UnderDot entrevista: Marcos Almeida

IMG_20150627_202131790Retomando as entrevistas aqui no UnderDot (já falamos com gente bem legal, como Lorena Chaves, Os Oitavos, Tanlan e etc), agora chegou a vez de um dos caras mais relevantes da música Cristã nos últimos anos, o ex-vocalista do Palavrantiga, Marcos Almeida. Segue o papo:

 

1 – Como está sendo essa turnê “Eu Sarau”, está dentro de suas expectativas? [UND]
A turnê já passou por 11 cidades e superou todas as expectativas, em vários aspectos. Quando se fala de um espetáculo como este, algumas coisas se destacam, por exemplo: eu fiquei um ano longe dos palcos e que agora sigo a diante propondo uma nova experiência, temos um local de encontro não muito frequentado pelos brasileiros, que é o teatro, é uma apresentação solo, o custo de produção é alto… Bem, ninguém apostaria nesse formato, nessa conjuntura econômica que o Brasil vive, chamando um publico para o teatro, um público que me conheceu tocando em eventos promovidos na Igreja ou no circuito cultural evangélico, em sua maioria festivais e conferências. A resposta tem sido surpreendente! Estamos ocupando um lugar na cultura e compartilhando uma experiência inédita. Isso é sensacional!

 

2 – No show de Curitiba da turnê “Eu Sarau” contou com a participação de integrantes do {Sí}monami, em outras cidades também ocorrem participações especiais? Existe algum artista que você sonha em dividir o palco neste espetáculo? [UND]
Nessa turnê, apenas em Curitiba ganhei esse presente de cantar com a Liu e o Jean do Simonami. Nos outros segui a ideia de one man band. Tenho muitos sonhos, mas se eu pudesse dividir o palco hoje, chamaria a Baby do Brasil.

 

3 – O formato dos shows que você vem fazendo e o público que você está atraindo favorece o diálogo com a plateia e a inserção de elementos como a poesia. Você acha que é possível transferir um pouco disso para shows maiores? Seria viável? [UND]
Acredito que sim. Especialmente se for em grandes teatros. O desafio maior surge quando a apresentação acontece em lugares abertos. A parte técnica acaba sendo mais complicada. Mas, dá certo. O Sarau toma um ar de acampamento, de lual, é bem interessante.

 

4 – Música gospel, você acha que este rótulo mais ajuda ou atrapalha? E você se identifica como artista download (1)deste nicho? [UND]
O Gospel no Brasil é um vocabulário de comunicação,  é uma linguagem que muitas Igrejas vieram adotar, desde o final dos anos 1980, para tomar posição dentro de uma cultura mais ampla. Não me identifico com esse estilo de diálogo, embora não falte em mim o respeito e a admiração por tantos irmãos talentosos e piedosos que acolheram esse viés. Acredito que estamos vivendo um pós-movimento-gospel, onde os novos artistas que nascem na igreja ao invés de migrarem para o “secular” como resposta ao descontentamento com a estética gospel, estão inventando uma terceira via. E a medida que a Igreja for se descolando da Publicidade Gospel, isso vai ficando mais claro na cabeça das pessoas; uma coisa é a Igreja que conta mais de 2.000 anos de história, outra é o Gospel que não fez 30 anos. O que parte da Igreja brasileira tem feito agora é desconstruir o manual de comunicação de três décadas que está aí, inventando um novo lugar na cultura brasileira. Certamente isso nos levará para mais perto da rua, do português corrente, um encontro que me anima muito!

 

5 – Você já recebeu alguma crítica de artista bem identificado com o Gospel por não entender o movimento “pós-gospel” que você promove? [UND]
Tenho muitos amigos na música gospel e eles respeitam minha abordagem como eu respeito a deles. E qualquer movimento após, precisa conhecer de perto aquilo que preexiste. São duas gerações que nasceram na Igreja e que cultivam uma convivência respeitosa. Aprendo muito nesse convívio e eu jamais ouvi deles alguma crítica negativa.

 

6 – Como você vê a situação da música Cristã no Brasil do ponto de vista do mercado e da função de propagadora da fé Cristã? [UND]
Não sei falar desse ponto de vista. Invertendo o lugar, falando como um liturgista, acredito que não é bom usar pressupostos mercadológicos para pautar as decisões pastorais e eclesiásticas. Isso é um abuso de poder da esfera econômica sobre a esfera pística. Mercado e Publicidade estão, de certa forma, tentando colonizar a igreja e devemos reagir. 

