimento e o papel do cristão na sociedade já produzido pela igreja brasileira: “Reverendo, estamos fazendo pic-nic em cima de um vulcão!”

2013 foi também o ano em que fui presenteado com um melhor entrosamento com alguns graduandos, pós-graduandos e professores do Instituto de Economia (IE) da Unicamp. Até me lembrei de algumas analises que o PT fazia na época do governo FHC. Nessa época o presidente sempre falava que eramos um pais em desenvolvimento, mas o PT como oposição afirmava e reafirmava: somos subdesenvolvidos. Quase 10 anos de PT, o mesmo afirma: somos desenvolvidos! Essa é a maior mentira que existe hoje. E essa proximidade com amigos do IE me fizeram entender como a elite brasileira trabalha para continuarmos nessa posição. Já dizia o profeta Renato Russo: somos escravos por educação. Ao fim de algumas palestras consegui entender como a industria que trabalho e luto para transformar foi destruída nos últimos 10 anos. Não devemos nos tornar gente grande, devemos continuar sendo bobinhos que dão lucros abusivos a empresas estrangeira, assim é na área de TI e em qualquer outra área.

Não imagine que é por incapacidade nossa que temos péssimos serviços. Eles são assim porque muita gente quis assim. Nossa elite já vendeu a alma a interesses externos para fazer os de fora ganhar muito dinheiro com nosso pouco trabalho. Não será nenhum governo democraticamente eleito que mudará isso, só o povo na rua. Não é por acaso que nossos bancos tem os maiores lucros do mundo. Nossa telefonia é a mais cara e a pior. Nossas passagens de avião as mais caras. ETC….

Não foi por acaso que a mídia, principalmente a Globo, patrocinou a total hostilidade a partidos políticos nas manifestações de junho. Sem partidos políticos, não há dialogo com governo. Não há representação. Ninguém poderia atender o chamado das ruas, somente um ditador. Talvez era isso que a nossa mídia queria. Um Batman….

Mas no decorrer desse ano fiquei com uma duvida na cabeça. Se nossa elite é tão expert em fazer o nosso povo escravo de si mesmo, como ela usa a nossa religião? Se esses pastores da TV são tão nocivos, porque não há um combate a eles?

A resposta me veio em letras garrafais, na tela do cinema. Ironicamente quando pensava nisso fui convidado para a estreia de um filme patrocinado em crowdfunding. Me foi informado que o filme era sobre espiritualidade contemporânea, não entendi o que isso significa, mas fui ver… Antes de continuar meus devaneios deixo o trailer do filme:

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=jXPdonaB4Vo[/youtube]

O filme tenta construir uma ideia de Felicidade como algo interno. Algo que deve ser buscado por você, dentro de você e não depende de ninguém. Paz é você estar bem como você mesmo. você quem constrói, não precisa ter logica. Não precisa explicar o mundo. Não precisa ser coerente com o homem.

Tenho que ser honesto. O filme é bonito. Tem boas imagens. Se fosse mudo seria melhor! Nada contra as pessoas que dão os depoimentos, eles realmente tem sua fé e acreditam em alguma coisa. Mas a espiritualidade do filme reflete a espiritualidade das pessoas que deram o depoimentos?

Temos alguns nomes bem conhecido nosso: Marina Silva e Leonardo Boff. Ambos falam sobre felicidade no filme, ajudando a “construir” coletivamente a ideia de felicidade da sociedade atual. Mas se analisarmos o que ambos andam escrevendo recentemente nas mídias sociais vemos rapidamente que o que ambos entendem por felicidade não é condizente com o que o filme mostra de felicidade, alias a fala da Marina é cortada exatamente quando ela ia concluir seu pensamento.

Mas porque o filme quer construir definições de felicidade, paz e fé? Porque tantos recortes, tão curtos?

Repare que não existem pobres no filme. A pessoa mais “humilde” é uma senhora do interior do Pernambuco, mas observamos a qualidade de vida que ela tem, veremos que, se ela morasse em uma cidade grande, seria de classe média alta. Ninguém no filme é cansado e oprimido. Ninguém precisa ser aliviado. Em outras palavras: eles são refletem a realidade do povo brasileiro!

