Editorial UnderDot – sobre ódio, intolerância e democracia.

Este texto está dividido em duas partes, e é significativo que um sulista e um nordestino sejam os responsáveis por ele.

Por Marlos Ferreira

A tragédia nas redes sociais foi se anunciando, a cada pesquisa, a cada debate, a cada piada de mau gosto, a cada mentira compartilhada, a cada generalização do tipo “só analfabeto e corrupto vota PT” x “só coxinha e egoísta vota PSDB”, o monstro foi criando forma, e o monstro saiu de seu esconderijo (se é que estava escondido) com violência entre ontem e hoje.

Vale ressaltar que o “deixem a Dilma governar só o Nordeste” é tão preconceituoso quanto “eleitor do Aécio deveria sair do Brasil”. Exilar quem pensa diferente é algo recente em nossa história, aconteceu logo ali na Ditadura Militar, lembram? Enxergar em si toda a virtude e no próximo todos os defeitos nos afasta da nossa realidade, a de que somos todos humanos imperfeitos.

Feita a ressalva, não posso ser ingênuo a ponto de comparar provocações e colocações infelizes, com os crimes de preconceito, injúria e xenofobia que tomaram conta das redes sociais após o anúncio da reeleição de Dilma Roussef, definitivamente são coisas bem separadas, e foi assustador. Eu já havia colocado alguns filtros em meu perfil, já estava evitando alguns radicais de ambos os lados, evitei entrar em polêmicas, não abri meu voto, mas ainda assim não estava preparado para o que aconteceu, principalmente para os ataques mais baixos vindos da parte da população que se diz mais culta.

Quando foi que esquecemos (se é que um dia soubemos) que, em última análise, o voto do cidadão que votou “com a barriga” tem exatamente o mesmo peso e a mesma validade do voto do cidadão que fez uma avaliação aprofundada, levando em consideração aspectos históricos, políticos e econômicos? Ambos valem apenas e tão somente um voto, correspondem a uma opinião, um desejo, uma vontade e uma esperança. Que ambos os lados podem ter razão a depender de seu ponto de vista e contexto sociocultural, que tanto o cidadão que ficou com medo de perder o Bolsa Família quando o cidadão revoltado pela quantidade de impostos que paga e a baixa qualidade dos serviços que recebe em troca, tem a mesma representatividade e que justamente esta é a beleza da Democracia?   Se você não está pronto para conviver com isso, não é democracia o que você deseja.

Nesses tempos de vida virtual, onde a impressão que você passa em seu perfil vale mais do que o que você realmente vive ou é, fico aliviado em não ter tomado parte das manifestações no ano passado, vendo agora parece apenas um evento a mais para tirarmos fotos e compartilharmos frases feitas e pensamentos rasos nas redes sociais.  Elas realmente não significaram nada para nós como Nação. Como Povo.

Como brasileiro nascido e criado no Sul do Brasil, eu peço desculpas. Como homem branco, heterossexual, cristão e formado, peço desculpas. Como cidadão viajado, que conhece um pouco desse Brasil a ponto de enxergar mais semelhanças do que diferenças, e enxergar suas belezas e mazelas em todos os rincões e metrópoles, humildemente peço desculpas.

Im-Sorry

 

Passo a bola para meu irmão Nordestino, Marcus Barreto.

 

Esse post, escrito a quatro mãos, não tem como objetivo uma espécie de retratação ou exaltação. Simplesmente é uma tentativa “nua e crua” de entender como as redes sociais viraram um campo de batalha onde muitos, supostamente protegidos pelo anonimato, destilam ódio e opiniões sem o mínimo embasamento. E tudo isso usando como pressuposto a democracia e a liberdade de expressão.

De antemão, digo que sou apartidário, não creio em ideologias e nem estava defendo nem Aécio e nem Dilma.

Tinha a certeza absoluta, fosse qual fosse o resultado que ainda no domingo, logo após o resultado para eleição presidencial, os nordestinos seriam “agraciados”, mais uma vez, com posts carregados de ignorância, e ignorância tanto no sentido de desconhecimento como no sentido de estupidez mesmo.

Assim, fui “brindado” com a sugestão do Romeu Tuma Jr., em dividir o país, deixando a parte do Norte com Dilma, claro (leia aqui). Em outro post, vi uma mulher escrever algo como: “Se aparecer algum nordestino em MG, toco fogo”. Ela só esqueceu um pequeno “detalhe”, Aécio perdeu em Minas, mas esse detalhe, em nome da demonização do Nordeste, pode ser omitido.

Poderia ficar me lamentando ou incitando ainda mais esse “BA x VI” (ou FLA x FLU, se preferirem) estúpido. Ou poderia ir pelo caminho do conflito de classes, ou citar Boaventura de Sousa Santos e destrinchar a questão do campo hegemônico. Mas acho que a coisa é mais profunda e ao mesmo tempo básica. O que falta é algo chamado respeito, além da falsa noção de democracia. E ao contrário do senso comum, creio que futebol, religião e política se discutem, sim! Basta que cada um respeite a opinião contrária e todos poderão conviver tranquilamente.

Porém, respeito é o que menos existe. Além de que, dificilmente é possível discutir de maneira salutar.  Observem que em qualquer discussão, quando um dos lados não tem mais argumentos, a coisa vira ataque pessoal. Daí, inúmeros casos de amizades desfeitas por causa da eleição.

E na esteira do DES-respeito, vem a noção errada de democracia. Em lugar nenhum do mundo todos pensam da mesma maneira. Logo, é necessário respeitar o desejo da maioria. Mas como constatado, o que está valendo é impor um ponto de vista, ou no caso, um candidato.

Li e ouvi muita gente criticando o fato de Jair Bolssonaro e Marco Feliciano terem sido eleitos. Mas isso é democracia! Eles podem não representar o que penso, mas com certeza representam muita gente.

No final das contas, toda essa celeuma só reforça estereótipos. Seja do nordestino visto como “burro” e/ou “miserável”. Seja do sulista como “preconceituoso” e “arrogante”.

 

Infelizmente, como ironicamente pontuou Marco Antônio Araújo, “democracia boa é aquela em que nosso ponto de vista prevalece. O resto é coisa de gente burra e alienada”. E essa é a noção de democracia que infesta as redes sociais.

 

Fiquem na Paz.