7 – Mudando de assunto, os serviços de streaming (Spotity, Deezer, Rdio e etc) são a melhor resposta para a pirataria? [UND]
Quanto a prateleiras de música online, talvez essa seja a melhor que temos a disposição no momento. Mas o streaming ainda está muito aquém do que deve ser, especialmente em dois aspectos: na qualidade do áudio e na distribuição de royalties para intérpretes e compositores. Entre tantos outros aspectos, destaco esses. Se olharmos de forma mais abrangente, a melhor resposta para a pirataria ainda se chama show! O espetáculo de música, a experiência de sair de casa, ir ao teatro ou à alguma casa de shows, experimentar uma acústica perfeita, uma estrutura técnica de alta qualidade, uma atmosfera acolhedora e o seu artista no palco. Quem pode piratear isso? Daí, esperamos acabar o show e corremos pra banca de discos do artista, levamos sua discografia, as camisetas, os souvenires. Isso não tem como copiar. 

 

images 8 – Quando um integrante de uma banda (especialmente o vocalista e principal compositor) decide deixar esta banda em um momento, aparentemente, de alta na carreira, muitas vezes o público não entende muito bem e questiona bastante a decisão. Como foi no seu caso, e como você lidou com essa situação? [UND]
Não são muitos os que me perguntam por que decidi sair da banda para trilhar esse caminho desconhecido; essa talvez seja uma pergunta jornalística, porque dos que me perguntaram, todos trabalham para algum veículo de comunicação. Curioso isso, rs…  Mas gosto de pensar que esse foi o meio de me manter na tensão tão útil para a invenção, sair do conforto para encontrar o novo. Acredito que somos tentados a fazer do trabalho um monumento. Mas isso é ruim, por que fomos feitos para o movimento. Depois de sete anos com o Palavrantiga, três discos e centenas de shows, celebro o sucesso que tivemos juntos, vejo os frutos dessa obra e como que soprado pelo vento me vejo agora com uma nova disposição para me encontrar com o futuro.

 

9 – Temos sentido falta de um posicionamento dos integrantes remanescentes do Palavrantiga quanto à continuidade da banda. Você mantem contato com eles? Sabe como está o processo de escolha do novo vocalista? [UND]
Mantenho contato com eles, mas sobre os processos eu não sou consultado em nada. As informações que tenho são as mesmas que foram divulgadas na rede do grupo: o Palavrantiga não acabou e a banda está a procura de um novo vocalista.

 

10 – Você consegue enxergar influência sua e do Palavrantiga em bandas mais novas? Há uma sequência nesse movimento de música Cristã mais “alternativa”? [UND]
Veja: o disco “Sobre o Mesmo Chão”, que deu sequência a um trabalho iniciado em 2008, apresentou um testemunho de que é possível fazer rock nacional a partir dos afetos, sentimentos e experiências de um brasileiro que segue a Cristo e ama sua Igreja. Mas a banda não se filiou a nenhum movimento de música cristã alternativa, com intenções de renovar o cântico litúrgico. É uma abordagem que faz toda diferença; o Palavrantiga como banda brasileira de rock criou uma tensão que será sustentada se as novas bandas não abrirem mão de adquirir a sua cidadania artística dentro da nossa cultura. Essa é a contribuição do Palavrantiga na história. Ao meu ver, foi uma intromissão na linhagem do rock nacional, dando às guitarras distorcidas e a poesia em português uma dicção de esperança.

 Se há uma sequência nesse movimento, deixo que as novas bandas respondam.

 

11 – Quem do “underground” musical você apontaria como boa aposta, e que pouca gente conhece? [UND]
Assisti ao show da banda Nume (de Macapá) e gostei muito. Tem o Brasil Dub e o Gravidade Zion (de Vila Velha). Mas destaco a ressignificação que a Baby do Brasil está fazendo com o seu repertório. Ela retorna ao mainstream com o show Baby Sucessos que está lindo demais. Um atmosfera espiritual incrível. Ela está ampliando as fronteiras !

