O lançamento do U2 e o valor da música.

O dia 09/09 foi bem agitado para os fãs de tecnologia e também de música pop. A gigante norte-americana Apple apresentou o novo iPhone e um relógio “inteligente”.

Quando o evento já estava caminhando para o final, eis que os boatos que circulavam entre os fãs do U2 se confirmaram, e a banda irlandesa aparece no palco tocando seu novo single “The Miracle (of Joey Ramone)”, até aí tudo bem, mas após uma constrangedora “negociação” entre Bono e Tim Cook é que realmente veio a surpresa, o novo CD – Songs of Innocence – seria disponibilizado gratuitamente a todos os usuários do iTunes, aproximadamente meio Bilhão de pessoas, o que configura o maior lançamento musical de todos os tempos.

 

Este texto não é uma resenha do novo álbum, já o ouvi várias vezes, estou gostando, acho que é bem confessional nas letras e é o melhor deste “All That You Can’t Leave Behind”, mas o objetivo desse é entender os rumos que o mercado da música estão tomando, e que isso pode significar daqui pra frente.

Instantes após CD estar disponível na iTunes, já estava também circulando via torrent, deixando de ser um privilégio exclusivo dos clientes da Apple, mas isso obviamente já era esperado, o que diminui bastante o potencial de venda do CD físico (que deve sair em Outubro), então qual é a intenção do U2, e o que eles ganham com isso? Ganham atenção e mídia, embora a surpresa do lançamento tenha resultado em uma receptividade apenas morna na imprensa cultural ao redor do mundo (o que também é bem normal, afinal a mídia gosta mesmo é de amar aquela banda que ninguém ainda conhece, e tratar qualquer veterano com o ar mais blasé possível, independente da qualidade do material), mas além da atenção e mídia, o U2 atinge um novo público, mostra suas músicas para potenciais novos fãs, o que pode resultar em um aquecimento nas vendas de todo o seu catálogo, e em uma carta divulgada por Bono, prepara o lançamento de um novo álbum já batizado “Songs of Experience” . A sequência natural disso tudo é outra mega turnê mundial para 2015. De bobo eles não têm nada, nem U2, nem Apple.

u2 apple

Lançar música gratuitamente na internet não é novidade, pelo contrário, para artistas novatos é quase a única forma de começar a mostrar seu trabalho, e mesmo para gente já grande como o Radiohead usou esse expediente no lançamento de “In Rainbows” em 2007, onde o CD foi disponibilizado em um site onde cada um pagava o que quisesse pelo download, ou nem pagava se não quisesse, mas um nome como o U2, a maior (e na minha humilde opinião, a última grande) banda surgida desde o final dos anos 70, uma das poucas com vendas que chegam na casa dos milhões de CDs, essa ruptura tem sim uma significância para o mercado.

Estamos na época em que parar para simplesmente ouvir música é um hábito quase morto. Muitas casas já nem possuem mais um “aparelho de som”, ou seja, um aparelho dedicado exclusivamente para se ouvir música, ouvimos música no computador, no tablet, no celular, enquanto jogamos, estudamos, conversamos com nossos amigos, assistimos televisão, enfim, música virou apenas um ruído de fundo para outras tarefas, infelizmente. Nesse contexto, qual é o sentido de se pagar R$ 25 em um CD com 11 músicas? Para a maioria das pessoas, nenhum.

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Muito tem se escrito sobre o efeito que a queda do valor da música pode ter em sua qualidade. Em seu livro chamado “O Dia Em Que O Rock Morreu”, em um dos poucos momentos de inspiração do livro, o jornalista André Forastieri bate o martelo:

 

A cada canção que você baixa sem pagar, uns centavinhos deixam de entrar no bolso de quem compôs, gravou, produziu. Cauda longa: no acúmulo dos desfalques se inviabilizam carreiras, e principalmente as novas. Bye bye bandas. O rock morreu. E foi você quem matou.

 

O U2 não vai morrer caso a estratégia não funcione corretamente e não atinja o retorno esperado, na pior das hipóteses vai encher estádios mundo afora tocando os clássicos de 20 anos atrás. Quando passar pelo Brasil eu estarei lá. Quando o CD “Songs of Innocence” for lançado fisicamente, eu irei comprar (mentira, irei pedir para a minha esposa como presente de aniversário, e ainda vou pedir a edição luxo) assim como comprei o “In Rainbows”, do Radiohead, mas o fato é que eu não sirvo muito de parâmetro, minha relação com os CDs eu já expliquei nesse texto. Tire você mesmo as suas conclusões.

 

Fiquem na paz.

 

@marlosferreira