Esse filme foi desenvolvido para a elite brasileira com a nítida mensagem: sua vida é apenas sua, não se importe com os outros! O nome já diz tudo EU MAIOR! Desfrute o que você tem e viva sua vida, é tudo que lhe resta. Essa mensagem é linda, mas quando nos confrontamos com a noção de coletivo ela se torna egoísta! Foi exatamente o contrario do que fizemos em junho! Em junho quem foi as ruas não usava transporte coletivo. A classe média lutou por uma conquista das classes mais baixas. Pela primeira vez na história o brasileiro se importo por quem não era exatamente como ele.

Então, colaborando com meus ideias de desenvolver teorias conspirativas, elegi a visão desse filme como a visão que nossas elites querem para a religião do rico. Importe-se com SUA felicidade, SEUS bens, SUA família e SUA vida! A vida dos outros não é sua responsabilidade!

Você acha que vai ganhar dinheiro com fé! Isso eu faço.....

Você acha que vai ganhar dinheiro com fé! Isso eu faço…..

Nisso um grande horizonte se abriu para mim. Percebi que a TV nos mostra todo dia sobre a espiritualidade do pobre. Somos a cada momento bombardeado com mensagens que nos dizem que se não somos ricos é porque não tivemos fé! A fé neo-pentecostal em outras palavras diz isso. Sua fé trará suas riquezas, ou seja, se você não é rico é porque você não tem fé. Inveje a fé de quem tem dinheiro, pois foi a fé deles que deu-lhes riqueza.

Com isso volto ao começo, esses dois panoramas da fé do brasileiro no fundo teriam o intuito de manter a ordem social brasileira (Ordem e Progresso). Enquanto o pobre achar que sua pobreza é causada pela sua falta de fé, e o mais favorecido achar que deve ser feliz sem se importar com os mais humildes, viveremos nesse Brasil. Enquanto pensarmos assim, um outro Brasil não será possível.

A minha fé ainda é pautada nos profetas do antigo testamento que diziam: Não há paz sem justiça social!

Homem 2.0

Talvez esse é o ano que eu mais tenho visto o nome Deus e Família nos noticiários. Até cansou esse papo de Religião vs Politica, Religião vs Direitos Humanos e Religião vs Ciência. Tentar entender essa guerra é uma tarefa difícil. Quem sabe caiba pra um dos 12 trabalhos de Hércules! Acredito que um dos lados dessa guerra ia adorar que um deus grego resolvesse essa parada, porque eles são avessos apenas às religiões monoteístas surgidas no oriente médio. Porque tanto ódio quanto essas religiões e uma certa idolatria ao “paganismo” europeu ou aos cultos afros? Essa resposta não tenho! Talvez C. S. Lewis….

“Espanta-me que você ainda me pergunte se é mesmo essencial manter o paciente na ignorância quanto à nossa existência. (…) Nossa política, no momento atual, é de nos mantermos ocultos. (…) Tenho grande esperança de que, no devido tempo, aprenderemos como tornar a ciência dos homens emocional e mítica a ponto de passarem a desconfiar daquilo que na verdade é a crença em nossa existência (embora não sob esse nome) ao mesmo tempo em que suas mentes se mantêm fechadas para o Inimigo. A “Força da Vida”, a veneração do sexo e outros aspectos da Psicanálise podem ser bastante úteis nesse sentido. Se pudermos produzir nossa obra perfeita – o Mago Materialista, o homem que não apenas utiliza, mas que na verdade venera aquilo a que dá o nome de “Forças” ao mesmo tempo em que nega a existência de “espíritos” – . então saberemos que a batalha chegará ao fim.”

Cartas de um Diabo a seu aprendiz

Mas quero abordar outro ponto, porque tanto ódio dos “mais letrados” à religião?

Tudo isso começa em uma ideia surgida a uns 150 anos, a ideia que estamos evoluindo….

Antes de continuar meu argumento, preciso colocar uns pingos em uns is. Acredito na evolução. Acredito que na minha genética tenho antepassados que são os mesmo antepassados de um orangotango. Isso não entra em nenhum conflito com minha fé cristã protestante reformada! E não é esse ponto que quero discutir!

A grande questão é o tempo verbal: evoluímos ou estamos evoluindo?