 

12 – Existe alguma música que você considere como a composição mais importante para sua carreira? [UND]
Acho que “Vem me socorrer”, talvez. Junto dela algumas outras. Mas, como você perguntou qual a canção mais importante, escolho essa hoje. Amanhã pode ser outra, rs.

13 – Já vimos colaborações suas com Tanlan e Lorena Chaves, existe algum projeto em andamento de trabalho seu em conjunto com outros artistas (Cristãos ou não)? [UND]
Sim! Acabei de gravar voz numa bela canção do Hélvio Sodré, chamada “Paraíso” e tenho recebido convites para colaborar como compositor e intérprete em outros trabalhos. Em breve vocês vão ficar sabendo.download

 

14 – Quando você vai lançar um disco solo “cheio”? [UND]
Outubro lanço “Eu Sarau – ao vivo : a banda de um homem só” e em Abril/2016 um CD só de inéditas.

 

15 – Fale-nos sobre seu trabalho literário, livros já lançados e se tem algo novo previsto. [UND]
Em 2014 lancei dois títulos. “Natal nos trópicos – um conto de verão”, com o single “Biquíni de Natal” em Dezembro. Meses antes, publiquei o “Retuíte – frases curtas de longa duração”. Agora estou trabalhando numa coletânea de textos escritos para o Blog Nossa Brasilidade. Ainda não tenho o título, mas estou preparando uma introdução, amarrando algumas ideias que estavam soltas e ajustando algumas passagens. Depois de três anos escrevendo intensamente, a partir das pesquisas da minha equipe (uma socióloga, um teólogo, um físico) e as preciosas contribuições dos leitores, estou relendo tudo com um olhar crítico, buscando tirar dali um texto mais claro, sem perder a autenticidade e os insights do trabalho. Estou empolgado com o resultado que já consegui. Será uma oportunidade maravilhosa; levar para os shows e palestras um material impresso, bem editado, de fácil leitura, com o melhor conteúdo do Blog

 

 16 – Há no Brasil um pedido massivo para que artistas se posicionem sobre assuntos polêmicos, e quando eles se posicionam, na maioria das vezes são criticados por sua posição e escutam que melhor é ficarem calados. Sendo artista e Cristão, você acha que é necessário sempre se posicionar? [UND]
Acho que sempre estamos nos posicionando e o silêncio me parece ser o mais adequado em muitas situações para edificar as pessoas.

 

17 – Em alguns textos do site Nossa Brasilidade você fala bastante da questão da fé na música e na cultura popular brasileira, sem que isso seja necessariamente propaganda religiosa. Você acha que naquilo que você trabalha (ou na sua música), a fé é mais uma questão de identidade do que de religião? [UND]
Sim! É isso: a fé não é um adereço, ela é começo. Ela nos ensina a ver a realidade do jeito que é. Quando colocamos a fé depois das nossas construções, como um enfeite bonitinho e sacralizado, vira essa coisa esquisita que é a religião, um método para escravizar pessoas , para tirar-lhes a visão, para obscurecer a vida.

Quando pensamos que a música, especialmente a canção, expressa os sentimentos e os pensamentos da gente, você entende porque os religiosos contemporâneos, por exemplo, passam mais tempo fazendo propaganda ao invés de fazer arte. Ficam preocupados em criar uma arte cristã, sendo que o cristão é o único que não precisa se preocupar com isso. Existe um rio que flui e que não para de jorrar daquele que tem a fé como fonte. Fizeram da fé uma represa, mas a fé é fonte.

 

18 – Agradecemos muito pela entrevista, e deixamos espaço aberto para considerações finais e um recado pros leitores do UnderDot.
Obrigado pela leitura. Tentei responder da forma mais clara e verdadeira possível. Espero vocês no show, em qualquer canto desse mundo. Incentivo vocês a tirar um tempo, nem que seja mensal, para ir ao teatro. Isso faz bem pra alma. Acho que Deus nos habilitou para a arte afim de nos ajudar a atravessar o deserto da vida, o sofrimento, a dor, o desencanto. A arte tecida na Esperança tem esse poder e faz isso não pela evasão da realidade, ela consegue dar a gente pelo menos duas coisas: um outro olhar para a vida e faz isso criando um oásis no meio do caos.