Por que ainda compro CDs?

Antes de qualquer coisa, preciso admitir que sou um pouco saudosista.

Vivo cercado por tecnologia, mas não me apego à ela, e tenho até um certo orgulho da estranheza que vejo na cara dos meus amigos quando conto que nunca tive um vídeo game na minha vida. Tenho paixão por coisas de uma época que nem vivi, como carros dos anos 60 por exemplo, mas também mantenho vínculos com coisas de uma época que vivi muito bem, talvez seja por isso que eu continuo insistindo em comprar CDs.

Aprendi a gostar de música e formei meu gosto musical em um período onde a música estava fortemente ligada a seu suporte físico, por isso as fitas K7, os discos de vinil e principalmente os CDs foram muito importantes para mim, lembro perfeitamente do primeiro CD que comprei (o V, da Legião Urbana) e também lembro do dia em que comprei o OK Computer, do Radiohead, e ouvi aquele CD de ponta a ponta 7 vezes, apenas no dia em o comprei.

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No entanto, este texto não é exatamente sobre saudosismo, mas sim sobre o efeito que a perda do valor da música está causando em sua qualidade.

Eu viajo com frequência para o interior do Paraná, especialmente para a região de Londrina, onde o sertanejo universitário é uma febre.  É muito comum os promotores das festas usarem CDs dos artistas no lugar de panfletos, é fato que as vendas de CDs estão em queda franca, e somente os grandes medalhões da música mundial alcançam números mais expressivos, mas usar um CD como material promocional distribuído em semáforos é um indicativo importante.

Um artista não precisa mais caprichar na gravação de um CD para a partir daí trabalhar para conquistar seu mercado, um web-hit já é suficiente para começar a ganhar fama e a fazer shows. Isso tem um aspecto muito positivo que é o fato de que os executivos das gravadoras não decidem mais o que toca ou o que não toca, por outro lado, a ausência do “filtro” que as gravadoras fazem tem produzido um fenômeno inverso, os hits saem da web, alcançam o público e após isso as gravadoras vão atrás. A questão é a qualidade do que tem surgido deste movimento, obviamente tem muita coisa legal, mas é quase um consenso geral de que o nível geral da música popular anda caindo geração após geração.

Os artistas atuais não cansam de repetir que a principal fonte de renda atualmente são os shows. Os shows são legais, é claro, mas um artista não precisa criar muita coisa para sair em turnê, não precisa inovar, existem inúmeros artistas se sustentando há muitos anos com base em meia dúzia de sucessos feitos no passado. O foco dos artistas passou para a criação do próximo hit, basta uma ideia e um clip no YouTube e pronto, seguem as turnês. Trabalhar em cima de um disco ou elaborar um conceito se tornou algo que os artistas populares simplesmente não podem ser dar ao luxo de fazer.

O fato do trabalho de estúdio ser uma etapa intermediária, e o lançamento de um CD não ser mais a “cereja do bolo” de uma carreira tem alguma influência na queda da qualidade da música atual? Acredito que sim. Porém não vou bancar o advogado do diabo e defender as gravadoras, este é um caminho sem volta e o mercado já está adaptado à nova realidade.  A questão aqui é mais simples: por que eu ainda compro CDs?

Gostaria de ter muito mais CDs do que tenho, e é claro que baixo muita coisa da internet, mas continuo comprando CDs até hoje, principalmente de bandas independentes. Compro CDs de grandes artistas também, gosto de edições especiais e ainda pretendo começar uma coleção de discos de vinil, mas por quê?

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Além da óbvia questão do apoio aos artistas independentes, quando eu tenho um CD em mãos eu ouço (ou pelo menos tento, na medida em que tenho tempo) com mais atenção, gosto de sentar e degustar o CD, parar o que estiver fazendo e somente ouvir, permitindo-me apenas ler o encarte enquanto ouço. Tem um sabor diferente para mim, me lembra do tempo em que eu tinha que pensar bem a cada CD que eu iria comprar, uma vez que a grana era sempre curta e o CD que eu decidisse comprar seria o que eu teria de novo para ouvir durante todo o próximo mês. Hoje em dia a cada sincronização que faço em meu iPod, as músicas são acrescentadas às dezenas, até centenas, e boa parte delas eu ainda nem ouvi… Era melhor então ouvir poucas músicas diferentes, do que ouvir qualquer uma que eu queira? É claro que não, mas o valor que eu sentia em cada uma delas era diferente, este é o ponto.

 

Existem estatísticas de vários sites de streaming indicando que as pessoas estão perdendo o interesse em ouvir CDs inteiros, o número de cliques vai diminuindo a cada faixa, e poucos chegam às últimas. Seja um meio ou um fim, espero que a época dos grandes álbuns retorne, CDs que a gente ouve até o fim, e até decorar a ordem das músicas, CDs cujas capas se tornem referências, CDs bons o suficiente para justificar o que para muitos é injustificável: que você o compre.

 

Fiquem na paz.

 

@marlosferreira

  • Fernando

    Que bacana brother, somos bem parecidos, também tenho uma pequena coleção de CDs e DVDs e pretendo começar de livros também rsrs, pude observar que gosta de Dream Theater, vi alguns discos ali rs, tenho um DVD deles, sou fã tbm.
    Grande abraço!