O “estamos evoluindo” é o pressuposto comum entre quase todos acadêmicos materialistas do Brasil. O homem está passando de uma versão 1.0 para uma 2.0. Isso gera os atritos, as discussões, o ódio ao que significa ser o homem 1.0.

[tube]http://www.youtube.com/watch?v=aDaOgu2CQtI[/tube]

Mas o que seria esse homem 1.0?

Muitos defendem que o homem precisa tirar a roupa do velho homem: a religião, o misticismo, o ódio, o pre-conceito, etc… Acredito que nem esses próprios (homens evoluídos) sabem direito o que isso significa. Só sabem de uma coisa, precisamos aposentar o discurso conservador e tomar uma atitude mais progressista. É muito interessante observar as palavras que são usadas. Qualquer indicio de uma cosmovisão cristã significa ser conservador. Qualquer indicio de abolir coisas como certo-errado, ou a ideia de pecado, significa ser progressista. Fico me questionando: progresso de que? Significa que estamos trilhando um caminho?

A outra ideia é a que evoluímos. Nossa genética foi forjada como primata. Somos primatas. Mamamos, temos pelos (alguns muitos e outros poucos), temos necessidades fisiológicas, somos animais! Mas há algo que nos difere dos outros…

Definir o que é isso acredito que nenhuma ciência humana vai saber a resposta. Para um mero materialista, somos feitos da mesma coisa que um cachorro morto… isso explica porque damos mais valor aos animais do que à homens que não conhecemos.

Segundo a teologia cristã, há uma definição clara e pontual: imagem e semelhança de Deus. Isso nos difere de todos os outros animais (então não pense que você pode sair matando eles, a primeira ordem de Deus foi para você cuidar do jardim d’Ele!).

Então fico pensando com meus botões que sim, evoluímos e nossa genética continua evoluído. Vamos vencer a AIDS, câncer, diabetes, e outras doenças. Se não fizermos isso com um improve no nosso sistema imunológico, vamos criar drogas para isso. Mas isso todos os animais estão fazendo…. Em relação ao que nos difere dos outros animais, estamos ainda no Gênesis 3: a queda do homem!

Sempre fomos assim, sempre tivemos ódio, sempre tivemos diferenças sociais, sempre oprimimos outros homens. Sempre… Devemos assumir de quem é a culpa de todos os males que há na terra. Não é do Sistema Capitalista, um sistema não massacra o homem, homens massacram homens. A culpa não é da Religião, a religião não oprime o homem, homens oprimem homens. A culpa não é da politica, a politica não corrompe o homem, o homem corrompe a si mesmo. A culpa não é do dinheiro…. Como diria Homer Simpson, “a culpa é minha e eu coloco ela em quem eu quiser”! Quer ler mais sobre essa ideia que sempre fomos o que somos, leia “O Homem Eterno” de G. K. Chesterton.

E aonde eu quero chegar com esse texto?

Minha geração tinha um sonho: mudar o mundo! Esse sonho é bobo! Nunca conseguiremos isso… Eu realmente acreditei nisso, mas agora vejo impossível. Já tinha desaprendido a sonhar, quando me voltei ao cristianismo. Achava que a caminhada cristã era esperar o céu, vivendo mediocremente na terra. Felizmente eu estava redondamente enganado!

A ideia de céu é uma coisa que só alcançamos quando deixamos a terra é uma ideia grega. Um judeu do primeiro seculo não era dicotomista, ele acreditava em um céu que vinha até a terra. Quem sabe um Reino, ou uma Cidade preparada desde o principio (Ap 21).

Depois refletindo, vi que nosso dito mestre foi embora e nos deixou uma ordem clara: vocês são meu reino! Esse reino já está implantado, e vocês tem que expandi-lo até a volta do Rei. E quando esse Rei voltar, o Reino será pleno!

Hoje eu estava pensando nisso, em quando minha geração perdeu esse sonho de mudar o mundo….

“Ele ganhou dinheiro
Ele assinou contratos
E comprou um terno
Trocou o carro
E desaprendeu
A caminhar no céu
E foi o princípio do fim”

Os Paralamas do Sucesso

[tube]http://www.youtube.com/watch?v=9JvSfIDNb4Y[/tube]